O mercado financeiro avalia o julgamento no STF com foco nos reflexos sobre a disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, deixando o aspecto jurídico em segundo plano. Para gestores, a crise gera volatilidade e tende a desgastar o governo sob a ótica da corrupção, configurando um cenário desfavorável à reeleição petista. Assim, os preços dos ativos reagem menos ao desfecho técnico e mais à percepção de enfraquecimento de Lula frente ao crescimento das chances da oposição na corrida eleitoral.
Independentemente do desfecho do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), o impacto sobre a disputa presidencial é o principal canal de transmissão para o mercado financeiro. A avaliação predominante de gestores ouvidos pelo Estadão/Broadcast é de que os ativos devem reagir menos à decisão jurídica em si do que à capacidade do episódio de aumentar o desgaste do governo e alterar as chances de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro na corrida ao Planalto.
Sócio da Cardinal Partners, Marcelo Audi vê um quadro eleitoral negativo para Lula nos diferentes cenários possíveis no STF. Para ele, a abertura da investigação seria o melhor resultado do ponto de vista institucional, enquanto a continuidade do julgamento mantém viva a possibilidade de uma decisão nesse sentido.
Quando o foco passa para a eleição, porém, Audi afirma ter dificuldade de encontrar um resultado favorável ao presidente. "Então eu vejo um cenário que é perde-perde para o Lula. Não acredito em um cenário que possa ser positivo para o Lula do ponto de vista eleitoral", afirma.
Para Audi, o tema da corrupção é o principal canal capaz de levar a crise no Supremo ao eleitorado. O debate ganha peso adicional porque o próximo presidente terá a possibilidade de indicar ao menos três novos ministros à Corte, levando a composição do STF para dentro da disputa eleitoral.
Nesse ambiente, ele espera que os mercados continuem reagindo principalmente às mudanças percebidas nas probabilidades eleitorais. "Eu acho que nós veremos uma continuidade de uma tendência positiva para os mercados, movida pela continuidade de expectativa crescente de vitória do Flávio", afirma.
Preocupações institucionais em segundo plano
A mesma lógica eleitoral aparece na leitura de um gestor de um grande fundo multimercado que pede para não ser identificado. Para ele, seja com abertura de investigação, pedido de vista, adiamento ou encerramento do caso, não há relação automática entre o resultado e a direção dos preços dos ativos. Segundo ele, desde que as novas revelações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes ganharam espaço, os ativos passaram a incorporar uma percepção de aumento da possibilidade de derrota de Lula e vitória de Flávio.
O gestor avalia que, tão perto da eleição, preocupações institucionais ficam em segundo plano na formação dos preços.
A dificuldade é antecipar qual desfecho produz esse efeito. Uma investigação contra Moraes poderia ampliar o desgaste do episódio para o governo, mas também reduzir a percepção de impunidade e abrir espaço para a gestão petista explorar politicamente a abertura da apuração. Já uma decisão contrária à investigação poderia alimentar a reação contra o STF e, se o caso continuar associado ao governo, beneficiar Flávio.
No horizonte mais longo, as atenções se voltam para a dimensão dos impactos institucionais, observa reservadamente outro gestor de mesa de ações de uma grande asset multiprodutos. Na sua leitura, a ausência de uma investigação mínima seria um sinal muito negativo, enquanto a abertura de apuração representaria um "respiro" para o sistema político.
No curto prazo, porém, sua leitura também passa pela eleição. Quanto maior o ruído em torno do STF e mais tempo o tema permanecer no noticiário, maior a possibilidade de a oposição explorar o desgaste de Moraes e associá-lo a Lula.
Um julgamento que se arraste poderia, portanto, favorecer a oposição. Mesmo uma decisão de não investigar Moraes poderia beneficiar a chapa à direita se for suficiente para ampliar a rejeição ao Supremo. Já a abertura da investigação pode produzir efeito mais ambíguo no curto prazo, ao permitir ao governo argumentar que até integrantes do STF estão sujeitos a investigação.
Para esse profissional, esse ambiente tende a manter elevada a volatilidade dos ativos. O mercado tenta calibrar quanto os preços já incorporam de uma vitória de Lula ou de Flávio e ajustar as posições à medida que novas informações aparecem.