A onda de recuperações judiciais e extrajudiciais de empresas no Brasil indica que, além de dificuldades com a pressão macroeconômica, as companhias estão passando por um "teste de governança", que expõe fragilidades na antecipação de riscos, especialmente os relacionados ao controle de riscos financeiros.
A avaliação é de especialistas ouvidos pelo Estadão, que analisaram o cenário recorde de pedidos dessa natureza. O País encerrou o ano de 2025 com 5.680 empresas em recuperação judicial, segundo o Monitor RGF de Recuperação Judicial, da RGF & Associados. O volume indicou um avanço de 24,3% em relação ao final de 2024.
Nesta semana, duas grandes empresas brasileiras anunciaram pedidos de recuperação extrajudicial: a Raízen, nesta quarta-feira, 11, e o Grupo Pão de Açúcar (GPA), na véspera. Em ambos os casos, a medida tem o objetivo de facilitar a negociação de dívidas.
A coordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getulio Vargas (FGVethics), Lígia Maura Costa, considera que o aumento dos pedidos de recuperação no País vem de uma combinação de fatores.
"Por um lado, (indica) um ambiente macroeconômico adverso, com juros elevados e maior pressão sobre fluxos de caixa. Por outro, expõe fragilidades de governança, sobretudo na gestão de riscos financeiros, no controle do endividamento e na qualidade do planejamento estratégico."
Ela pondera que não se pode ignorar que a recuperação judicial também indica maturidade institucional na forma como o instrumento é visto. Em vez de sinalizar "um fracasso empresarial", passou a ser utilizado como mecanismo jurídico de reorganização. Mas há ressalvas quanto ao uso excessivo.
"O problema se agrava quando a recuperação é utilizada quando decorre de falhas estruturais de governança que poderiam ter sido mitigadas por melhores práticas de gestão, supervisão e controle", explica. "Nesse caso, ela deixa de cumprir sua função de reorganização e passa a refletir deficiências na condução e na fiscalização das empresas."
Em linha semelhante, o professor da pós-graduação em ESG na ESPM Roberto Gonzalez, acredita que uma boa governança estruturada antevê cenários de risco antes de uma recuperação judicial, evitando que ela seja necessária.
"O verdadeiro teste de governança é evitar a recuperação judicial", diz. "Uma governança estruturada: com conselhos, comitês, fluxo de informação, políticas, compliance, auditoria interna, gestão de risco, controladoria, antevê a possibilidade de uma recuperação judicial, acerta desvios de rotas de decisão estratégicas que foram tomadas e deram errado, evitando que a recuperação judicial aconteça."
Avaliar com cautela
Em contraponto aos demais, o professor do MBA em Governança, Riscos e Compliance da Trevisan Escola de Negócios Luciano Malara, avalia que o aumento expressivo de recuperações judiciais no Brasil precisa ser analisado com cautela, do ponto de vista da governança.
Segundo ele, em um ambiente macroeconômico mais desafiador nos últimos anos, a recuperação judicial surge como um instrumento previsto em lei para reorganizar passivos e preservar a atividade econômica. Por isso, a recuperação não necessariamente indica, de forma automática, falhas generalizadas de governança.
"É verdade que uma boa governança pressupõe sistemas robustos de gestão de riscos, planejamento estratégico e monitoramento da saúde financeira. Entretanto, mesmo organizações com estruturas sofisticadas podem ser impactadas por mudanças abruptas de mercado, ciclos econômicos adversos, guerras, pandemias ou transformações estruturais em seus setores."
Para o especialista, o teste de governança das empresas se dá no momento posterior ao pedido de recuperação, quando é exigida da empresa a capacidade de conduzir o processo de forma adequada e, principalmente, de sair dele de maneira sustentável.
"A recuperação judicial é um momento de grande estresse organizacional, no qual decisões estratégicas, financeiras e reputacionais precisam ser tomadas sob forte pressão de credores, investidores, reguladores e mercado. Nesse contexto, (é que) a qualidade da governança se torna particularmente visível."
As companhias que conseguirem atravessar esse período com liderança clara, governança fortalecida e capacidade de adaptação tendem a sair mais resilientes da crise, acrescenta.
"Conselhos de administração atuantes, transparência na comunicação com stakeholders (partes interessadas), disciplina na execução de planos de reestruturação e mecanismos eficazes de gestão de riscos (serão) elementos centrais para reconstruir a confiança no negócio."