Guerra no Irã pressiona aéreas e ameaça férias de europeus

1 mai 2026 - 17h15

Escassez de querosene de aviação, provocada por bloqueio do Estreito de Ormuz, eleva preços de passagens na UE e lança sombra sobre temporada de férias na Europa. Setor teme queda de receita e de viajantes.A alta no preço das passagens aéreas e a queda esperada no fornecimento de querosene de aviação ameaçam as margens de lucro do setor aéreo europeu — e também as férias de quem vive na União Europeia, já que isso pode levar muitos a abortarem seus planos para a temporada de férias de verão no continente.

Alta nos preços das passagens pode levar muitos europeus a abortarem planos de férias
Alta nos preços das passagens pode levar muitos europeus a abortarem planos de férias
Foto: DW / Deutsche Welle

Os preços do querosene de aviação mais que dobraram desde que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, em 28 de fevereiro. O motivo: o bloqueio por EUA e Irã, em momentos distintos, do Estreito de Ormuz, via marítima por onde passa um quinto dos navios-tanque de petróleo e gás do mundo.

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Marina Efthymiou, professora de gestão da aviação na Dublin City University, disse à DW que os preços do querosene de aviação na Europa saíram de cerca de 68,27 euros (R$ 399) por barril em fevereiro para 153,84 euros (R$ 899) no fim de abril, segundo o Monitor de Preços de Combustível de Aviação da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).

"Se os preços do combustível, que representam de 25% a 50% das despesas operacionais totais de uma companhia aérea, permanecerem elevados e as empresas não tiverem feito hedge, elas podem ir à falência", afirma.

Hedge, neste caso, diz respeito à prática de algumas companhias de firmar contratos futuros para compra de combustível a valores pré-fixados, como forma de se proteger contra eventuais disparadas de preço.

Além da escalada de preços, um desabastecimento de querosene de aviação é esperado em breve. Em meados de abril, o chefe da Agência Internacional de Energia (AIE) alertou que a Europa tem cerca de seis semanas de estoque do combustível.

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A Europa consome, em média, cerca de 1,6 milhão de barris de querosene de aviação por dia e produz 1,1 milhão de barris internamente. Uma grande parte do restante — cerca de 500 mil barris — vinha do Oriente Médio via Estreito de Ormuz, que atualmente está praticamente intransitável.

Viagens aéreas mais caras, cortes de voos e sobretaxas

Algumas companhias aéreas estão repassando esse aumento do custo do combustível aos clientes. A Air France-KLM dobrou a sobretaxa em voos de longa distância, de 50 para 100 euros por passagem, enquanto a Lufthansa anunciou que vai cortar 20 mil voos de curta distância. A Scandinavian Airlines (SAS) cancelará cerca de mil voos.

"Somos obrigados a fazer isso, porque caso contrário estaremos falidos em poucos meses", disse Sebastien Justum, vice-presidente sênior da Air France-KLM, em um evento recente no Parlamento Europeu.

As tarifas aéreas subiram 24% no último ano, segundo um relatório recente da consultoria Teneo.

Andrew Charlton, diretor-gerente da consultoria Aviation Advocacy, afirmou que, embora o fornecimento de combustível seja atualmente suficiente, a incerteza é grande.

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"Essa incerteza, e o custo extra de manter os tanques cheios, está tornando as passagens mais caras", disse ele à DW. "Os viajantes devem esperar menos assentos e menos pechinchas no mercado."

Qual é a expectativa do setor aéreo?

A Airlines for Europe (A4E), associação de 16 companhias aéreas europeias que afirma representar 80% do tráfego aéreo do continente, pediu à UE a adoção de medidas urgentes para limitar o impacto da guerra com o Irã.

A entidade solicitou que a UE flexibilize as exigências da legislação antitanqueamento, que obriga os voos a abastecerem 90% do combustível necessário dentro do bloco. Essas regras buscam desestimular as companhias a carregar combustível mais barato em países com padrões ambientais mais baixos.

A A4E também pediu à UE a suspensão temporária do Sistema de Comércio de Emissões (ETS), que obriga companhias aéreas que operam no bloco a pagar pelas emissões de carbono.

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"Essas são medidas temporárias para atravessarmos a situação atual, além de um planejamento de longo prazo para estarmos preparados para o futuro", disse Ourania Georgoutsakou, diretora-executiva da A4E, em comunicado.

O Conselho Internacional de Aeroportos (ACI), uma entidade de direito privado que representa o setor, pediu importações de locais alternativos, compras conjuntas pelos Estados-membros da UE e maior coordenação.

"Os atuais níveis de preços do querosene de aviação e a perspectiva de uma nova crise do custo de vida significam que muitos aeroportos regionais em nosso continente provavelmente enfrentarão um choque tanto de oferta quanto de demanda", disse Olivier Jankovec, diretor-geral da ACI na Europa. "Para eles, isso representa nada menos que uma ameaça existencial."

Ele ressaltou, no entanto, que os aeroportos europeus ainda não enfrentam escassez de combustível.

Comissão Europeia pede coordenação

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"Em apenas 60 dias de conflito, nossa conta de importações de combustíveis fósseis aumentou em mais de 27 bilhões de euros [R$ 157,8 bilhões]", declarou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em discurso no Parlamento Europeu nesta quarta-feira (29/04).

Ela defendeu maior coordenação entre os Estados-membros da UE, "não apenas na reposição de estoques nacionais de gás, mas também no que diz respeito às reservas de combustível, especialmente querosene de aviação e diesel, cujos mercados estão se apertando".

Na semana passada, a Comissão lançou o plano "AccelerateEU", que inclui o monitoramento dos estoques de querosene de aviação e a coordenação do fornecimento para companhias aéreas e aeroportos em todo o bloco.

Charlton disse que um observatório de combustível na UE, para mapear os estoques disponíveis de querosene de aviação e otimizar a distribuição, já está "em funcionamento" e é "louvável".

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Outros afirmaram que o monitoramento e a coordenação da UE podem mitigar o impacto de um possível gargalo no fornecimento, mas talvez não sejam suficientes se a crise se prolongar.

"Isso pode impedir que uma escassez em nível nacional se transforme em pânico em todo o continente, mas não pode criar combustível que não existe", ressalta Efthymiou, da Dublin City University.

Exportadores estão retendo produção

Exportadores de querosene de aviação refinado também percebem que têm em mãos um produto cada vez mais escasso. "Grande parte do querosene de aviação do mundo é refinada na Ásia — a Coreia do Sul é a principal exportadora —, mas os países asiáticos estão começando a limitar as exportações porque seu petróleo bruto também vem do Oriente Médio", ressalta Efthymiou.

Ainda assim, a UE tenta passar a mensagem de que está preparada para lidar com eventuais cenários de escassez de combustível e incentiva as pessoas a viajar.

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"Embora precisemos nos preparar para o pior cenário, também devemos evitar enviar mensagens excessivamente negativas e alarmistas, que criem confusão ou até pânico no público viajante", diz Apostolos Tzitzikostas, comissário europeu de Transporte Sustentável e Turismo. "Estamos fazendo todo o possível para antecipar e conter o impacto dessa situação extremamente difícil."

Ele acrescenta, porém, que "se nossos cidadãos [da UE] ou turistas potenciais de outros países não se sentirem confiantes para comprar passagens nas férias, uma crise econômica chegará mais cedo do que imaginamos".

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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