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Lara Resende nega a site conversa com Lula e atribui burburinho sobre proposta à briga no governo

Economista, que propõe limitar juros no País, afirmou à BBC News Brasil não ter intenção de integrar governo e disse que notícia sobre reunião com presidente foi 'plantada' para 'queimar' quem defende suas ideias

6 nov 2026 - 15h07
Resumo
O economista André Lara Resende negou ter conversado com o presidente Lula sobre sua proposta de limitar a taxa de juros a 5,5% ao ano. Ele afirmou que a notícia de uma reunião entre ambos foi inventada para prejudicar aliados que apoiaram suas ideias em disputas internas no governo. O plano, que propõe um conselho para coordenar metas fiscais e monetárias com corte gradual de juros, gerou temores no mercado, mas foi descartado pela equipe econômica do Ministério da Fazenda.

O economista André Lara Resende negou na quinta-feira, 5, que tenha falado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre sua proposta de limitar os juros no País. Ele também afirmou que não tem nenhum encontro marcado com o petista e que a notícia de uma possível reunião entre eles, divulgada por veículos de imprensa no início da semana, foi "plantada" para "queimar" quem defendeu suas ideias dentro do governo. As declarações foram dadas pelo economista à BBC News Brasil.

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Lara Resende é um dos pais do Plano Real e foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no governo de Fernando Henrique Cardoso. Ele se aproximou de Lula na campanha presidencial de 2022.

Em um texto publicado em 25 de setembro deste ano, chamado Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos, Lara Resende disse que a "redução do juro básico é a solução do desequilíbrio fiscal". Em seu artigo, ele defendeu, entre outras coisas, a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), cujo objetivo seria definir as "metas fiscais e monetárias para um período de quatro a cinco anos à frente".

O economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real
O economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real
Foto: Felipe Rau/Estadão / Estadão

Pela proposta, as metas de inflação seriam anunciadas junto com as metas para a taxa básica de juros. Segundo o economista, o Banco Central teria de manter a taxa básica de juros em um limite que seria a soma da meta de inflação, atualmente em 3%, com o crescimento potencial da economia, estimado em 2,5%. Ou seja, o limite, nesse caso, seria de 5,5%.

A proposta de Lara Resende é a de que, inicialmente, o BC reduza a taxa básica de juros de forma gradual para 7,5% ao ano, num prazo de 12 meses. Haveria assim "um spread transitório de segurança de 2%", afirma. Esse spread seria "periodicamente reavaliado e gradualmente reduzido até ser eliminado", segundo o economista.

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Lara Resende também afirma que o Banco Central poderia usar as reservas cambiais para atuar no câmbio caso a nova política leve a uma depreciação acentuada da moeda. A ideia seria suavizar uma eventual pressão sobre o real provocada pela redução dos juros.

No final de outubro, após a reeleição de Lula, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) compartilhou o artigo do economista nas redes sociais, afirmando que ele era "fundamental para enfrentar a ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira". A proposta também foi defendida pelo ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, que coordenou o programa de governo de Lula.

No início deste mês, circulou a notícia de que Lara Resende teria um encontro marcado com o presidente nesta semana, em Brasília, o que causou temor no mercado. Integrantes do governo, porém, negaram que Lula se encontraria com o economista. Além disso, durante a semana, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a ideia apresentada por Lara Resende tem "várias deficiências" e "não tem nada parecido com isso na mesa do governo atualmente".

"O presidente Lula não tem agenda com outros economistas; ele tem tido agenda comigo. E nas agendas comigo, nós não estamos tratando de nada que justifique ao mercado ter uma posição de medo. Nós estamos tratando de um ajuste gradual, que respeite os compromissos de campanha", disse o ministro.

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Nesta quinta-feira, à BBC, Lara Resende afirmou que a notícia do encontro foi inventada. "Eu não falei com o presidente Lula, não tenho nem tive contato com ele, assim como não tenho nada marcado (para apresentar a ideia a ele). Essa notícia foi plantada, obviamente, para queimar a proposta ou (prejudicar) alguém que não eu, porque todo mundo sabe que eu não quero ir para o governo — incluindo o próprio Lula", afirmou.

"Estão queimando alguém que defendeu essa proposta, uma briga interna dentro do governo na qual eu entrei como Judas no Pai Nosso", completou o economista.

Na entrevista, ele afirma ainda que a intenção de seu artigo era "responder por que a taxa básica de juros é extraordinariamente alta no Brasil e como escapar dessa armadilha". Segundo ele, os juros altos concentram renda e riqueza, funcionando como uma "bolsa-rentista", e é "quase unânime que quem não gostou (da proposta) foi o sistema financeiro e seus representantes na grande mídia".

Para Lara Resende, a proposta não representaria uma "mudança profunda", mas apenas um "aperfeiçoamento institucional" com a criação de um órgão capaz de coordenar a política monetária e a fiscal, a partir do estabelecimento de metas. "Como me disse um colega: só os tolos seriam contra uma proposta de coordenação das políticas monetária e fiscal por meio de um conselho. Não tem nada de revolucionário ou de dramático nisso", disse.

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O economista afirma que os gastos no Brasil são, "em grande parte, patrimonialistas, demagógicos e populistas", mas não são os responsáveis pelo problema do déficit fiscal brasileiro. "Mas a dívida subiu não porque o governo gasta muito, e sim porque o serviço da dívida, isto é, os juros altos, a fez crescer. O que dá para dizer é que o governo, apesar de ter um déficit primário pequeno, gasta muito mal. Aí eu concordo totalmente. Dá para dizer, além do mais, que o governo, para ter um déficit pequeno gastando mal, tributa excessivamente. É verdade: a carga tributária pode ser melhorada, porque é confusa e distorciva. Mas não tem a nada a ver com que dizer que o governo gasta muito. Nós cortaríamos gastos de onde?", questiona.

Segundo ele, sua proposta garantiria "sustentabilidade fiscal ao país" e, com isso, poderia haver redução da taxa básica de juros. "Trata-se de uma coordenação de expectativas necessária para sairmos do que chamamos, na macroeconomia, de 'mau equilíbrio': um equilíbrio (econômico) com taxa de juros alta, para irmos em direção a um 'bom equilíbrio', com juros baixos. Como essa transição pode ser perigosa caso as expectativas se desancorarem, eu proponho que exista essa coordenação. Para que as expectativas não se desancorem. Por isso que se trata de aperfeiçoamento institucional", afirma.

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