O vice-presidente da Abras, Márcio Milan, considerou tardia a proibição das apostas esportivas, alertando para os impactos negativos na renda das famílias e defendendo campanhas de conscientização contra o mercado ilegal. Paralelamente, o consumo nos lares cresceu 2,21% em agosto, impulsionado pelo emprego e pela renda, apesar do maior endividamento familiar. Para o fim do ano, a entidade projeta sustentação das vendas com o 13º salário e benefícios sociais, mas monitora a inflação dos alimentos.
O vice-presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Márcio Milan, afirmou que a decisão do governo de proibir apostas esportivas veio tarde e defendeu que as restrições sejam acompanhadas de campanhas de conscientização ao consumidor. "Ao nosso ver, essa decisão do governo foi um pouco tardia", disse nesta quinta-feira, 1º, em entrevista à imprensa.
Segundo ele, a Abras começou há mais de um ano a alertar o governo sobre os efeitos das apostas no orçamento das famílias. A entidade defendia regras mais rígidas de propaganda e tributação, mas avalia que as medidas adotadas não foram suficientes para reduzir as apostas. "No fundo, ela disputa a renda disponível das famílias", afirmou.
Milan disse que a preocupação da Abras vai além do impacto sobre o consumo e envolve riscos financeiros, sociais e de saúde. Na avaliação dele, enquanto o setor supermercadista vende alimentação, qualidade de vida e saúde, as bets poderiam trazer uma "doença social".
Ele acrescentou que a proibição isolada não resolve o problema e pode abrir espaço para o mercado ilegal. Por isso, defende campanhas de conscientização nos moldes das ações antitabagismo.
Consumo nos lares cresce em agosto
O consumo nos lares brasileiros cresceu 2,21% em agosto na comparação com julho, segundo dados da Abras. Na comparação com agosto de 2025, houve alta de 2,69%. No acumulado de janeiro a agosto, o avanço é de 2,71%.
O resultado mantém a trajetória positiva do indicador, embora em ritmo mais moderado do que na passagem de junho para julho, quando o consumo havia avançado 3,01%.
Segundo Milan, o desempenho continua sustentado pelo mercado de trabalho e pela expansão da renda. A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, enquanto a população ocupada chegou a 103,5 milhões de pessoas, maior nível da série histórica.
O executivo, porém, chamou atenção para o maior comprometimento da renda das famílias, que atingiu 28,7% em julho, ante 27,3% um ano antes. "Isso ajuda a explicar por que o consumo segue em trajetória positiva, mas com o consumidor mais atento a preços, promoções e à composição do orçamento", disse.
A cesta Abrasmercado, composta por 35 produtos de largo consumo, registrou queda de 0,57% em agosto, a terceira retração mensal consecutiva, após recuos de 0,28% em junho e de 1,24% em julho. Com isso, o valor médio passou de R$ 841,95 para R$ 837,14. No acumulado do ano, porém, a cesta ainda registra alta de 4,60%.
Já a cesta de 12 produtos básicos teve comportamento diferente e registrou leve alta de 0,09% em agosto na comparação com julho. O valor médio nacional ficou em R$ 356,76. No acumulado de janeiro a agosto, a cesta registra avanço de 4,81%.
Para o último trimestre, a Abras vê fatores que podem dar sustentação ao consumo, como o reajuste do Bolsa Família, o pagamento do 13.º salário, a Black Friday e as festas de fim de ano. A entidade estima que cerca de R$ 49 do valor adicional médio do Bolsa Família por família possam ser destinados ao abastecimento dos lares.
A associação também monitora a retomada da alta dos alimentos na prévia da inflação de setembro e os possíveis efeitos climáticos sobre a oferta. "Ainda é cedo para dizer se a pressão sobre os preços deve persistir nos próximos meses", afirma Milan.