Ian Beacraft, CEO da consultoria Signal and Cipher e uma das maiores autoridades globais em futuro do trabalho, vê a adoção da inteligência artificial (IA) nas empresas como um processo gradual, como foi a incorporação das máquinas a partir da Revolução Industrial. Desse modo, o especialista não vê grandes riscos de eliminação rápida de postos de trabalho, mas sim uma transição para uma diferente forma de trabalhar em conjunto com a tecnologia.
"Não consigo imaginar um mundo onde eliminaremos 75% dos empregos da noite para o dia. Eu vejo um mundo onde uma certa parcela das tarefas que realizamos hoje será automatizada, e isso pode acontecer mais cedo do que imaginamos. O impacto será resultado de como nossas organizações reagirão, e não da rapidez com que a tecnologia tornará isso possível", diz.
Um dos palestrantes do São Paulo Innovation Week, que será realizado em maio, Beacraft conta que a IA atualmente só é capaz de automatizar parte das funções hoje feitas por humanos, deixando uma lacuna que será preenchida por eles. Além disso, alerta que as companhias tendem a ser lentas na adoção real de tecnologias, que evoluem numa velocidade muito maior.
Mesmo quando adotam rapidamente novas tecnologias, as empresas, diz Beacraft, ainda não são capazes de explorar todo o potencial da inteligência artificial por não enxergá-la como realmente é. "Muitas pessoas ainda usam a IA como uma ferramenta e isso causa perda de 90% do seu valor. A IA é, na verdade, uma plataforma. É como a eletricidade, a água ou a tecnologia digital, que moldaram economias inteiras", afirma.
Por isso, o especialista acredita que as empresas poderão criar novos negócios rapidamente no fim desta década, justamente porque a IA está assumindo a função de coordenação de negócios. Ou seja, na prática, as companhias poderão ser mais ágeis ao detectar novas oportunidades de mercado.
O São Paulo Innovation Week, uma parceria entre o Estadão e a Base eventos, será realizado entre os dias 13 e 15 de maio. Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto: para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.
Confira os principais trechos da entrevista a seguir.
Como os profissionais humanos podem manter seus empregos e até se destacarem diante da ascensão dos agentes de IA?
Provavelmente, não estamos longe de um mundo onde ela poderá fazer tudo o que eu faço. É fácil cair nessa armadilha, especialmente quando os próprios criadores de IA estão vendendo a ideia de um mundo onde podem eliminar muitos dos desafios do trabalho. Certas funções serão automatizadas, mas, na maior parte, serão apenas partes dessas funções. O que acontece é que você não automatiza um trabalho inteiro de uma vez, e sim certas partes dele. O trabalho fica com uma lacuna e temos dificuldade em entender como preenchê-la. Como criar algo que possa pegar o trabalho de uma pessoa e agregar mais do que a organização precisa fazer? Essa é uma questão tanto de teoria organizacional quanto de gestão, tanto operacional quanto tecnológica. Um dos desafios em responder a essa pergunta é que geralmente ela é feita dentro de uma perspectiva tecnológica, de como prosperar nesta era em que a tecnologia está impulsionando tudo. A tecnologia não impulsiona tudo. É na tecnologia que o maior progresso está sendo feito, mas ela muda a estrutura de como o trabalho é feito, a estrutura de tomada de decisão, a forma como a liderança se apresenta e onde o poder está consolidado. Nos últimos 50 anos, isso não mudou muito. Agora, as dinâmicas estão sendo 'disruptadas'. Mas não estamos discutindo todas as outras para chegarmos a uma resposta abrangente.
Como um profissional especializado pode começar sua transição para se tornar um 'generalista criativo' sem perder a autoridade técnica que já tem?
Pessoas com conhecimento profundo se tornarão ainda mais importantes, não menos. A própria expertise pode se tornar menos defensável, porque o custo de aquisição de novo conhecimento é zero. A IA facilitou a atuação como se fosse conhecimento. Mas o que ela não fez foi ajudar a incorporar o discernimento, a compreensão e a sabedoria de quem já se deparou com situações e casos extremos centenas ou milhares de vezes, para saber quais perguntas fazer, para saber como antecipar certos casos extremos ou cenários que outros podem não ter vivenciado antes. Essa sabedoria tem mais importância, não menos. Quando você tem pessoas com acesso ao conhecimento, mas sem experiência, fica mais fácil se deparar com desafios, problemas e dificuldades que poderiam passar despercebidos. Já aqueles que têm conhecimento profundo e expertise sabem como evitá-los antes mesmo de surgirem. Assim, acabam assumindo o papel de guia, muito mais do que aqueles que não o possuem. Eles podem orientar outros sobre como navegar na tecnologia, como utilizá-la para ir além de sua base de conhecimento, mas sua sabedoria se torna exponencialmente importante e inestimável, não menos.
Quais profissões podem ser seguras para os trabalhadores que temem ser substituídos por soluções baseadas em IA?
A questão não é tanto a segurança das profissões, mas sim como percebemos a evolução de tudo, porque tudo está mudando. Se a discussão for entre profissões seguras e inseguras, vira um jogo de desgaste, um 'nós contra eles'. É como se fosse o povo contra a tecnologia. A tecnologia está vindo para cima de nós, e sempre foi algo capaz de amplificar todo o espectro do espírito e da capacidade humana. Nós, como sociedade, vamos mudar enormemente por causa do que está acontecendo no mundo e do que a IA possibilita. Isso nos permitirá fazer coisas incríveis. Mas também vai eliminar certas partes de nossas funções que realmente amamos, tornando-as desnecessárias. Isso traz benefícios e desvantagens. Então, a sociedade terá de se adaptar a isso de muitas maneiras. Nós poderemos celebrar os avanços que vierem com isso, mas também teremos de lamentar coletivamente a perda de coisas que antes compunham nossa identidade e que aspirávamos criar juntos, por conta própria. Como isso se dará, eu não sei, mas é algo que está evoluindo e que já começamos a ver em tempo real.
Quais são as soft skills que serão as mais escassas e valiosas nos próximos cinco anos?
A primeira coisa que eu diria é discernimento e a capacidade de articular intenções. Discernimento significa entender o que deve ser construído e como deve ser construído, ou o que deve ser criado com IA. A declaração de intenções é uma das características marcantes de um bom comunicador e um bom gestor. Consigo articular o que quero de você de uma forma que me garanta um retorno valioso? Faremos o mesmo com a IA quando a implementarmos. A maioria das pessoas tem muita dificuldade com essa parte porque não estamos acostumados a articular nossas intenções em detalhes. Podemos receber um retorno que simplesmente parece que não funciona, mas será porque não especificamos como seria o resultado esperado.
Em um mundo onde diferentes IAs assumem funções dos trabalhadores, como a economia irá se manter?
Normalmente, o que acontece quando há uma mudança estrutural na economia é que outros setores começam a surgir e a evoluir em torno dela. Não se trata simplesmente de uma bolha que se evapora. Se um certo número de funções for impactado pela IA, outras áreas da economia precisam se desenvolver em torno disso. Não consigo imaginar um mundo onde eliminaremos 75% dos empregos da noite para o dia. Eu vejo um mundo onde uma certa parcela das tarefas que realizamos hoje será automatizada, e isso pode acontecer mais cedo do que imaginamos. O impacto será resultado de como nossas organizações reagirão, e não da rapidez com que a tecnologia tornará isso possível. Existe uma enorme defasagem entre a capacidade da tecnologia e sua difusão na sociedade. O custo é um fator importante: quão caro é usar IA para realizar essas tarefas? Atualmente, a IA é muito cara para a maioria delas. No geral, ela pode realizar tarefas pequenas e específicas a um custo muito baixo, mas realizar cada vez mais o trabalho intelectual que as pessoas e os humanos fazem é bastante caro. Esse não é um assunto que se discute muito. O outro ponto é a rapidez com que podemos reestruturar as organizações para começar a usar essa tecnologia de forma eficaz, de modo a eliminar a necessidade de humanos para realizar esse trabalho. Essa é uma mudança e transformação organizacional que não acontece da noite para o dia. Leva tempo.
Então, levará anos para que a IA cause impactos relevantes nas empresas?
Estamos falando de vários anos para que esses grandes impactos que as pessoas pensam que virão amanhã se consolidem de fato. Isso nos dá tempo, como sociedade, para termos essas conversas sobre como seria quando houvesse menos trabalho humano a ser feito aqui e mais trabalho sendo realizado ali. As empresas que usam IA fazem uma separação entre a coordenação do trabalho e a cultura do trabalho. A maneira como construímos organizações hoje é que essas duas coisas estão completamente interligadas. Agora, a IA cuida da coordenação e as pessoas definem a cultura. Isso significa que a natureza do trabalho muda fundamentalmente. É parecido com o que aconteceu na Revolução Industrial. Não ficamos sem trabalho, nós migramos para outras formas de trabalho. Estamos deixando de valorizar nosso trabalho intelectual, o esforço de escrever o documento, fazer a síntese, criar o conteúdo nós mesmos e orquestrar, delegar e coordenar isso com a IA. Isso significa projetar fluxos de trabalho, ou melhor, reestruturar os ambientes em que o trabalho acontece. É outro nível de abstração, algo como do físico para o mental. Agora é do mental, da produção e da coordenação para o projeto e a arquitetura desses tipos de ambientes. Leva tempo para mudar toda uma sociedade de um tipo de trabalho para outro. Levamos de 125 a 150 anos de teoria da administração moderna para chegar onde estamos hoje. Esse mesmo tipo de desenvolvimento provavelmente acontecerá em menos de uma década, talvez 15 anos. Não, é muito mais rápido, mas é um tipo muito semelhante de encapsulamento de mudança.
Como sabemos, a IA é tão boa quanto seus dados. Se as IAs dominarem a internet, como já tem acontecido, corremos o risco de um retrocesso por falta de dados suficientes para essas soluções tecnológicas?
O argumento de que a IA está piorando é equivocado. O que temos visto é que, quando a IA é direcionada adequadamente, ela só melhora. Os modelos de IA, como o Claude AI e o ChatGPT, foram treinados com 99,9% de todos os dados que a humanidade publicou na internet. Portanto, ela não ficará muito mais inteligente treinando com mais dados da web. Ela precisa de dados sobre o mundo ao nosso redor, dados de sensores, dados proprietários e dados corporativos. O que descobrimos é que as organizações que usam isso com mais eficácia investiram tanto tempo em seus próprios dados internos quanto na criação de ferramentas e infraestrutura. Se você tem dados realmente bons, estruturados de forma eficaz, projetados para serem usados ??por IA, isso cria novas operações e políticas de governança com as quais a IA pode trabalhar.
Quais benefícios as empresas têm com o uso de uma IA alimentada com dados de boa qualidade?
Isso permite que a organização trabalhe de forma eficaz com a IA de maneira previsível. Ela não comete alucinações ou se comporta de maneiras imprevisíveis. Ela funciona dentro dos sistemas que trazem benefícios para a organização de uma forma previsível. É aí que vemos um enorme aumento de produtividade para as organizações. Muitas pessoas ainda usam a IA como uma ferramenta e isso causa perda de 90% do seu valor. A IA é, na verdade, uma plataforma. É como a eletricidade, a água ou a tecnologia digital, que moldaram economias inteiras. Se você pensar nisso apenas como uma ferramenta, fará perguntas como se fosse uma ferramenta. Isso realmente limita sua visão e significa que suas perguntas permanecem pequenas, o que significa que as respostas também permanecem pequenas. Se você pensar nisso como uma plataforma que reescreve as regras de uma economia ou organização, então fará perguntas muito maiores sobre o que pode fazer, o que significa que as iniciativas se tornam maiores e os resultados também.
Como as empresas podem proteger e codificar seu conhecimento proprietário sem que ele seja simplesmente absorvido pelos grandes modelos de linguagem (LLMs) públicos?
A privacidade é extremamente importante e jamais incentivaríamos alguém a despejar seus dados proprietários em LLMs públicos. Incentivamos que todos tenham a capacidade de usar modelos de código aberto internamente para extrair grande parte dessas informações. Os dados proprietários e a capacidade de criar modelos de governança e operações de IA com base neles serão uma das vantagens competitivas das companhias. As violações de dados que vimos no passado serão insignificantes em comparação com algumas das que vão acontecer. Será possível roubar o modelo operacional de uma empresa que foi codificado em um modelo de IA, obtendo acesso a ele, e replicá-lo facilmente. Isso representa prejuízos de potencialmente bilhões de dólares. Portanto, simplesmente usar uma versão gratuita de IA não é aconselhável.
Qual é o erro mais comum que as empresas cometem ao tentar implementar IA em suas operações hoje?
Nas soluções de IA, se você fornecer a ferramenta, as pessoas a usarão. E vemos isso repetidamente: após a implementação do ChatGPT, Copilot ou Claude AI, as empresas têm um pico de uso, mas de repente ninguém mais usa porque não conseguem descobrir como aplicá-los na rotina. As companhias contam com as pessoas para descobrirem o que a IA significa para elas. É preciso ter um plano sobre como a IA impacta no dia a dia. Precisamos de respostas, não de uma nova obrigação. Mas é isso que as empresas estão fazendo. Elas estão dando aos seus funcionários uma nova obrigação que devem ser 50% mais produtivos. Na verdade, o que foi dado foi uma missão de descobrir como a IA torna o trabalho mais eficiente. Por isso, as empresas percebem uma grande queda na produtividade antes de um aumento, o que é normal. Mesmo que você dê as respostas, as pessoas precisam descobrir uma nova maneira de trabalhar. Elas precisam entender o que isso significa para o trabalho delas e como vão mudar a forma como trabalham.
Como avalia o modelo de negócios das empresas que desenvolvem IA generativa, como OpenAI, Google e Anthropic?
O Google tem o modelo de negócios mais distinto entre os três. A OpenAI e a Anthropic são empresas de inteligência artificial peer-to-peer (pessoa a pessoa). O Google tem o modelo de publicidade mais lucrativo da história, o que lhe dá uma perspectiva um pouco diferente e permite que o lançamento dos seus produtos seja de uma forma diferente. Eles também conseguiram integrar verticalmente todo o seu conjunto de produtos, algo que a Anthropic e a ChatGPT não conseguem fazer. Portanto, eles terão que buscar modelos de negócios ligeiramente diferentes. Por buscar um volume tão alto em termos de captação de investimentos, a OpenAI precisa atingir diversos mercados e modelos de negócios diferentes. Agora, eles estão testando anúncios, depois de terem afirmado que não o fariam. A empresa tem de expandir para o máximo de áreas possível para construir novas estruturas de receita e, assim, sustentar a necessidade de crescimento. Já a Anthropic está tendo ainda mais sucesso do que a OpenAI em termos de adoção corporativa. O Google tem uma vantagem muito clara. Mas também estou curioso para ver como o modelo de negócios da OpenAI evoluirá, devido às suas promessas de atingir trilhões de dólares em valor de mercado. É um compromisso e tanto. Mesmo a Anthropic, que está de olho em uma fatia considerável do mercado, tem um público fiel em diversas áreas, o que lhe dará um bom suporte.
Você costuma falar em eventos globais de inovação. Como avalia a chegada desse tipo de evento a SP com a São Paulo Innovation Week?
A conversa necessária é em um polo de inovação na América Latina. É um lugar onde líderes já se reúnem para discutir tecnologia de diversas maneiras. É preciso reunir pessoas de diferentes lugares agora que todos se perguntam como vamos criar o futuro. Algo assim pode gerar um enorme impulso. É o início de um novo capítulo não só para São Paulo, mas para toda a América Latina.
O que o sr. acredita que será comum no ambiente de trabalho em 2030, mas que a maioria das pessoas hoje consideraria ficção científica ou impossível?
Atualmente, pensamos em projetos e iniciativas como a principal coisa a ser construída em uma empresa. Em 2030, seremos capazes de dizer: "Vamos começar um negócio ainda hoje e ver como o modelo pode suportá-lo". As empresas serão capazes de construir novos negócios, novas linhas de valor e testar essas hipóteses tão rapidamente quanto se testa um código. Isso é algo difícil de imaginar para muitas pessoas, mas a IA está assumindo, de forma muito eficaz, a função de coordenação dos negócios. Trata-se de navegar pela burocracia e pela estrutura para criar um negócio. Em 2030, você poderá literalmente dizer: 'Estrategicamente, estamos vendo que isso está criando valor'. Será possível construir um negócio totalmente novo, por volta das 7h da manhã, e ter uma frota pronta para a função às 11h45.
Então, tudo vai mudar nas empresas no fim desta década?
Em 2030, certas coisas terão mudado drasticamente e outras serão exatamente iguais a como são hoje. O progresso sempre vem em ondas. Nunca é linear e é frustrantemente lento em certas partes e incrivelmente rápido em outras. O que sempre aprendemos, porém, é que essas mudanças massivas acontecem e, na semana que vem, já são nossa nova realidade e ninguém mais pensa nisso. O aspecto de ficção científica surge muito rapidamente e, de repente, já é notícia velha e estamos pensando na próxima novidade.