BRASÍLIA — O ex-apresentador Luiz Bacci publicou ao menos quatro vídeos no último mês em que critica o Banco Central (BC), defende o Banco Master e questiona a decisão que levou à liquidez da instituição controlada por Daniel Vorcaro. Procurado, ele não respondeu.
Uma série de comunicadores têm embarcado numa campanha de descredibilização do BC. Nos últimos dias, um vereador e uma influenciadora denunciaram terem recebido propostas de agências de comunicação para a produção de conteúdo crítico à autarquia federal.
Em 18 de dezembro, Bacci repercutiu a notícia de que o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus, relator do caso Master na Corte, pediu explicações ao BC sobre o que julgou serem indícios de precipitação na liquidação do Master.
Seria o primeiro de quatro vídeos veiculados em sua conta do Instagram em que ele levanta suspeição sobre a lisura do processo e sugere um complô para prejudicar o banco de Vorcaro. Bacci tem 24,1 milhões de seguidores na rede social.
"Ninguém conseguiu engolir algo como uma fraude bilionária onde não apareceu nenhum cliente sequer reclamando, dizendo que o Banco Master está devendo para ele. Como alguém consegue fazer uma fraude bilionário estando sujeito às regras do Banco Central? QUem teve interesse de liquidar um banco de uma hora para outra? Quem teve interesse de, no dia para a noite, simplesmente liquidar um banco? Há suspeita de uma manobra política de algum grupo finaneiro, político, para desestabilizar o Banco Master", afirmou Bacci naquele dia.
Em 29 de dezembro, ele publicou outro vídeo em que diz que a liquidação foi feita "na surdina, na calada da noite". Ao contrário do que ele diz, análise do caso pelo BC durou mais de cinco meses e a decisão da liquidação foi comunicada logo que foi decretada.
"E essa série de escândalos envolvendo o Banco Central? O que que é isso? Um escândalo sem precedentes que envolve a liquidação na surdina, na calada da noite, que envolve o Banco Master. Pelo que estou entendendo estão suspeitando que tem mutreta na tal liquidação do Banco Master. Se o TCU deu 72 horas para o Banco Central se manifestar, por que está calado? Por que um monte de pergunta sem resposta? Tem medo do quê?", declarou.
Na mesma publicação, Bacci sugere contaminação política pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e coloca suspeição, sem provas, na definição da taxa básica de juros da economia, a Selic.
"Ora, o Banco Central é uma instituição de muita credibilidade. A gente quer acreditar que é um órgão regulador idôneo. O presidente foi escolhido pelo Lula. Como é que pode estar no alvo de tanto escândalo? Daqui a pouco a população brasileira vai desconfiar, e com toda a razão, se a taxa de juros altíssima, que não para de bater recorde, é honesta, se está sendo definida de maneira transparente. Já já o povo brasileiro vai começar a achar que tem mutreta também", disse ele.
O terceiro vídeo, publicado em 1º de janeiro, replica os argumentos dados por Vorcaro para se defender das acusações, em depoimento à Polícia Federal. Bacci afirmou que, segundo uma fonte, "Vorcaro foi enfático, negou qualquer tipo de irregularidade, afirmou que não houve fraude, e que os fatos divulgados até agora estão distorcidos e apresentados fora de contexto". E que "todas as operações do Master foram conduzidas de acordo com as regras.
Na sequência, ele levanta dúvidas sobre o fato de, segundo uma reportagem citada por Bacci, a Polícia Federal ter prendido Vorcaro 42 minutos depois de ele comunicar a venda do Master para um fundo, que injetaria R$ 3 bilhões e resolveria o problema de liquidez do banco.
O curto período de tempo entre os acontecimentos, segundo integrantes do governo relataram ao Estadão/Broadcast, se deu em razão da suspeita de que a proposta se trataria de uma "bomba de fumaça" para que o banqueiro ganhasse tempo para fugir do País. Vorcaro foi detido no aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para viajar para Dubai. Segundo sua defesa, se tratava de uma viagem de negócios.
Toda a linha do tempo do processo que levou à liquidação extrajudicial do Master, em 18 de novembro, foi apresentada, por exemplo, na documentação que está com o TCU.
Em 5 de janeiro, por fim, Bacci abre outro vídeo questionando a razão "dessa histeria toda contra a abertura da caixa-preta do Banco Central". Ele diz haver a instituição compromete sua credibilidade ao "evitar a fiscalização" e gera um "ambiente de desconfiança".
"O TCU não está fazendo uma devassa. Ele está fazendo a única coisa que resta de digno neste País, acendendo a luz. É justamente por isso que as baratas estão correndo pelos corredores. É a maior confissão de culpa, que não querem que você veja", declarou.
Campanha difamatória
A campanha difamatória contra o BC trouxe à tona acusações, defesas e uma variedade de agências e comunicadores envolvidos no escândalo.
O caso começou a ser exposto a partir de um vídeo publicado pelo vereador Rony Gabriel (PL-RS), de Erechim, que diz ter recebido uma proposta intitulada "projeto DV", as iniciais de Daniel Vorcaro, para publicar conteúdo em defesa da instituição.
Instituições e autoridades envolvidas com a liquidação do Banco Master sofreram uma série de ataques nas redes sociais pouco antes da virada do ano, segundo monitoramento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Diversos perfis publicaram os ataques nos últimos dias. O Estadão analisou o conteúdo, os horários das publicações e os pontos em comum entre os materiais publicados.
Apesar de diferenças na maneira do pronunciamento nos vídeos, as postagens apresentam elementos em comum. Todos os influenciadores publicaram conteúdos no final de dezembro, tendo como referência o mesmo conteúdo, que seria uma possível revisão da liquidação do Master.
Outra semelhança é que, embora adaptado ao estilo de cada perfil, o discurso compartilhado nas redes sociais sugere desconfiança sobre a atuação dos órgãos reguladores e questiona a "rapidez" da decisão - que, na verdade, durou mais de cinco meses. Em nenhum dos casos, as publicações foram identificadas como publicidade.