Apesar do desemprego atingir a mínima histórica de 5,2% no terceiro trimestre, o mercado de trabalho dá sinais de desaceleração, aponta o Ibre/FGV. A geração de vagas perdeu fôlego, com o crescimento anual da ocupação caindo para 1,2%. Diante de juros altos, menor ritmo econômico e o fim de estímulos fiscais, a tendência é de reversão gradual e aumento da desocupação em 2027, embora sem retornar aos dois dígitos, além de um possível freio no ciclo de cortes da Selic pelo Banco Central.
RIO - A desaceleração do mercado de trabalho deve ganhar força nos próximos meses, diante da perspectiva de menor crescimento da economia, juros elevados e reversão do impulso fiscal, avalia Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador sênior da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Apesar de a taxa de desemprego ter recuado para 5,2% no terceiro trimestre de 2026, o menor patamar para esse período desde o início da série histórica, iniciada em 2012, o resultado não representa uma aceleração expressiva na geração de vagas, segundo o economista. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No trimestre encerrado em setembro, a população desocupada somou 5,6 milhões de pessoas, uma redução de 4% em relação ao trimestre anterior, equivalente a 234 mil pessoas. Na comparação com igual período de 2025, a queda foi de 6,9%, ou 417 mil pessoas.
A população ocupada, por sua vez, chegou a 103,6 milhões de pessoas, o maior contingente da série histórica iniciada em 2012. O avanço foi de 0,6% na comparação trimestral, com acréscimo de 581 mil trabalhadores. Em relação ao terceiro trimestre do ano passado, o crescimento foi de 1,2%, equivalente a 1,2 milhão de pessoas.
Para Barbosa Filho, porém, o ritmo de expansão da ocupação mostra uma perda de fôlego do mercado de trabalho. "Há um processo suave de desaceleração do mercado de trabalho, com menor geração de emprego. A taxa de crescimento da ocupação, que chegou a superar 2,5% há dois anos, está agora em 1,2%. Esse movimento é compatível, inclusive, com os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados)", disse ao Estadão/Broadcast.
O pesquisador projeta aumento da taxa de desemprego ao longo de 2027, mas ressalta que o indicador não deve voltar a dois dígitos, mesmo diante da perspectiva de desaceleração econômica.
Um dos fatores que devem contribuir para essa mudança é a reversão do impulso fiscal observado ao longo deste ano. Segundo Barbosa Filho, a expansão fiscal ajudou a sustentar o aquecimento da atividade econômica, em um cenário de inflação resistente e desemprego baixo.
"O impulso fiscal que observamos ao longo do ano, que ajudou a manter a economia mais aquecida, a inflação com maior dificuldade de ceder e a taxa de desemprego baixa, deve ser revertido ao longo de 2027", diz.
Barbosa Filho também ressalta que a taxa de desemprego com ajuste sazonal já se encontra em um nível muito baixo, o que reduz a perspectiva de novas mínimas nos próximos meses.
"Não vejo indicação de que a taxa vá bater um novo recorde. Ela já está em um patamar extremamente baixo. O que esperamos é uma reversão gradual nos próximos meses", afirma.
Entre os fatores que devem pesar sobre o mercado de trabalho estão a manutenção dos juros em patamar elevado e a expectativa de ajuste fiscal. O pesquisador destaca a influência da política monetária sobre a atividade econômica e aponta incertezas quanto à condução das contas públicas.
"A expectativa do mercado já se reverteu por conta do resultado da eleição, até que o governo consiga comunicar de forma clara seu compromisso com algum ajuste fiscal", afirma. Na avaliação do economista, esse cenário também pode levar o Banco Central a reduzir o ritmo de cortes da taxa básica de juros ou interromper o ciclo de queda.