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Pagamento invisível não é mágica; é uma evolução que vai deixar para trás tags e carteiras digitais

Cliente busca experiências cada vez mais fluídas, mas sem abrir mão da confiança

24 ago 2026 - 18h51
Resumo
O avanço dos pagamentos invisíveis, impulsionado pela biometria e pelo mobile banking, busca eliminar etapas nas transações cotidianas. Discutida no Febraban Tech, a tendência reflete a digitalização financeira no Brasil, onde canais digitais já concentram a maioria das operações. Apesar da simplicidade para o consumidor, essa evolução demanda uma infraestrutura robusta e investimentos bilionários dos bancos em inteligência artificial e cibersegurança para garantir a proteção dos dados.

Parece novidade, mas não é. Há mais de duas décadas, os brasileiros já convivem com uma forma de pagamento que praticamente desapareceu da experiência do consumidor. Desde o início dos anos 2000, tornou-se possível atravessar uma praça de pedágio sem parar para sacar dinheiro ou entregar um cartão. Tudo por causa de uma tag instalada no para-brisa que identifica o veículo e o valor é cobrado automaticamente.

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De lá para cá, a tecnologia avançou — e a ideia de pagar sem necessariamente perceber cada etapa da transação começa a ganhar novos contornos. Celulares, biometria facial e, em um futuro próximo, até a identificação pela palma da mão podem ampliar essa experiência.

'Pagamentos invisíveis' foi um dos temas do primeiro dia do Febraban Tech 2026
'Pagamentos invisíveis' foi um dos temas do primeiro dia do Febraban Tech 2026
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

A tendência acompanha uma transformação mais ampla na relação dos brasileiros com os serviços financeiros. A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, realizada pela Deloitte, mostra que 83% das transações bancárias já são feitas por canais digitais e que o celular responde, sozinho, por 78% das operações. Em cinco anos, o número de transações realizadas por mobile banking cresceu 169%.

É nesse ambiente que ganha força o chamado pagamento invisível.

"O chamado pagamento invisível não é mágica. Existe muita coisa por trás, e o mais importante é que tudo seja feito de forma segura. E a questão do processamento dos dados também é fundamental", afirma Cássia Pinheiro, head of Performance Optimization da Adyen. O tema esteve em discussão nesta segunda-feira, 24, no Febraban Tech 2026, evento que segue até quarta-feira, 26, no Distrito Anhembi, na zona norte de São Paulo. O painel sobre pagamento invisíveis teve a mediação do jornalista Ricardo Gandour.

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A promessa é simples: reduzir ao máximo as etapas entre a decisão de comprar e a conclusão da transação. Mas, por trás dessa aparente simplicidade, há uma infraestrutura complexa de identificação, autenticação, análise de risco e processamento de dados.

A segurança é inegociável, mas a liberdade de escolha do consumidor também ocupa um lugar central nessa transformação, segundo Marcos Alexandre Cavagnoli, diretor de Produtos e Negócios Digitais do Bradesco.

"A experiência do cliente também é muito importante. Não podemos deixar de estar presentes para fazer toda a orquestração dos serviços, nem de forma pessoal nem enquanto marca. O contexto das operações e a atenção imediata também fazem parte de todo o processo", afirma o executivo.

Os exemplos já estão espalhados pelo cotidiano. É o pagamento automático de uma corrida por aplicativo, a possibilidade de deixar um hotel sem passar por um checkout tradicional ou a cobrança de uma compra feita quase sem interação com um caixa.

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Para Edson Santos, fundador e sócio da Colink Advisory, as mudanças tecnológicas vêm acompanhadas de uma transformação acelerada no próprio comportamento dos consumidores.

"Se o Pix e o cartão de crédito ainda coexistem, por causa, por exemplo, da possibilidade de parcelamento que o segundo permite, o cartão de débito está sendo cada vez menos usado, exatamente por causa do Pix. E, em alguns casos, a velocidade da transação passou a importar mais do que o valor em si. É o que ocorre, por exemplo, no transporte público", afirma.

A própria evolução dos canais bancários ajuda a explicar essa mudança. Segundo a pesquisa da Febraban, os canais digitais já concentram a maior parte das operações dos brasileiros, e o mobile banking se consolidou como o principal ponto de contato entre clientes e instituições financeiras.

O levantamento também indica que os bancos devem destinar R$ 50,4 bilhões à tecnologia em 2026, com inteligência artificial e cibersegurança entre as principais prioridades.

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Do lado dos bancos, o desafio é entender o que o cliente procura, estar presente nos diferentes canais — inclusive aplicativos de mensagens — e, ao mesmo tempo, construir um ambiente confiável e seguro.

Para Gustavo de Sousa Santos, diretor de Cartões e Everyday Banking do Santander Brasil, o avanço dos pagamentos invisíveis não significa que as instituições financeiras perderão espaço na relação com o consumidor. "Pensar que o pagamento invisível vai fazer desaparecer a marca é um erro estratégico. O que estamos fazendo é gerar cada vez mais valor para o cliente", afirma.

Se a evolução das tags nos carros até as carteiras digitais levou pouco mais de duas décadas, os especialistas reunidos no Febraban Tech apontam para uma nova etapa. A identificação poderá passar cada vez mais pelo próprio corpo — pela digital, pelo rosto ou pela palma da mão. Mas isso não significa, necessariamente, transformar o corpo em uma carteira.

"O corpo nunca vai virar uma carteira porque a segurança tem que estar por trás. Os hábitos comportamentais serão cada vez mais considerados nesse caso, e dois ou três fatores de segurança estarão sempre em jogo", explica Santos.

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No fim das contas, talvez essa seja justamente a contradição central do pagamento invisível. Quanto menos o consumidor percebe o pagamento, mais tecnologia precisa existir por trás dele. Identificação, autenticação, prevenção a fraudes e análise de comportamento precisam funcionar quase instantaneamente para que, na ponta, a experiência pareça tão simples quanto atravessar uma praça de pedágio sem sequer reduzir a velocidade.

Se o cliente quer algo cada vez mais simples, toda a arquitetura de segurança também tornou-se invisível, como lembra Cássia, da Adyen. "Passa também por uma sensação de insegurança, porque fomos ensinados a digitar uma senha ou a trancar a porta antes de dormir."

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