O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse ver como um problema o fato de boa parte da população considerar o rotativo do cartão de crédito como renda disponível. Para ele, o debate sobre o endividamento da população tem sido atravessado por fatores conjunturais e estruturais, com impactos diretos no custo de acesso ao crédito e na percepção que as famílias têm da própria situação financeira. Ele falou sobre o assunto ao participar nesta segunda-feira, 30, do painel "BC: Perspectivas para a Economia Brasileira", no J.Safra Macro Day.
De acordo com o banqueiro central, no contexto de aperto monetário, o encarecimento do crédito é apresentado como parte do mecanismo de transmissão da política monetária, que "gera restrições do ponto de vista do endividamento" e afeta o custo de tomar recursos. Ao mesmo tempo, de acordo com ele, a leitura do endividamento não é homogênea.
"Em pesquisas sobre o tema, aparece uma compreensão bastante heterogênea entre os brasileiros: muitas pessoas não se consideram endividadas se não houver atraso, mesmo quando têm financiamentos e parcelas em dia", disse.
De acordo com o banqueiro central, a pressão sobre o orçamento é relacionada ainda a sucessivos choques de oferta, descritos como degraus no custo de vida. "Ainda que indicadores como desemprego baixo e inflação baixa possam estar presentes, esses choques alimentam a sensação de perda de poder aquisitivo, já que a população percebe o aumento no preço de itens básicos. Nesse cenário, o uso do rotativo do cartão de crédito aparece como um ponto crítico", disse.
De acordo com Galípolo, o debate cita um produto com 60% de inadimplência, entendido como ruim tanto para quem oferece quanto para quem toma. Ele também disse que 40 milhões de pessoas físicas pagam juros de 15% ao mês no rotativo do cartão, além de boa parte da população tratar o rotativo como uma fatia da renda disponível, o que é problemático do ponto de vista estrutural e como algo que exige medidas para ser endereçado.
Política monetária
O presidente do Banco Central disse que está claro que a política monetária tem funcionado no Brasil. "A política monetária vem surtindo seu efeito, vem fazendo a sua transmissão para a economia", disse, citando questões como o nível do crescimento econômico e o ritmo das concessões de crédito.
Galípolo reconheceu que, dado o nível muito alto da Selic, alguns economistas poderiam esperar sinais mais "agudos" desse efeito na economia, mas, segundo ele, isso não invalida a avaliação de que a política monetária funciona. "Se você comparasse com outro país, era esperado que isso devia ter surtido um efeito ainda mais agudo, mas o efeito é de desaceleração, de crescimento menor, em especial nesses componentes mais cíclicos, quando a gente olha para o que o encerramento de 2025", destacou.
Em relação ao ambiente global, Galípolo pontuou que o crescimento da dívida global é uma preocupação crescente desde o período da pandemia. A essa preocupação, somaram-se outras questões de incerteza para a economia global, com destaque para os investimentos em Inteligência Artificial (IA) e a preocupação se os investimentos nesses setores trarão retorno ou não, segundo o banqueiro central.
Para Galípolo, porém, o Brasil segue relativamente bem posicionado na comparação com seus pares globais. "Todo mundo preferiria estar em uma situação sem choques e riscos, mas, comparado relativamente aos pares, o Brasil está em posição mais favorável", pontuou. Neste cenário, o presidente do BC reforçou que a autarquia seguirá reagindo de maneira serena e parcimoniosa.
'Gordura' no juro
O presidente do BC repetiu que a "gordura" gerada pelo nível alto da Selic no passado permitiu à autoridade monetária iniciar o processo de calibragem no nível do juro básico. Segundo Galípolo, a avaliação do BC é a de que, mesmo com novos fatos no cenário global, como a recente guerra no Oriente Médio, esse processo de calibragem tende a seguir.
"O que nós estamos comunicando o tempo todo é o que foi entendido aqui: essa gordura que foi acumulada com uma posição mais conservadora ao longo das últimas reuniões de Copom permitiu, mesmo diante de novos fatos — e esses novos fatos não alteraram a circunstância como um todo, do ponto de vista da transmissão da política monetária e das incertezas que se tem sobre os efeitos de um choque de oferta com petróleo —, para que a gente alterasse a nossa trajetória (de corte na Selic)", disse Galípolo. "Então a gente decidiu seguir com a nossa trajetória e iniciar o ciclo de calibragem da política monetária", reforçou.
Neste cenário, o presidente do BC usou novamente a metáfora de que a autoridade monetária é mais um transatlântico do que um jet-ski e, por isso, não faz movimentos bruscos ou extremados.
Galípolo ainda pontuou que a própria governança do BC ajuda no processo de não se tomar posições extremadas. "É por isso que tem um ciclo tão longo do ponto de exposição das apresentações, é por isso que é um colegiado", disse Galípolo.
Produtividade
Ele disse ainda que a discussão sobre a produtividade do trabalho no Brasil é uma das mais importantes que precisam ser feitas no País hoje.
"O Brasil vem há algum tempo crescendo em um modelo que basicamente tem um estímulo pelo lado da demanda, seja por causa do crédito, seja por causa de ganhos reais da remuneração acima da produtividade, inclusive da população inativa. Com isso, você consegue explicar a maior parte do crescimento, muito mais porque você está utilizando mais força de trabalho, mais mão de obra, do que efetivamente houve qualquer tipo de ganho de produtividade", explicou.
Para Galípolo, é preciso refletir sobre quais políticas podem transformar o País e torná-lo mais atraente para o recebimento de investimentos, o que, ao fim, também irá significar ganho de produtividade. "Esse é o tema talvez mais relevante e que explica boa parte da dificuldade, tanto na política fiscal quanto na política monetária", reforçou o banqueiro central. "Se você ficar produzindo pressões de demanda que decorrem dos dois vetores que eu comentei (estímulo à demanda e ganho de renda acima da produtividade), provavelmente você vai chegar num ponto em que terá que subir juros para tentar conter e devolver a inflação para o lugar dela."
Neste cenário, o presidente do BC lembrou que o Brasil não foi muito exitoso em se integrar às cadeias de valor global nos últimos anos. Essa situação, pontuou Galípolo, fez com que, em momentos recentes, como a adoção de política tarifária agressiva nos Estados Unidos, o Brasil também passasse a ser visto como uma nação que sofreria menos com esses choques.