Impacto da guerra nos combustíveis faz disparar as vendas de carros elétricos na Europa

A guerra no Oriente Médio tem dado um impulso inédito à venda de carros elétricos nos países europeus. A alta dos preços dos combustíveis opera como o gatilho que faltava para muitos motoristas passarem dos motores térmicos aos elétricos, mais econômicos.

6 mai 2026 - 11h54

Na França, o aumento da gasolina chega a € 0,50 por litro, a um total de cerca de € 2. Enquanto isso, nas concessionárias, a busca por alternativas disparou: as vendas de veículos elétricos novos e usados subiram 48% desde janeiro, apesar do contexto de recuo do setor automotivo como um todo, nos últimos anos.

O vendedor Alexandre Pires, gerente da loja JPA Autos na região parisiense, está neste mercado há 10 anos e constatou a virada: "faz vários anos que estamos em aumento constante, mas desde o início do ano, ela é bem maior devido ao problema dos combustíveis", disse. "Como o carro elétrico praticamente não precisa de manutenção, ele é de três a cinco vezes mais econômico."

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Para enfrentar o aumento do diesel e da gasolina, em vez de subsidiar o valor do litro, o governo francês prorrogou um plano de ajuda para a compra de um veículo elétrico novo, com a expectativa de beneficiar 50 mil famílias de baixa renda.

A França não é um caso isolado: o movimento na direção de carros que dispensem combustível se repete na maioria dos países europeus. A alta das vendas é semelhante no Reino Unido e na Alemanha e até superior na Itália, onde o crescimento nesse segmento chegou a 67%.

Novos modelos populares

Na Europa, a Tesla segue a marca preferida na linha premium de automóveis. Mas a chegada de modelos pequenos e mais acessíveis, como o Renault Zoe, o Dacia Spring e o BMW i3, ajuda a explicar a maior procura nas lojas.

"Temos muita demanda de carros médios e pequenos, para circular na cidade. O volume cresceu muito e agora está mais fácil encontrar modelos usados e recentes, com pouca quilometragem", frisa Pires. "Os clientes ficam tranquilos, do ponto de vista técnico, afinal a garantia da bateria em geral é de oito anos."

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Gerente de revendedora na região parisiense, Alexandre Pires afirma que faltam carros elétricos para atender à demanda na França.
Gerente de revendedora na região parisiense, Alexandre Pires afirma que faltam carros elétricos para atender à demanda na França.
Foto: RFI

Em entrevista à RFI, a presidente da Câmara Sindical de Importadores de Automóveis e Motocicletas (Ciam) da França, Athina Argyriou, salientou que a indústria automotiva do bloco "está em mutação" desde que compreendeu a oportunidade que representa a transição energética. Hoje, 10 anos depois do Acordo de Paris sobre o Clima, a oferta europeia representa mais de 80% do mercado interno de veículos.

"Hoje, a nossa dependência petroquímica do Oriente Médio, da China e dos Estados Unidos é de cerca de 90% e a cada vez que tem tensões geopolíticas, tem impactos nas nossas economias. A Europa viu que, ao mesmo tempo, a sua indústria estava em declínio e foi uma forma de recuperar competitividade", afirmou Argyriou. "Fizemos essa virada e hoje a Europa é precursora no mundo, no sentido de que ela fixou objetivos extremamente ambiciosos e coloca essa transição econômica no foco das suas preocupações sociais, econômicas e geopolíticas. É uma realidade."

Concorrência chinesa

As barreiras adotadas pela União Europeia contra os carros chineses seguraram, num primeiro momento, a entrada de marcas como BYD, MG e Chery no continente. Entretanto, graças aos modelos híbridos, que conseguem contornar o pacote antidumping em vigor contra Pequim desde outubro de 2024, a venda de veículos da China teve uma alta espetacular no primeiro trimestre: chegou a 170% no caso da BYD.

"A China tem um avanço considerável nas baterias, mas não nos carros em si. Eles começaram a investir muito cedo, há mais de 10 anos, portanto estão na frente", comentou a representante setorial. "A China produz mais modelos pequenos, enquanto a competitividade europeia focou na oferta premium. Essa é a diferença."

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Na concessionária, o mercado de usados está tenso. Segundo Alexandre Pires, a demanda é maior do que a oferta. "Estamos sempre no limite, em termos de volume. Assim que surge um carro na faixa de até € (E) 20 mil, ele é vendido quase imediatamente", garante. "Antes, eu precisava explicar, convencer. Agora, são os clientes que pedem. Não tenho dúvida de que, nos próximos anos, os carros chineses também vão ocupar esse espaço."

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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