O que é o Escudo das Américas, a nova iniciativa de Trump para o continente, liderada por secretária demitida

Especialistas dizem que a ideia do presidente americano não busca apenas combater o tráfico de drogas e a imigração irregular, mas também conter a expansão da China na região.

7 mar 2026 - 12h11
Donald Trump confiou a Kristi Noem uma tarefa sobre a qual não há muitos detalhes
Donald Trump confiou a Kristi Noem uma tarefa sobre a qual não há muitos detalhes
Foto: BRENDAN SMIALOWSKI/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Donald Trump é um grande fã de escudos.

Quase um ano depois de apresentar seu Domo de Ouro, um sofisticado sistema de defesa antimíssil que custará US$ 175 bilhões e deverá entrar em funcionamento em 2029, o presidente dos EUA anunciou sua intenção de lançar o Escudo das Américas.

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O presidente republicano confiou a tarefa de executar o projeto, descrito por Washington como "uma nova iniciativa de segurança no Hemisfério Ocidental", a Kristi Noem, que ele exonerou do cargo de Secretária de Segurança Interna nesta quinta-feira.

"O Hemisfério Ocidental é absolutamente crucial para a segurança dos EUA", declarou Noem em sua conta X (antiga conta do Twitter), onde agradeceu a Trump por nomeá-la "Enviada Especial para o Escudo das Américas".

Nas últimas semanas, a secretária tem sido alvo de duras críticas pela controversa onda de prisões de imigrantes indocumentados iniciada nos últimos meses, durante a qual dois cidadãos americanos morreram nas mãos de agentes federais em janeiro.

A iniciativa está sendo lançada neste sábado (7/3), com uma cúpula em Miami, na Flórida, com a presença de Trump e de líderes de 12 países da região que ele convidou para aderir ao seu plano, todos alinhados a ele em termos ideológicos.

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Os presidentes de El Salvador, Nayib Bukele, e da Argentina, Javier Milei, estão entre os convidados da cúpula de Miami.
Foto: LUIS ROBAYO/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

O que se sabe

Ao contrário do Domo de Ouro, o chamado Escudo das Américas não tem como objetivo repelir mísseis, drones ou outras ameaças militares contra o território ou os interesses dos EUA. Em vez disso, está voltado para o combate ao narcotráfico, ao crime organizado e à imigração irregular, segundo as autoridades americanas.

"Espero trabalhar (...) para desmantelar os cartéis que inundaram nossa nação com drogas e mataram nossos filhos e netos", declarou Noem, cujas responsabilidades e deveres daqui para frente não estão totalmente claros.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, ecoou esses sentimentos, afirmando: "O presidente conversará com os líderes desses países, que formaram uma coalizão histórica para trabalhar juntos contra os cartéis de drogas criminosos e a imigração ilegal em massa".

As declarações sugerem uma busca por acordos para fortalecer a cooperação policial no combate ao crime organizado, o que poderia levar a operações conjuntas como as realizadas recentemente pelas forças americanas e equatorianas em outras partes da região, previu o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) em um relatório.

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No entanto, a ausência notável dos presidentes do México e da Colômbia, Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro, respectivamente, na cúpula da Flórida levanta suspeitas sobre a eficácia da iniciativa.

O México compartilha uma fronteira de 3 mil quilômetros com os EUA, e uma parcela significativa das drogas e dos migrantes que entram no país irregularmente passa por ela, sem mencionar os poderosos cartéis e grupos criminosos que operam em seu território.

Por sua vez, a Colômbia é um dos maiores produtores de drogas do mundo.

"Esta é uma conferência focada em novos parceiros de segurança para os EUA", explica Carlos Solar, especialista em segurança e defesa na América Latina do Royal United Services Institute (RUSI) no Reino Unido, à BBC News Mundo, serviço de notícias da BBC em espanhol.

As autoridades americanas declararam que o combate ao narcotráfico é um dos objetivos da Operação Escudo das Américas
Foto: EVA MARIE UZCATEGUI/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

O especialista chileno acredita que a cúpula tem um viés ideológico: os 12 líderes convidados são de direita e apoiaram Trump ou foram apoiados por ele em algum momento.

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No entanto, Solar insiste que o objetivo de Washington é outro.

"Os países que foram convidados ou aceitaram o convite não têm a mesma relação de segurança com os EUA que o México e a Colômbia historicamente tiveram", aponta.

"Por exemplo, a Argentina se aproximou muito mais da China na última década, e a Bolívia agora tem um presidente disposto a colaborar com os EUA depois de mais de uma década de governos do MAS [Movimento ao Socialismo]", acrescenta o especialista.

Ainda assim, alguns acreditam que a exclusão do México e da Colômbia é temporária e não pode ser mantida indefinidamente.

"O escudo de Trump precisará da Colômbia e do México", afirma Juan Luis Manfredi, professor de Jornalismo e Estudos Internacionais da Universidade de Castilla-La Mancha (Espanha) e da Universidade de Georgetown (EUA).

"A ausência do México e da Colômbia pretende destacar uma diferença e deixar claro que existem países menos comprometidos, até o momento, com esse escudo", aponta ele.

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"No caso da Colômbia, o argumento pode ser eleitoral, já que as eleições presidenciais estão se aproximando; e no caso do México, porque um relacionamento mais próximo pode ser construído fora do escudo", afirma.

Mas o narcotráfico e a imigração podem não ser os únicos temas incluídos no plano.

"Não se deve descartar que questões de segurança mais gerais, como a situação do Canal do Panamá ou do Estreito de Magalhães, sejam apresentadas na cúpula", alerta Solar.

Assim como tentou anexar a Groenlândia, ao retornar à Casa Branca, Trump levantou a possibilidade de retomar o controle do Canal do Panamá, após denunciar as "taxas exorbitantes" cobradas dos navios americanos e alegar que a China controla a hidrovia.

A ausência do México levanta dúvidas sobre a eficácia do combate ao narcotráfico e à migração irregular
Foto: GUILLERMO ARIAS/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Nova ordem

O fato de esta cúpula estar sendo realizada quatro meses após o adiamento da 10ª Cúpula das Américas é, segundo os especialistas consultados, mais um sinal de que Trump está determinado a alterar a ordem internacional vigente.

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"Trump não está utilizando os canais regulares do multilateralismo, mas sim optando por formar novos grupos onde se sinta cercado por pares e indivíduos com ideias semelhantes", indica Solar.

O republicano parece querer replicar algo similar ao seu controverso Conselho de Paz de Gaza na região.

Manfredi lembra que, em janeiro passado, Trump retirou os EUA de três organizações regionais (o Instituto Interamericano de Pesquisa sobre Mudanças Globais, o Instituto Pan-Americano de Geografia e História e a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe).

Além do viés ideológico, outro motivo pelo qual alguns duvidam da eficácia da proposta de Trump é a saturação do hemisfério com organizações e iniciativas regionais.

"Atualmente, existem mais de 40 organizações e entidades — incluindo blocos comerciais, órgãos políticos formais e entidades sub-regionais — específicas para as Américas", alertou o especialista em relações internacionais Adam Ratzlaff em um artigo.

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Ratzlaff, fundador da consultoria Pan-American Strategic Advisors, advertiu que organizações movidas por motivações ideológicas tendem a desaparecer, citando como exemplo a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), promovida pelo falecido presidente venezuelano Hugo Chávez no início dos anos 2000.

Os especialistas consultados acreditam que a cúpula de Miami é mais um golpe para organizações como a OEA
Foto: ROBERTO SCHMIDT/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

De olho na China

Especialistas acreditam que o Escudo das Américas também tem outro objetivo não declarado: conter a expansão chinesa na região.

"A doutrina de segurança nacional busca estabelecer uma barreira contra potências adversárias e, embora não seja explicitamente declarada, é claramente direcionada à China", afirma Solar.

Manfredi ecoa esse sentimento, afirmando: "O Escudo das Américas visa reduzir, ou pelo menos mitigar, o impacto dos investimentos chineses na região."

O comércio entre a América Latina e a China tem aumentado constantemente nos últimos anos.

Em 2024, a troca de bens e serviços atingiu um recorde de US$ 518 bilhões.

A China é atualmente o principal parceiro comercial da América do Sul e o segundo mais importante para a América Latina como um todo, depois dos EUA, de acordo com o Conselho de Relações Exteriores (CFR).

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Além disso, Pequim emprestou mais de US$ 120 bilhões a governos em todo o Hemisfério Ocidental, informou o CSIS. A região contém inúmeros recursos naturais de interesse tanto para os EUA quanto para o gigante asiático.

O CSIS não descarta a possibilidade de que o acesso aos recursos naturais dos países convidados e os compromissos de investimento sejam firmados durante a reunião em Miami.

Analistas sugerem que deter a expansão chinesa na América Latina é o objetivo oculto da iniciativa lançada por Trump
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Especialistas também sugerem que o escudo é mais um passo na implementação da Doutrina de Segurança Nacional que Washington publicou em dezembro passado.

Ela anunciou que os EUA buscariam "restaurar sua preeminência no Hemisfério Ocidental" e retratou a China como "uma economia predatória".

A doutrina foi apelidada de "Donroe" pela Casa Branca, por ser uma versão atualizada da Doutrina Monroe de 1823, na qual os EUA rejeitavam qualquer possível interferência das potências coloniais europeias no continente.

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"A Doutrina Donroe é ofensiva, enquanto a Doutrina Monroe era defensiva e protetiva contra invasões de potências coloniais", explica Manfredi.

"A nova perspectiva trumpista considera a América Latina como um espaço que precisa ser apoiado, defendido e protegido por meio do poder político, incluindo influência nos processos eleitorais e apoio a certos atores, mas sobretudo por meio da geoeconomia", indica ele.

Solar alerta que o conteúdo do documento deve ser levado a sério.

"A captura de Nicolás Maduro deixou claro para muitos de nós que a doutrina será aplicada por meio de ações concretas na região", conclui ele.

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