A Audi anunciou um investimento de US$ 4 bilhões para construir uma fábrica na Geórgia (EUA), visando driblar tarifas e ampliar vendas. A revelação, feita pelo CEO Gernot Döllner ao lado de Donald Trump a dias das eleições legislativas americanas, gerou fortes críticas na Alemanha. Políticos e sindicatos alemães acusaram o executivo de palanque eleitoral a Trump em meio a uma grave crise interna na montadora, marcada por forte concorrência chinesa e demissões em massa no país de origem.
Chefe da montadora alemã confirmou abertura de fábrica nos EUA em comício ao lado de Trump a duas semanas de eleição ao Congresso. Ação é criticada na Alemanha, onde setor enfrenta cortes massivos de empregos.O anúncio de um investimento bilionário da montadora alemã Audi nos Estados Unidosàs vésperas das eleições de meio de mandato gerou críticas na Alemanha, em um momento em que o setor automobilístico alemão atravessa uma das maiores crises de sua história recente.
Feito durante um comício eleitoral do presidente americano,Donald Trump, na Geórgia, o anúncio foi celebrado pela campanha republicana como prova da eficácia de sua política tarifária. Ao mesmo tempo, desencadeou críticas na Alemanha, onde o CEO da empresa, Gernot Döllner, foi acusado de dar apoio político a Trump enquanto o setor automobilístico enfrenta pressão sem precedentes da China, aumento de custos, dois conflitos internacionais e com sucessivos anúncios de demissões e corte de gastos.
No sábado (24/10), Trump anunciou que a Audi vai instalar uma fábrica na Geórgia, estado crucial para o sucesso nas urnas de seu Partido Republicano. A informação logo foi confirmada pela Audi, com investimento previsto de 4 bilhões de dólares (R$ 21,7 bilhões) e criação de 4,5 mil postos de trabalho. A construção deve começar em 2027, com planos de produção de até 200 mil veículos por ano a partir do início da década de 2030.
A empresa, que é parte do grupo Volkswagen, pretende fabricar SUVs para o mercado americano na unidade, marcando um "compromisso de longo prazo" com o que descreveu como "um dos mercados premium mais importantes do mundo".
Por que a Audi está investindo nos EUA
Trump atribuiu o investimento da Audi às tarifas de 15% impostas sobre veículos fabricados na Europa, afirmando que a iniciativa "não teria acontecido" sem a taxação.
Embora o compromisso esteja alinhado ao plano de Trump de trazer a manufatura de volta aos Estados Unidos, a Audi afirmou que está fazendo esse grande investimento por razões de crescimento e resiliência.
"Temos ambições muito maiores para a Audi nos Estados Unidos", disse Döllner, que participou do comício republicano ao lado de Trump.
"Os Estados Unidos são um dos mercados premium mais importantes do mundo, e ainda não realizamos todo o nosso potencial. Estamos determinados a mudar isso [...]. Trata-se de construir um negócio mais forte para a Audi nos EUA, não apenas de construir uma fábrica", afirmou.
No entanto, as tarifas de Trump sem dúvida agravaram os problemas da montadora.
A Audi, que atualmente exporta para os Estados Unidos a partir da Europa e do México, informou que os custos adicionais gerados pelas tarifas chegaram a cerca de 1,2 bilhão de euros (R$ 7,2 bilhões) no ano passado.
Com pouco mais de 160 mil veículos vendidos, as vendas da Audi nos EUA caíram 16% no último ano, em meio à intensa concorrência e após Trump eliminar os subsídios para veículos elétricos em seu segundo maior mercado.
Segundo analistas do setor, ao construir uma fábrica nos Estados Unidos, a Audi poderá evitar ou reduzir o impacto das tarifas impostas por Trump.
Críticas severas na Alemanha
O acordo da Audi com Trump gerou fortes críticas devido à severa pressão enfrentada pelas montadoras alemãs e pelo temor de que signifique mais perdas de empregos na Alemanha.
Grande parte das críticas se concentrou na participação de Döllner no comício ao lado de Trump.
A porta-voz de política de transportes do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), Isabel Cademartori, acusou Döllner de fazer campanha para um autocrata que trava uma guerra comercial contra a Alemanha.
"Isso é uma vergonha, especialmente considerando a história do Grupo Volkswagen", declarou, referindo-se aos vínculos da empresa com o partido nazista de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.
Christiane Benner, presidente do poderoso sindicato alemão IG Metall, classificou a participação no comício como "extremamente constrangedora, politicamente inaceitável e indigna da empresa".
A chefe do conselho de trabalhadores da Volkswagen, Daniela Cavallo, foi além, afirmando que Döllner havia se deixado transformar em "um fantoche no espetáculo de propaganda" de Trump.
Cavallo, entretanto, observou que a fábrica nos EUA pode fazer sentido do ponto de vista empresarial, já que a Volkswagen precisa ampliar sua participação naquele mercado.
Um porta-voz da Audi defendeu o investimento, afirmando que ele "não é uma decisão contra a Alemanha, mas sim um passo para fortalecer nossa competitividade global".
Manfred Döss, presidente do conselho de supervisão da Audi, insistiu que o futuro da montadora não pode ser garantido apenas por cortes de custos e ganhos de eficiência.
"Precisamos ter coragem para investir, aproveitar novas oportunidades e tomar decisões que moldarão nossa empresa pelas próximas décadas", argumentou.
A Audi pode ajudar em uma eventual vitória de Trump?
O anúncio de investimento da Audi nos EUA parece claramente ter sido programado para coincidir com as eleições legislativas de 3 de novembro.
O pleito definirá quem terá maioria no Congresso nos últimos dois anos de Trump na Presidência: se os aliados republicanos ou a oposição democrata.
Que o anúncio da Audi tenha sido feito na Geórgia, um estado decisivo nas disputas eleitorais, é visto como uma estratégia para fortalecer os candidatos republicanos locais.
Desde que retornou à Casa Branca no ano passado, Trump tem usado tarifas e pressão política para forçar montadoras globais a transferirem suas fábricas para território americano.
O investimento da Audi segue iniciativas da Stellantis e da japonesa Toyota para expandir sua produção nos Estados Unidos, enquanto a Honda negocia a construção de uma nova fábrica no país.
As gigantes americanas General Motors e Ford também prometeram aumentar sua produção doméstica.
Embora um único anúncio de investimento talvez não seja suficiente para influenciar muitos eleitores, ele reforça uma das principais promessas eleitorais de Trump: revitalizar a produção industrial nos Estados Unidos.
O boom dos carros chineses
Impulsionadas por enormes subsídios governamentais, as concorrentes chinesas saíram na frente na transição para os veículos elétricos, ampliando a produção de novos modelos que estão conquistando rapidamente participação em um mercado automobilístico global cada vez mais competitivo.
BMW, Mercedes-Benz e a Volkswagen, controladora da Audi e segunda maior montadora do mundo, emitiram alertas de queda de lucro nos últimos meses devido à pressão sobre suas margens.
As empresas também anunciaram grandes programas de corte de custos. A Volkswagen está se preparando para eliminar até 100 mil empregos até 2030, enquanto a fábrica da Audi em Neckarsulm, que emprega cerca de 15 mil pessoas, é uma das quatro unidades sob risco de fechamento.
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