A ativista Malala Yousafzai ressaltou tanto os riscos quanto os potenciais benefícios da inteligência artificial (IA) durante a sua participação no Rio Innovation Week, conferência de inovação que se realiza nesta semana no Pier Mauá. Para a paquistanesa, a tecnologia não leva em conta interesses das mulheres ou de comunidades sub-representadas. Porém, pode ser uma forma de aumentar o acesso à educação mesmo em países onde o ensino, de alguma forma, é interrompido.
"Com base na minha experiência pessoal, acredito que precisamos refletir sobre como a IA está sendo projetada. Percebemos que, por padrão, ela não inclui mulheres e meninas, nem leva em conta as perspectivas de comunidades sub-representadas. Então, penso na questão do design e em como podemos corrigir essas falhas. Por outro lado, há também a questão do consumo da IA. Ela tornou a educação acessível, o que é algo positivo", diz Malala.
A ativista também observou que, com o avanço da tecnologia, o problema deixou de ser o acesso à informação e passou a ser a forma como a avaliamos. "Para isso, precisamos de habilidades de pensamento crítico. Espero que as pessoas consigam distinguir o que é plausível do que é razoável", afirma.
Ela ressalta que é possível usar a IA e ainda assim se manter com senso crítico apurado. "Por exemplo, quando pesquiso algo na IA, tento propor desafios maiores à ferramenta: 'Não me dê a resposta mais básica; apresente algo mais complexo, considere contra-argumentos e aponte possíveis pontos fracos'. Acho que essa é uma ótima maneira de exercitar o cérebro", afirma.
Os desafios da educação continuam no Afeganistão
Mesmo mais de uma década depois de se tornar mundialmente conhecida como ativista, Malala diz lutar por objetivos semelhantes: garantir que mulheres e meninas tenham acesso à educação. Embora avanços tenham sido feitos, o desafio continua atual.
"Ainda ouço histórias de meninas do Afeganistão (país vizinho ao Paquistão) que me dizem que até mesmo ler um livro sozinhas em casa é, para elas, um ato de resistência. Então, quando vejo a determinação e a dedicação de outras pessoas, sinto esperança e penso: 'Sim, temos de continuar'. É, sabe, o sonho da Malala de 11 anos. É o sonho das 120 milhões de meninas que estão fora da escola", afirma.
Malala se diz preocupada com os retrocessos que acontecem em meio ao progresso da pauta da educação feminina no mundo, apesar de sentir esperança ao ver milhões de meninas matriculadas em escolas e políticas para prevenir casamento infantil, assério e segurança escolar para jovens.
"Simultaneamente, vemos o Taleban assumir o controle do Afeganistão e retirar direitos de milhões de mulheres e meninas, impondo um sistema de segregação de gênero. Eles estão deliberadamente excluindo as mulheres da vida pública, impedindo-as de praticar esportes e de ter acesso à educação. Essa questão é urgente e preocupante. Ela importa não apenas porque precisamos proteger e apoiar as mulheres e meninas afegãs, mas também porque estamos sinalizando para meninas em toda parte que é aceitável que líderes simplesmente virem as costas", afirma.
A ativista lembra ainda que a tecnologia tem ajudado a contornar restrições à educação de jovens mulheres, o que é positivo, apesar de não ser uma solução real.
Segundo ela, o aplicativo WhatsApp desempenha um papel fundamental na educação, especialmente em contextos de crise como o do Afeganistão, ao servir como uma ferramenta para o ensino clandestino e a troca de conhecimentos em segredo.
"Nossas ativistas afegãs também estão apoiando escolas clandestinas. Essas meninas estão se reunindo e aprendendo em segredo. Elas criaram canais no WhatsApp para trocar conhecimentos entre si. Continuamos defendendo a restauração do direito à educação das meninas afegãs, pois esse é um direito que toda menina deveria ter. Mas, nesse meio-tempo — nos últimos cinco anos —, temos levado educação a muitas meninas afegãs por meio da tecnologia e dessas plataformas", conta Malala.