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Juro real elevado abre janela para quem quer viver de renda; confira estratégias

Economistas indicam que o momento é ideal para construir carteira voltada à geração de renda

20 jul 2026 - 14h06
(atualizado às 14h15)

O cenário atual com a Selic em 14,25% ao ano e a inflação perto de 5% é uma oportunidade rara para quem planeja construir uma carteira voltada à geração de renda, segundo economistas e especialistas em investimentos. Mas eles também trazem um alerta: a distorção que sustenta essas taxas tende a ser temporária e, por isso, é importante realizar agora o planejamento financeiro.

"A situação é favorável a quem poupa. Os juros jogam a favor", afirma o economista da FGV Rogério Mori, doutor em Economia e ex-secretário adjunto do Ministério da Fazenda. Segundo ele, o brasileiro consegue hoje contratar taxas capazes de dobrar o poder de compra do patrimônio em prazos relativamente curtos, uma condição pouco comum no cenário internacional. "A janela para contratar taxas reais elevadas por prazos longos está aberta hoje, mas não estará para sempre", resume Mori, que é um dos professores da recém-lançada formação do Estadão para quem quer viver de renda. Saiba mais aqui.

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O outro lado da equação, no entanto, é o que torna o momento ainda mais estratégico, na avaliação do analista CNPI especializado em renda e mercado de capitais Felipe Paletta. Para ele, o mesmo nível de juros que garante taxas reais de renda fixa acima de 7%, bem acima da média histórica desde o Plano Real, é o que mantém ações e fundos imobiliários negociando a preços mais baixos do que seus fundamentos de longo prazo. Isso permite ao investidor comprar ativos com alta rentabilidade. "Ao mesmo tempo, aumenta as chances de multiplicação patrimonial nos próximos cinco a dez anos", diz.

Segundo Mori, o rendimento que vai sustentar o padrão de vida no futuro depende da taxa contratada hoje. A recomendação é estruturar o portfólio em camadas: uma reserva de liquidez em pós-fixado que esteja atrelado à taxa Selic, para emergências e oportunidades; um núcleo robusto em títulos IPCA+ longos, travando o juro real elevado enquanto ele existe; e, de forma gradual e disciplinada, uma parcela em ativos de crescimento, como ações que pagam bons dividendos, fundos imobiliários e, eventualmente, exposição internacional para diversificar o risco-país.

A proporção entre essas camadas, pondera o economista, depende da idade, do horizonte de investimento e da tolerância a risco de cada investidor. "O momento atual permite algo raro: montar a base de renda do portfólio com taxas excepcionais e, ao mesmo tempo, comprar ativos de risco a preços deprimidos justamente porque os juros altos os penalizaram. É a combinação, não a escolha excludente, que constrói patrimônio", afirma Mori.

Dentro da própria renda fixa, Mori defende que a escolha entre títulos prefixados e indexados à inflação deve seguir lógicas distintas. O prefixado, explica, é uma aposta direcional, na qual o investidor trava uma taxa nominal e se beneficia se a inflação e os juros futuros ficarem abaixo do que o mercado precifica hoje. Por isso, está mais relacionado com prazos curtos e intermediários, de dois a cinco anos, quando há convicção de que o ciclo de queda de juros será mais intenso ou mais rápido do que o consenso espera.

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Já o título indexado ao IPCA, segundo o economista, é o instrumento estrutural para objetivos de longo prazo, como aposentadoria, educação dos filhos ou construção de renda futura. "Ele garante um ganho real, ou seja, acima da inflação, aconteça o que acontecer com os preços. Quando um Tesouro IPCA+ paga na faixa de 7% reais ao ano, você está contratando uma taxa que historicamente só aparece em momentos de estresse", diz. Para quem mantém o título até o vencimento, afirma, essa é a forma mais segura de preservar e multiplicar poder de compra.

Rogério Mori, da EESP/FGV, doutor em Economia e ex-secretário adjunto do Ministério da Fazenda.
Rogério Mori, da EESP/FGV, doutor em Economia e ex-secretário adjunto do Ministério da Fazenda.
Foto: Léo Souza/Estadão / Estadão

A regra prática que costuma recomendar resume a lógica: "Prefixado é tática, IPCA+ é estratégia." Objetivos de dez ou vinte anos pedem proteção inflacionária; visões de ciclo mais curtas, de dois a três anos, podem justificar o prefixado.

"Se os juros caírem de forma consistente, quem ficou apenas em pós-fixados curtos verá sua renda encolher junto com a Selic. Quem entendeu o ciclo e travou taxas reais elevadas em prazos longos blindou seu fluxo de renda contra essa queda", afirma Mori. "Acompanhar essas variáveis é o que separa uma aposentadoria planejada de uma aposentadoria sujeita à sorte."

Armadilha do pós-fixado curto

Na avaliação de Paletta, o risco mais relevante para quem planeja viver de renda não é econômico, mas comportamental. "O principal erro é acreditar que uma taxa de juros acima de 14% ao ano vai durar para sempre", diz. Essa armadilha de pensar que o que acontece no presente será uma realidade sustentável no longo prazo é conhecida nas finanças comportamentais como hipérbole temporal ou desconto hiperbólico.

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Para Paletta, viver de renda não começa na escolha dos investimentos, mas na organização do orçamento familiar. "Quanto antes você começar, quanto mais equilibrado for o seu padrão de vida e quanto melhor investido for o seu patrimônio, maiores as chances de alcançar a liberdade financeira mais rapidamente", afirma.

O analista critica a busca por fórmulas simplificadas - como multiplicar o custo de vida mensal por 125 ou 300 para estimar o patrimônio necessário - em detrimento das ferramentas que, segundo ele, realmente determinam se alguém conseguirá cobrir seu custo de vida apenas com investimentos. "Isso cria ansiedade em vez de um plano objetivo." Ele defende um planejamento que mostre ao investidor quando ele poderá alcançar esse objetivo, quanto precisa poupar mensalmente e como equilibrar o orçamento para o período em que a renda do trabalho não estiver mais presente. Só depois dessa etapa, argumenta, faz sentido decidir onde alocar o patrimônio.

O principal erro dos investidores, na visão de Paletta, não é investir mal o dinheiro, mas subestimar a construção de um orçamento familiar e a definição de um padrão de vida sustentável. "Viver de renda com investimentos começa pela definição do padrão de vida familiar, que só se sustenta quando o patrimônio acumulado é capaz de gerar renda suficiente para cobri-lo com conforto."

Ele lembra que, à medida que a carreira avança e o sucesso financeiro aumenta, é natural que parte desse ganho se converta em padrão de vida, o que passa a competir, no orçamento, com a poupança destinada aos investimentos. Esse movimento, segundo o analista, corrói a capacidade de poupança e leva muitos empresários e profissionais bem-sucedidos a chegar à aposentadoria com um patrimônio incompatível com o padrão de vida que sustentaram por anos.

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Felipe Paletta, analista CNPI especializado em renda e mercado de capitais
Foto: Humberto Bassanello/Mondus/Divulgação / Estadão

Reverter esse quadro, segundo Paletta, é possível para a maioria das pessoas. Ao definir o padrão de vida desejado e o patrimônio necessário para sustentá-lo, ficam claras as ferramentas que podem ser acionadas para alcançar a liberdade financeira. E, quando esse objetivo se mostra difícil de atingir no padrão de vida atual, ainda é possível redesenhar um padrão mais confortável de se sustentar, capaz de ser mantido apenas com a renda dos investimentos.

Disciplina, poupança e nunca se endividar

Para o escritor Ivan Sant'Anna, ex-operador com passagem por bolsas no Brasil e no exterior, o ponto de partida em um país de juros tão elevados como o Brasil é evitar o endividamento a qualquer custo. "Com as taxas de juros elevadas do Brasil, o mais importante é jamais se endividar", afirma.

Questionado se os grandes retornos costumam vir de quem segue o consenso de mercado ou de quem mantém disciplina em momentos de pessimismo, Sant'Anna é categórico: eles surgem de investidores capazes de liquidar posições perdedoras e permanecer firmes nas ganhadoras. "'Cut your losses, let your profits run' (livre-se de seus prejuízos, deixe seus lucros fluírem), diz um ditado de Wall Street", afirma. Sua recomendação prática, e segundo ele válida para qualquer fase da vida financeira, é direta: "Poupe sempre, poupe desde o primeiro emprego."

Viver de Renda, da teoria à prática

Rogério Mori, Felipe Paletta e Ivan Sant'Anna, os três especialistas ouvidos nesta reportagem, estão entre os professores da Formação em Investimentos para Viver de Renda, iniciativa recém-lançada pelo Estadão voltada a quem deseja aprender na prática a organizar o patrimônio em busca de uma renda recorrente ao longo do tempo.

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Com emissão de certificado do Estadão, a formação oferece uma carteira de investimentos recomendada, além de mais de 40 horas de conteúdos gravados e ao vivo sobre planejamento financeiro, renda fixa, fundos imobiliários, ações, dividendos e tributação, combinando visão econômica, experiência de mercado e educação financeira aplicada.

Mais informações sobre a Formação em Investimentos para Viver de Renda estão disponíveis Mais informações sobre a Formação em Investimentos para Viver de Renda estão disponíveis neste link.

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