Confiança do Fed em expectativas de inflação ancoradas pode estar sob pressão

30 mar 2026 - 13h11

Autoridades do Federal Reserve, ansiosas por manter a mentalidade inflacionária sob controle e preservar o domínio sobre os ‌preços, enfrentam um desafio à medida que as expectativas das famílias aumentam, juntamente com o custo da gasolina, e a incerteza se instala nos mercados de títulos, com a alta dos rendimentos dos Treasuries.

Até que a guerra de EUA e Israel contra o Irã elevasse o preço do petróleo em mais de 50% em quatro semanas, os membros do Fed estavam, em grande parte, confiantes de que as expectativas de inflação, particularmente as relativas à perspectiva de longo prazo, estavam "ancoradas" e consistentes com a meta inflacionária de 2%.

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Porém, com a alta dos preços da gasolina afetando os consumidores quase diariamente, os aumentos nas passagens aéreas e em outros setores provavelmente não tardarão a ocorrer. Com os preços globais ⁠do petróleo em torno de US$110 o barril, o Fed está prestando muita atenção a qualquer indício de desvio nas perspectivas sobre a inflação futura.

"As expectativas de inflação a longo ‌prazo são consistentes com 2%, mas também podem ser um pouco mais frágeis", após vários anos de inflação acima da meta e agora com o desenvolvimento de outro potencial choque de preços, disse na sexta-feira a presidente do Fed da Filadélfia, Anna Paulson, em uma conferência.

Os fracos leilões de títulos do Tesouro dos EUA na semana passada, com altos ‌rendimentos atribuídos em parte às preocupações dos investidores com a inflação, foram seguidos na sexta-feira por uma pesquisa ‌da Universidade de Michigan que mostrou um aumento nas expectativas das famílias quanto aos preços em um período de um ano.

"Isso está na mente de todos", disse ⁠o chair do Fed, Jerome Powell, durante uma coletiva de imprensa em 18 de março. Na ocasião, a coletiva foi dominada por perguntas sobre como o Fed avaliava os riscos econômicos da guerra no Irã e, em particular, sobre a possibilidade de outro choque de preços levar o público a perder a confiança, após cinco anos consecutivos sem que a instituição atingisse a meta.

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Com a alta dos preços do petróleo, os investidores descartaram, por ora, qualquer expectativa de cortes nas taxas de juros pelo Fed. Eles passaram a apostar mais na possibilidade de um aumento das taxas ainda este ano.

Mesmo insinuar essa possibilidade -- como alguns membros do banco central já começaram a fazer -- pode alterar a perspectiva do mercado ‌e reforçar o argumento do Fed de que ele está levando a inflação a sério.

É uma lição duramente aprendida -- e uma que os formuladores de políticas prometeram não esquecer. Acredita-se que ‌a psicologia inflacionária da década de 1970 tenha levado empresas ⁠e famílias a aumentarem agressivamente os salários e ⁠os preços na ausência de um compromisso firme do Fed -- uma dinâmica que só foi alterada por meio de aumentos punitivos das taxas de juros, que causaram uma forte recessão no início ⁠da década de 1980.

"Não creio que deixaremos isso influenciar nossas decisões mais do que o apropriado", disse Powell sobre ‌as lições de cinco décadas atrás. No entanto, lembrou ‌ele, "já se passaram cinco anos".

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"Tivemos o choque das tarifas. Tivemos a pandemia. Agora temos um choque energético de certa magnitude e duração... É uma sequência de eventos, e nos preocupamos que esse tipo de coisa possa causar problemas para as expectativas de inflação. Nos preocupamos muito com isso. Estamos firmemente comprometidos em fazer o que for necessário para manter as expectativas de inflação ancoradas em 2%."

EXPECTATIVAS NO "CENTRO" DO FED

A situação atual é um prato cheio para uma abordagem de política monetária ⁠mais agressiva, embora não haja consenso sobre como mensurar o que Powell afirma que o Fed está tentando alcançar. Em uma instituição que diverge sobre como interpretar até mesmo dados básicos como a taxa de desemprego, conceitos abstratos como "expectativas" se tornam uma espécie de exercício de escolha pessoal.

Diferentes formuladores de políticas atribuem peso a diferentes indicadores de mercado financeiro ou pesquisas sobre como a percepção pública da inflação pode estar mudando.

"As expectativas são o cerne da formulação de políticas dos bancos centrais", e promessas críveis de manter a inflação sob controle são vistas como essenciais para a eficácia de um banco central, afirmou Ed Al-Hussainy, gestor ‌de portfólio de renda fixa e macroeconomia da Columbia Threadneedle.

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No entanto, as expectativas são impossíveis de medir diretamente e estão sujeitas a interpretações.

As autoridades querem "garantir que as pessoas acreditem que elas farão tudo o que for necessário para manter a inflação baixa", disse Al-Hussainy. "Mas se você explicita quais são essas expectativas, acho que se perde um ⁠pouco da ambiguidade estratégica... Perde-se um pouco da flexibilidade para formular políticas de forma discricionária."

O debate sobre quais métricas são importantes pode se intensificar nas próximas semanas.

Algumas das medidas de expectativas mais utilizadas pelo Fed, incluindo uma derivada dos preços dos títulos que reflete qual será a inflação média no período de cinco anos a partir de daqui a cinco anos, permaneceram razoavelmente próximas de 2%, mesmo durante o aumento da inflação na pandemia de Covid-19.

No entanto, existem alguns sinais menos consistentes, e os membros do Fed perceberam isso.

Juntamente com a esperada alta nas expectativas de inflação ao consumidor na semana passada -- algo que as autoridades tendem a minimizar por considerá-lo volátil e excessivamente influenciado pelos preços da gasolina --, os resultados fracos dos leilões do Tesouro dos EUA foram vistos pelos investidores como reflexo da crescente preocupação com a inflação norte-americana.

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Outros levantamentos de longa duração, como a pesquisa mensal do Fed de Nova York com consumidores, também mostrariam expectativas "ancoradas" -- e, de fato, apresentaram uma leve queda no curto prazo no relatório mais recente.

Mas esses dados eram de fevereiro, antes do que agora tem sido um mês de preços do petróleo altos e crescentes, volatilidade nos mercados de ações e títulos, e nenhuma solução clara para um conflito que os consumidores estão sentindo nos postos de gasolina e que sentirão em outras áreas.

"Já faz cinco anos que a inflação está em níveis elevados, e as expectativas de inflação de curto prazo aumentaram novamente, então estou particularmente preocupado com a possibilidade de mais um choque de preços aumentar as expectativas de inflação de longo prazo", disse o membro do Fed Michael Barr na quinta-feira, em um evento da Brookings Institution em Washington. "Precisamos estar especialmente vigilantes."

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