Ibovespa sobe com Vale, mas receio fiscal mantém índice abaixo dos 186 mil pontos

17 set 2026 - 17h19
(atualizado às 17h40)
Resumo
O Ibovespa subiu 0,24%, aos 185.992 pontos, impulsionado pela alta da Vale em um dia de forte volatilidade. O mercado reagiu com cautela ao anúncio de reajuste do Bolsa Família às vésperas da eleição presidencial, o que elevou temores fiscais e pressionou os juros futuros. A indefinição na disputa eleitoral acirrada e o recente corte da taxa Selic para 13,75% ao ano também influenciaram o humor dos investidores, limitando maiores ganhos na bolsa paulista.

O Ibovespa fechou em alta nesta quinta-feira, assegurada principalmente pelo avanço de 2% da blue chip Vale, após reação ‌negativa no pregão ao anúncio de reajuste do Bolsa Família e seus potenciais efeitos nas contas públicas e no cenário eleitoral.

Nova pesquisa eleitoral também ocupou as atenções, reforçando o cenário de disputa acirrada pelo Palácio do Planalto, assim como a decisão de política monetária do Banco Central, que reduziu a Selic a 13,75% na véspera e deixou em aberto os próximos movimentos.

Publicidade

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa encerrou com acréscimo de 0,24%, a 185.992,03 pontos, após chegar a 186.740,72 pontos na máxima do dia (+0,72%). No pior momento, cravou 183.242,37 pontos, queda de 1,2%.

O volume financeiro no pregão somou R$26,81 bilhões, em sessão ainda marcada por desempenho robusto de Wall Street e queda dos preços do petróleo no mercado internacional.

A menos de 20 dias das eleições, o governo do presidente Luiz Inácio Lula ⁠da Silva, que busca novo mandato, anunciou aumento de 15% nos benefícios do Bolsa Família a partir de outubro, estimando um  custo fiscal de R$5,8 bilhões em 2026 e de R$22 bilhões em 2027.

De acordo ‌com profissionais do mercado financeiro, embora a iniciativa tenha efeitos positivos sobre renda e inclusão social, o momento de sua divulgação e a ampliação dos gastos voltaram a alimentar questionamentos sobre a trajetória fiscal do país e a sustentabilidade da dívida pública nos próximos anos.

Publicidade

Além disso, eles também citaram que a medida é um componente que pode aumentar as chances de reeleição de Lula, em um momento ‌no qual pesquisas de intenção de voto têm mostrado um cenário bastante acirrado nas simulações de segundo turno contra o senador ‌Flávio Bolsonaro (PL) para o Planalto.

O Ibovespa, que vinha com sinal positivo, passou a cair mais de 1% após o anúncio sobre o Bolsa Família, enquanto as taxas dos DIs engataram alta ⁠e o dólar também ganhou terreno ante real. 

Na visão do analista Matheus Villela, da gestora de patrimônio Aware Investments, a reação foi mais uma resposta imediata à preocupação fiscal do que uma mudança de percepção. 

Ele acrescentou que pesou o fato de a medida vir a cerca de duas semanas do primeiro turno e não estar contemplada na proposta orçamentária de 2027, ainda que o governo afirme que há espaço fiscal para absorvê-la nos dois exercícios, com remanejamento de sobras de outras despesas.

Publicidade

"Enquanto o mercado não tiver mais clareza sobre o rumo do fiscal, fica difícil a curva de juros fechar de forma consistente", afirmou. O movimento nos DIs costuma influenciar a bolsa, com a queda (fechamento) das taxas atuando como componente benigno.

Uma parcela no mercado acredita que uma mudança de governo em Brasília resultaria em uma política ‌fiscal mais equilibrada, com medidas para frear o crescimento da dívida pública em relação ao PIB, o que explica a reação positiva na bolsa a notícias que corroborem expectativas de troca no Palácio do Planalto -- e ‌vice-versa.

Mais cedo, pesquisa AtlasIntel/Bloomberg mostrou que Flávio ampliou sua vantagem sobre Lula (PT) ⁠em um eventual segundo turno da eleição presidencial, embora ⁠os candidatos permaneçam em empate técnico, o que ajudou a amenizar o efeito do reajuste do Bolsa Família após uma primeira reação mais negativa. A quinta-feira ainda reserva novo levantamento Datafolha sobre a disputa.

Estrategistas do BTG Pactual ⁠mantiveram a classificação neutra para as ações brasileiras em seu portfólio para a América Latina, ressaltando que a corrida eleitoral está ‌totalmente indefinida. 

Publicidade

"Acreditamos que a eleição está acirrada demais para permitir previsões ‌confiáveis e, por isso, continuamos favorecendo empresas de alta qualidade e elevada liquidez, que, em nossa avaliação, tendem a apresentar bom desempenho sob qualquer um dos cenários, seja uma vitória do atual governo ou da oposição", afirmaram em relatório a clientes.

"Temos evitado recomendações de ações cuja tese de investimento dependa excessivamente de uma melhora fiscal. Podemos mudar essa abordagem se houver razões para isso, mas acreditamos que a classificação atual para o país, Neutra, com foco em qualidade e liquidez, continua sendo a melhor forma de navegar o cenário que está por vir."

Investidores ⁠da bolsa paulista também analisaram nesta sessão a decisão do Banco Central na véspera de cortar a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, a 13,75% ao ano. A autoridade monetária deixou os próximos passos em aberto ao afirmar, ao fim da última reunião de política monetária antes das eleições presidenciais, que o atual cenário de incerteza demanda serenidade e cautela na condução da política monetária.

De acordo com Villela, o corte de 0,25 ponto já vinha sendo desenhado há algumas semanas e era praticamente consenso, "então sobrou pouco para o mercado reprecificar".

Publicidade

Ele destacou que a magnitude do corte não muda a conta de ninguém nem deixa a bolsa mais atrativa, uma vez que o investidor continua muito bem remunerado na renda ‌fixa a 13,75%.

"Na minha visão, o que faz o investidor migrar para risco não é o corte em si, é a convicção de que existe um ciclo mais longo pela frente. Enquanto essa percepção não se consolidar, entendo que a bolsa segue sem um gatilho próprio e continua andando mais ao sabor das commodities e do humor externo."

De acordo com a B3, a bolsa voltou ⁠a registrar entrada líquida de estrangeiros no último dia 15, após duas sessões com saída, passando a acumular em setembro saldo positivo de R$7,25 bilhões até a última terça-feira. Até o dia 14, eram R$7 bilhões.

No exterior,  o S&P 500 avançou 1,14%, em mais uma sessão de recuo dos preços do petróleo no mercado internacional.

DESTAQUES

Publicidade

• VALE ON fechou em alta de 2,07%, em linha com o movimento de mineradoras no exterior. Na China, o contrato futuro de minério de ferro mais negociado na Bolsa de Commodities de Dalian fechou o pregão diurno com alta de 0,28%, a 710,5 iuanes (US$105,92) por tonelada. Na contramão, CSN MINERAÇÃO ON perdeu 5,59%.

• PETROBRAS PN cedeu 0,08% e PETROBRAS ON avançou 0,32%, em dia de queda dos preços do petróleo no exterior, onde o barril sob o contrato Brent fechou em baixa de 0,95%, a US$104,82. A estatal também informou que assinou contratos de partilha de produção para a exploração de oito blocos marítimos na Costa do Marfim "com elevado potencial".

• ITAÚ UNIBANCO PN fechou com variação negativa de 0,09%, em sessão volátil, com desempenho misto entre os bancos. SANTANDER BRASIL UNIT foi o destaque positivo do setor no Ibovespa, com alta de 2,52%, enquanto BTG PACTUAL UNIT avançou 0,51% e BANCO DO BRASIL ON subiu 0,31%. BRADESCO PN perdeu 0,33%, tendo ainda de pano de fundo o encerramento da primeira etapa de seu aumento de capital com subscrição de 402,4 milhões de novas ações (de 604,85 milhões ações), somando R$6,5 bilhões.

• CURY ON recuou 5,15%, em pregão negativo para construtoras, mesmo com os DIs apresentando alívio após uma reação em alta ao anúncio do reajuste do Bolsa Família. O índice imobiliário na B3 caiu 2,38%.

Publicidade

• IMC ON, que não faz parte do Ibovespa, valorizou-se 4,49%, em meio a notícias de que a operadora de redes de restaurantes e um fundo da Vinci Compass estão em negociações preliminares para uma possível fusão de suas operações no setor.

Reuters - Esta publicação inclusive informação e dados são de propriedade intelectual de Reuters. Fica expresamente proibido seu uso ou de seu nome sem a prévia autorização de Reuters. Todos os direitos reservados.
TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações