Oferecimento

Governo alemão aposta em economia high tech para conter avanço da ultradireita na Alemanha

1 nov 2026 - 10h27
Resumo
Para frear a ascensão eleitoral da ultradireita impulsionada pela crise industrial e pela concorrência chinesa, o governo alemão aposta na economia de alta tecnologia. O plano foca em inteligência artificial, energia limpa e biotecnologia, impulsionado pelo recorde de investimentos em startups e pela expansão dos gastos com defesa. Especialistas apontam que a recuperação do crescimento dependerá do apoio a empresas inovadoras e da liderança em nichos estratégicos da cadeia global de inovação.

Conflitos, energia cada vez mais cara e competição chinesa ameaçam as exportações, base da economia alemã. Cenário tem favorecido ascensão da ultradireita em pesquisas eleitorais.O modelo econômico alemão baseado nas exportações enfrenta uma pressão sem precedentes justamente quando o apoio ao partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) bate recordes.

Os concorrentes chineses vêm corroendo gradualmente a participação de mercado dos grandes grupos industriais alemães, enquanto os preços persistentemente altos da energia, os custos elevados da mão de obra e o excesso de burocracia agravam a crise estrutural.

Publicidade

Após dois anos de contração, o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu apenas 0,2% no ano passado, segundo o Escritório Federal de Estatísticas da Alemanha (Destatis). As exportações para a China caíram 9,7% em 2025, com os embarques de veículos e peças alemães despencando um terço.

Embora existam sinais de que a economia alemã está se recuperando, a previsão mais recente do governo, de crescimento de 1,3% em 2026, ainda é modesta em comparação com os anos de forte expansão anteriores à pandemia de covid-19.

Atualmente, a AfD lidera as pesquisas de intenção de voto na Alemanha. Os desafios econômicos do país têm sido um fator importante para a ascensão da sigla. O partido promete fazer a economia da Alemanha voltar a crescer com medidas como o fim da transição para energias renováveis, redução de impostos, renegociação dos tratados da União Europeia, reforma do sistema de bem-estar social e forte restrição da imigração.

Merz faz apostas high tech na economia

Publicidade

Enquanto a coalizão do chanceler federal Friedrich Merz procura uma nova estratégia de crescimento para conter o avanço de populistas, o governo definiu uma agenda de alta tecnologia focada em seis setores prioritários.

São eles: inteligência artificial (IA), computação quântica, microeletrônica, biotecnologia, energia limpa (incluindo fusão nuclear) e mobilidade com emissões neutras em carbono.

Irene Bertschek, chefe da unidade de pesquisa em Economia Digital do Centro Leibniz para Pesquisa Econômica Europeia (ZEW), afirma que a pesquisa alemã nessas "tecnologias essenciais" é muito forte, especialmente na área de tecnologias climaticamente neutras.

No entanto, Bertschek aponta que os resultados frequentemente são comercializados no exterior, com os Estados Unidos liderando em IA e a China reduzindo rapidamente essa diferença.

Publicidade

"Impulso econômico virá das startups"

Um relatório recente da iniciativa Made for Germany, que reúne 147 empresas e investidores, reforça o plano do governo ao estimar que essas e outras novas tecnologias poderiam atrair até 4,1 trilhões de euros (R$ 24,3 trilhões) em investimentos até 2035.

Concretizar esse potencial, porém, dependerá menos dos gigantes industriais atuais, como Volkswagen, Siemens e BASF. É o que argumenta Oliver Falck, diretor do Centro para Economia da Inovação e Transformação Digital do instituto ifo. "Não serão principalmente as empresas estabelecidas que conquistarão esses novos campos, e sim os recém-chegados inovadores, as startups", diz.

Segundo Falck, a tarefa é criar as condições adequadas para o surgimento de startups, incluindo proximidade com universidades de excelência, acesso a capital privado e liberdade suficiente para experimentar. Ele defende financiamento estatal durante o chamado "vale da morte" das startups — a fase arriscada entre a pesquisa e a viabilidade comercial, quando o financiamento privado costuma ser escasso.

Investidores de olho nos setores de crescimento do futuro

Há sinais claros de que essa mudança já está em curso. Dados do Deutsche Bank e da plataforma Startupdetector mostram que mais de 3 mil startups foram fundadas na Alemanha no primeiro semestre de 2026, um aumento de 88% em relação ao mesmo período do ano passado. Um terço dos novos empreendimentos tem foco em IA.

Publicidade

Os investimentos de capital de risco dispararam 44%, para 5,8 bilhões de euros (R$ 34,4 bilhões), no primeiro semestre de 2026, beneficiando empresas como a Neura Robotics e as fabricantes de drones Stark e Quantum Systems.

Enquanto isso, investidores dos Estados Unidos têm comprado cada vez mais empresas alemãs de médio e pequeno porte (PMEs), atraídos por suas tecnologias especializadas. Segundo Bertschek, esse setor da economia alemã é "altamente inovador".

"Agora é essencial investir em tecnologias-chave, como inteligência artificial, e explorar o potencial que surge na interseção entre essas tecnologias e as tecnologias já estabelecidas", enfatiza.

Bertschek, que também preside a Comissão de Especialistas para Pesquisa e Inovação (EFI) do governo alemão, acredita que as PMEs deveriam aproveitar melhor seus enormes volumes de dados de produção e colaborar com startups de IA para ajudá-las a crescer.

Publicidade

Um argumento a favor das zonas econômicas especiais

Outra proposta para acelerar a transição para novos setores de alta tecnologia vem de Sven Gabor Janszky, presidente do instituto de pesquisas sobre o futuro 2b AHEAD, sediado em Leipzig. Ele defende que a Alemanha precisa de zonas econômicas especiais para aproveitar a próxima onda de crescimento econômico.

Janszky defende que, no caso de algumas tecnologias específicas, é preciso reduzir as regulações, recrutar trabalhadores ambiciosos e "injetar dinheiro nessas zonas" — um esforço, segundo ele, semelhante ao que ajudou a reconstruir a economia alemã após a Segunda Guerra Mundial.

Como exemplos disso ele cita o Vale do Silício, a megacidade chinesa Shenzhen e o distrito de Pudong, em Xangai. Na visão de Janszky, zonas como essa ajudariam a Alemanha a se posicionar como pioneira em áreas emergentes, em vez de permanecer dependente de suas antigas forças industriais.

"As regulamentações da UE podem tentar impedir esse movimento, mas a Alemanha terá de superá-las para que possamos voltar a fazer a economia crescer", afirma.

Publicidade

Gastos com defesa impulsionam o crescimento tecnológico

O forte aumento dos gastos militares da Alemanha também ajudará vários dos setores de alta tecnologia que estão sendo priorizados.

Segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), espera-se que o orçamento de defesa alcance cerca de 120 bilhões de euros (R$ 711,6 bilhões) em 2026, aproximadamente 2,6% do PIB. O governo quer elevar esse percentual para 3,5% até 2029.

As futuras compras militares fornecerão um grande impulso à produção de drones, sensores, sistemas de comunicação e outras tecnologias de uso dual, com aplicações tanto civis quanto militares.

Ainda assim, a Alemanha continuará enfrentando desvantagens de preço semelhantes ao exportar suas novas tecnologias avançadas. Isso porque a China tem custos muito menores de energia e mão de obra, além de enormes subsídios governamentais.

Publicidade

Mas isso não precisa significar fracasso, argumenta Falck. "Tomemos a indústria de semicondutores como exemplo. Provavelmente é irrealista buscar liderança em toda a cadeia de valor. Basta liderar em pontos específicos e estratégicos", afirma.

"E é exatamente aí que a Alemanha é forte: como fornecedora de equipamentos para as mais avançadas fábricas de chips e como fornecedora de semicondutores de potência para as gigafábricas de IA do mundo."

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se