RIO E SÃO PAULO - A indústria brasileira voltou a mostrar fôlego em abril, com um impulso, sobretudo, da cadeia de petróleo. A produção avançou 0,7% em abril deste ano na comparação com março, na série com ajuste sazonal, segundo dados divulgados nesta quarta-feira, 3, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Foi a quarta expansão consecutiva, acumulando um crescimento de 4,4% no período. A indústria teve o melhor desempenho para meses de abril desde 2013, lembrou André Macedo, gerente da Pesquisa Industrial Mensal no IBGE.
"A última vez que a indústria cresceu por tantos meses foi de maio a novembro de 2020, com alta de 39,7%", citou o pesquisador, mencionando o período de recuperação da produção logo após o choque inicial provocado pela pandemia de covid-19.
O resultado de abril veio acima da mediana das expectativas dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast, de alta de 0,5%. O intervalo das estimativas ia desde uma queda de 0,4% a um aumento de 0,9%. A guerra dos Estados Unidos e Israel no Irã pode ter ajudado a produção da indústria brasileira no mês via extrativa mineral e refino de petróleo. Os dois setores foram os que sustentaram a expansão na indústria brasileira no período, declarou Macedo.
"Tem ali algum tipo de reflexo sim desse crescimento do setor como estratégia para evitar a volatilidade como efeito da guerra e do fechamento do Estreito de Ormuz", disse o pesquisador do IBGE.
Na passagem de março para abril, 14 dos 25 ramos industriais investigados mostraram avanço na produção, mas o resultado global foi influenciado, sobretudo, pela expansão de 3,1% nas atividades de indústrias extrativas e de 3,1% em coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis, ambas com avanços pelo quinto mês consecutivo.
"A alta concentrada em segmentos voltados para o setor externo e fortemente dependentes de commodities segue aderente ao ambiente dinâmico da balança comercial e do efeito da guerra no Oriente Médio sobre as exportações brasileiras", avaliou o economista Matheus Pizzani, do PicPay.
O impacto vindo da guerra no Oriente Médio
Segundo André Macedo, do IBGE, o aumento da produção por esses setores visa a uma elevação da oferta desses itens industriais diante da guerra. Entretanto, para o mês de abril, houve ainda a contribuição positiva de outros itens nesses segmentos para além do petróleo: avançaram o minério de ferro nas indústrias extrativas e a produção de álcool no segmento de refino.
"Esses quatro meses de crescimento em sequência na indústria estão muito garantidos por estratégia setorial das extrativas e derivados", afirmou Macedo. "O refino de petróleo está operando quase perto de 100% da capacidade", acrescentou, mencionando uma tentativa setorial de evitar a lógica de maior oscilação de preços no mercado externo.
A atividade de derivados do petróleo acumula uma expansão de 17,4% em cinco meses de avanços seguidos, e as extrativas têm crescimento de 7,5% também nesses cinco meses de altas consecutivas.
Por outro lado, os setores mais sensíveis às condições domésticas, especialmente à taxa de juros elevada, continuam vulneráveis e apresentando tendência de desaceleração, segundo o economista sênior do Inter, André Valério.
"Esperamos que a produção industrial continue melhorando na margem devido à indústria extrativa", afirmou Valério, que mantém uma projeção de crescimento de 1% para a produção industrial como um todo em 2026.
Já o recorte da indústria de transformação acumula alta de 4,1% em quatro meses de avanços seguidos.
"A política monetária (em nível contracionista) tem efeito sim sobre a produção industrial, claro que tem efeito. Quando a gente pega a indústria de transformação, que é mais sujeita a efeitos da política monetária, a gente tem crescimentos consecutivos, mas em magnitude menor", observou Macedo. "O mercado de trabalho mais resiliente também tem efeitos importantes sobre o comportamento da economia doméstica e também sobre o setor industrial. A taxa de desocupação menor e o aumento dos salários têm efeito positivo", ponderou.
Em relação a abril de 2025, a produção industrial nacional subiu 2,7% em abril de 2026, também acima da mediana das projeções, de alta de 1,9%, com piso de recuo de 1% e teto de avanço de 3,7%.