Inovação tornará a transição energética viável, diz curador do São Paulo Innovation Week

Marcelo Araujo, que já presidiu empresas como Marisa, Ipiranga e Grupo Libra e atua como conselheiro do Grupo Estado, destaca que o Brasil precisa ampliar investimentos em novas iniciativas para o setor energético

5 mar 2026 - 10h54

"Estamos devendo um pouco em termos de inovação (na área de energia)", diz Marcelo Araujo, que já presidiu empresas como Marisa, Ipiranga e Grupo Libra. Na avaliação do executivo, falta financiamento para o País avançar nas pesquisas destinadas à área.

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Uma das formas de destravar recursos para inovação em energia, segundo ele, é modernizar a regulamentação para que o mercado de capitais atue como um estimulador de novas iniciativas. Outra possibilidade é integrar melhor setor privado, academia e governo. "É preciso uma orquestração maior. Nisso, acho que o Brasil ainda está distante das principais experiências do mundo que vão nessa direção, mas estamos caminhando."

Araujo é um dos curadores do São Paulo Innovation Week, evento que o Estadão realiza em maio na cidade de São Paulo e que tem como foco inovação, tecnologia e negócios. A conferência deverá atrair 90 mil visitantes e terá uma programação com palestras de grandes nomes internacionais e brasileiros, debates, espaços para troca de conhecimento e palcos com performances e atrações musicais. Os ingressos já estão à venda e assinantes do Estadão têm desconto.

Membro do conselho de administração do Grupo Estado e da JadLog, Araujo avalia ainda que a inovação é chave para a transição energética. De acordo com o executivo, é ela que poderá tornar mais baratas as soluções necessárias para o mundo reduzir suas emissões de carbono e também garantir segurança energética durante essa transformação da economia global.

Confira, a seguir, trechos da entrevista:

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O que a inovação pode oferecer para um mundo que precisa reduzir as emissões de carbono?

A transição energética, infelizmente, está se desacelerando, ao mesmo tempo em que a demanda por energia cresce devido à inteligência artificial, à urbanização do sul global e à eletrificação do transporte. Temos um desafio gigante para resolver e, hoje, a única forma de não desacelerar tanto a transição energética e de fazer isso com segurança energética é através da inovação.

As soluções para a transição energética são caras. A inovação fará essas soluções se tornarem mais baratas ou as encarecerá, dado que inovação demanda investimento em pesquisa?

É a inovação que vai fazer isso ser economicamente viável. Hoje, qualquer mudança no modelo atual, baseado em combustíveis fósseis, é cara, porque se passaram anos investindo nele. É natural que um novo modelo seja mais caro e que precise ser induzido. Governos, regulações e subsídios deram um impulso inicial na transição energética no mundo todo. Mas, com a mudança do cenário geopolítico e os desafios de segurança energética, isso ficou mais complexo. Portanto, ficou mais necessário investir em tecnologia e inovação para acelerar esse ciclo de redução de custos e de viabilidade econômica. É importante entender que, no setor energético, há três pontos em que a inovação é relevante: nas tecnologias de produção, nas arquiteturas dos sistemas de gestão de energia e nos modelos de negócio.

Dessas três áreas, o que está mais adiantado globalmente?

Alguns países estão investindo mais em algumas tecnologias, outros, em outras. Tem, por exemplo, investimentos sendo feitos em ganho de escala das fontes renováveis para aumentar a eficiência e reduzir o custo. Tem também uma retomada da energia nuclear. Não mais aquelas grandes usinas como as de Angra dos Reis (RJ), mas o que chamamos de Small Modular Reactors (SMR). São pequenos reatores nucleares modulares com uma tecnologia menos arriscada, mais segura e mais rápida de ser implementada. Tem o hidrogênio verde, que ainda não é economicamente competitivo. No Brasil, temos investido em biomassa para produção de combustível. Podemos usar essa capacidade para produção de combustíveis avançados, como de aviação e de navegação marítima. Então, também há muitos investimentos em pesquisa nessa área. Tem também as mudanças nos modelos de negócios.

Araujo: Com mudanças no cenário geopolítico, investimento em tecnologia para energia se tornou mais necessário
Araujo: Com mudanças no cenário geopolítico, investimento em tecnologia para energia se tornou mais necessário
Foto: Estadão / Estadão

Quais são esses modelos?

Por exemplo, no Brasil, existem dois modelos possíveis de contratação de energia. O regulado e o livre. O regulado é para o consumidor normal. O livre é para grandes consumidores, como shoppings. No livre, você pode contratar diretamente do produtor de energia. No regulado, tem um planejamento do sistema e a Aneel regulando as tarifas. Esses modelos começam a ser quebrados. Hoje você já pode fazer os Corporate PPAs (contratos corporativos de compra de energia, na sigla em inglês), que são contratos de longo prazo pelos quais uma empresa compra energia elétrica diretamente de um gerador - normalmente de fonte solar ou eólica - a um preço previamente acordado.

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O Brasil está avançando nisso?

Estamos avançando. Mas, para esses modelos evoluírem, é preciso ter mais geração livre de energia e um mercado de compra de energia muito líquido. Também é preciso uma rede muito digitalizada. A rede brasileira é uma das maiores e mais integradas do mundo. Por outro lado, ela não é tão inteligente. O grau de digitalização dela não permite que se consiga monitorar detalhadamente a oferta e o consumo em tempo real. Enquanto não tivermos isso, é difícil evoluir determinados modelos de negócio. Então, é preciso mudar a arquitetura do sistema também. E aí entra uma outra dimensão da inovação, e a inteligência artificial pode ser uma aliada nisso.

A inteligência artificial pode ajudar, mas ela é também uma vilã da transição energética, porque consome muita energia. Como conciliar isso?

É um desafio. É inexorável que a inteligência artificial vá se expandir e demandar muita energia. Temos de saber como suprir essa energia para que ela não pressione ainda mais a emissão de carbono. Por outro lado, à medida que se tem inteligência artificial disponível, é possível gerenciar tudo melhor - produção, transmissão, distribuição. É possível equalizar melhor o consumo e a oferta, sendo mais preciso e reduzindo, por exemplo, roubos e perdas. À medida que a geração distribuída (produzida pelos consumidores com painéis solares instalados no telhado das residências e estabelecimentos comerciais) aumenta, cresce o problema para a gestão da rede. Uma casa com painéis solares gera energia de dia, e essa energia entra na rede. À noite, essa casa não gera energia e precisa consumir da rede. É preciso equilibrar isso. O Brasil tem quase quatro milhões de unidades de geração distribuída de energia integradas na rede sem o sensoriamento adequado. Então, não se sabe exatamente quanto está sendo gerado em cada momento. A inteligência artificial pode ajudar nisso. Mas é preciso um investimento pesado. No Brasil, estamos longe disso.

Mas como adotar uma inteligência artificial que faça isso sem aumentar a emissão de gases poluentes?

A inteligência artificial demanda uma energia firme, estável, de alta potência e de longo prazo. É muito difícil conseguir isso só com fontes renováveis. É preciso hibridizar o sistema, ter capacidade de armazenagem (baterias) ou ter modelos como as centrais nucleares modulares. Vamos ter de encontrar formas de gerar energia renovável e estável a um custo competitivo. Esse é o desafio da inovação. Mas é uma questão de tempo. Vai acontecer. Ninguém imagina hoje instalar um data center e alimentá-lo com termelétrica, gás ou carvão.

O sr. citou a energia nuclear, que é controversa pelos desastres que já ocorreram. A inovação pode tornar essa fonte mais segura?

É o que prometem essas novas tecnologias de centrífugas nucleares modulares. O fato de elas serem menores, ajuda. Elas são muito próprias, por exemplo, para ambientes isolados, onde você pode operá-las de forma autônoma, independentemente do grid. Se você quer instalar um grande data center em uma região mais isolada, onde custaria muito caro usar a energia do grid, essa é uma solução local que pode ser colocada lá. Com isso, voltou-se a investir, depois de quase 40 anos, em energia nuclear. A gente tem na cabeça as grandes centrais nucleares do passado, que eram muito grandes. Elas custavam caro e levava-se muito tempo para construí-las, além do risco de um acidente. Acho que é muito difícil que esse modelo volte, mas as pequenas centrais modulares são mais fáceis de se conter qualquer tipo de acidente. É uma tecnologia que pode ser muito útil para o Brasil.

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O Brasil é apontado como um dos países que mais têm a ganhar com a transição energética, por ter fontes de energia renovável e potencial de fornecer biomassa para produção de biocombustíveis. Mas como o País se posiciona globalmente quando se consideram as inovações para a transição energética? Somos apenas importadores de soluções inovadoras e de última geração?

Estamos devendo um pouco em termos de inovação. Nós também não estamos no zero. Tem muitas iniciativas, mas ainda temos pouco apoio e pouco financiamento. Como o mercado é muito regulado, há pouco estímulo ao venture capital (investimento em empresas inovadoras, com grande potencial, mas também alto risco). Startups começam a aparecer agora, para encontrar novas soluções. Estamos avançando, mas não na velocidade que poderíamos para aproveitar todo o potencial que temos. Temos um sistema integrado, robusto, fisicamente muito bem implementado, mas que carece de investimentos em digitalização para se transformar em uma rede inteligente.

O que é preciso para ter uma rede inteligente?

Para isso acontecer, o modelo de precificação precisa ser mais à base de preço real, para que você não tenha de ficar subsidiando (energia) indefinidamente. Ainda não conseguimos transformar a enorme vantagem comparativa que temos - por termos uma matriz limpa - em uma vantagem competitiva efetiva por causa do custo. Temos uma série de subsídios cruzados e taxas que podem ser revistos.

Quais são os países que são exemplos em inovação para transição energética?

O modelo americano está avançado. As redes americanas são mais digitalizadas, mas elas não são tão integradas quanto a nossa. Lá tem empresas privadas que operam de maneira independente. Por exemplo, a rede da Califórnia está praticamente toda automatizada hoje. E isso quem fez foi a iniciativa privada com o apoio do governo. O governo americano sempre teve a questão da energia muito forte como um princípio de segurança nacional. Então, eles sempre investiram muito em tecnologia e em financiamento para o setor. O Estado ofertou capital a custo barato, participou de empresas por meio de equity (participação) e de startups com investimentos diretos. No caso das centrais nucleares, o Departamento de Energia dos Estados Unidos aprovou, em 2024, US$ 900 milhões só para startups de centrais nucleares. Aprovou também quase US$ 3 bilhões em financiamento para enriquecimento de urânio. Tem uma lógica de planejamento. Eles estão investindo em inovação na área de novas centrais nucleares modulares ao mesmo tempo em que estão estimulando a cadeia de fornecimento de urânio. Isso não acontece por acaso, é um planejamento de investimento em inovação. A mesma coisa foi feita com a digitalização das redes há dez anos. A Alemanha também avançou muito nisso. Eles têm uma geração distribuída integrada à rede e automatizada.

Como as universidades podem participar desse processo de alavancar a inovação no setor energético?

A gente tem universidades poderosíssimas no Brasil estudando esse assunto, mas nem sempre tão integradas à iniciativa privada. É preciso uma coordenação maior, mas acho que está fácil fazer isso. Um exemplo é o laboratório de bioenergia da Unicamp, que tem projetos muito bons financiados por empresas. Ali tem uma integração funcionando, também com o apoio de órgãos governamentais. Temos caminhos para fazer isso e podemos alavancar muito, porque claramente vamos precisar da academia para apoiar as empresas nesse processo de inovação.

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O setor de energia não é mais conservador para gerar inovação?

Em todos os setores de altíssimo capital intensivo, como é o de energia, as empresas têm de ser conservadoras. Não tem jeito, porque elas fazem investimentos muito elevados com retornos a longo prazo. Ser conservador aqui não é um demérito. Na verdade, é uma premissa para o sucesso. Você não pode ficar correndo risco demais. Isso leva o setor a ser estruturalmente conservador. Como é que você acelera a inovação em um setor desse? Se integrando a empresas, à academia e ao governo. Também, se possível, flexibilizando as regras de mercado para que o mercado de capitais seja um estimulador, um financiador e se beneficie do sucesso dessas novas iniciativas. Por isso, é preciso uma orquestração maior. Nisso, eu acho que o Brasil ainda está distante das principais experiências do mundo que vão nessa direção, mas estamos caminhando.

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