Efeito da guerra no Oriente Médio: Choques de energia e suprimentos desaceleram economia global

2 abr 2026 - 12h31

Impacto da guerra no Irã tende a ser maior entre países pobres e importadores de energia. OCDE prevê inflação mais alta em 2026, em meio a insegurança para setores-chave, como semicondutores e alimentos.A guerra no Irã conseguiu, em apenas algumas semanas, desestabilizar a economia mundial, com preços mais altos e menor crescimento. Mas nem todos os países serão afetados da mesma maneira. O impacto tende a ser maior entre os mais pobres, importadores de energia ou aqueles que têm reservas pequenas ou nulas.

Uma causa essencial é a perturbação no abastecimento global de energia. O mundo vive a maior interrupção de fornecimento na história do mercado de petróleo, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). A oferta global de gás natural liquefeito (GNL) também caiu cerca de 20%.

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"As consequências do fechamento do Estreito de Ormuz atingem particularmente os países da Ásia, porque até 90% das importações de petróleo e gás vêm do Golfo", afirma a agência alemã de comércio exterior Germany Trade & Invest (GTAI, na sigla em inglês).

Especialmente no Sul e Sudeste Asiático, os efeitos já se mostram perceptíveis, segundo a GTAI, por meio do aumento dos preços de energia e de gargalos de abastecimento. Em muitos países, os governos intervêm na economia com a liberação de reservas e subsídios.

O maior importador de matérias-primas, a China, é menos dependente do Oriente Médio. Como o país está conectado à Rússia por meio de oleodutos e possui grandes reservas, precisa menos de entregas por navios-tanque, segundo a GTAI.

Interrupção das cadeias de suprimentos

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Muitas cadeias de suprimentos se veem prejudicadas pela guerra, afirma o Fundo Monetário Internacional (FMI). Navios-tanque e porta-contêineres precisam ser redirecionados, e o tráfego aéreo sobre os importantes hubs do Golfo está comprometido. Os custos de frete e seguro aumentam, e os tempos de entrega se prolongam.

A região Ásia-Pacífico, com estreitas ligações com o Oriente Médio, tem algumas cadeias de suprimento particularmente afetadas. É caso das matérias-primas para fertilizantes, da produção de plásticos ou dos gases para a estratégica indústria de semicondutores.

Quando a indústria asiática de semicondutores — intensiva em energia — é afetada, ospaíses industrializados também sentem o impacto. Para dispositivos eletrônicos, automóveis, aviões e até inteligência artificial (IA), são necessários chips e semicondutores de Taiwan, China e Coreia do Sul.

"Cerca de 90 por cento dos chips modernos são produzidos em Taiwan", disse Tanjeff Schadt, da consultoria PwC, ao portal alemão Tagesschau. Sem entregas de gás do Catar, Taiwan poderá em breve ter de racionar energia.

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Além disso, a produção de chips requer hélio. Grandes partes da oferta mundial eram, até agora, produzidas no Catar. Para a produção de smartphones, são necessárias as linhas de montagem na Índia, China ou Vietnã.

Produção de alimentos prejudicada

As cadeias de suprimentos prejudicadas também afetam bens de consumo diário e insumos produtivos críticos. Fertilizantes não chegam mais em quantidade suficiente ao mercado mundial, porque o comércio de ureia, amônia e fosfato passa pelo Estreito de Ormuz, agora bloqueado.

Além disso, metade do enxofre mundial é transportada pela mesma rota marítima. O enxofre também é necessário para a produção de fertilizantes, assim como para a produção de produtos químicos ou o refino de minerais críticos.

Os fertilizantes minerais ficaram de 30 a 40% mais caros nos mercados mundiais desde o começo do ano, afirma Philipp Spinne, diretor da Associação Alemã de Cooperativas (DRV, na sigla em alemão).

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Os efeitos diretos sobre a Europa são pequenos. Segundo a Associação da Indústria Agrícola, a Europa quase não importa fertilizantes da região de conflito há anos, produzindo-os internamente. No entanto, como para a produção é necessário gás, os preços também podem subir na Europa se a guerra durar muito. Isso também elevaria os preços dos alimentos.

Em países de baixa renda, alimentos representam em média cerca de 36% do consumo; em mercados emergentes, 20%; e em países industrializados, 9%. Isto é, as pessoas gastam grande parte de sua renda com alimentos em muitos países da África, partes do Oriente Médio e América Central. Elas são proporcionalmente mais afetadas pelos preços mais altos.

Também na Europa, um novo aumento de preços por conta da energia agravaria as já existentes pressões do custo de vida, segundo o FMI.

Recessão nos países do Golfo

Apesar desses efeitos, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) acredita que o crescimento global do Produto Interno Bruto (PIB) ficará amplamente estável em 2,9% em 2026 e aumentará para 3% em 2027. O crescimento será impulsionado por investimentos relacionados à tecnologia e pela redução gradual das tarifas efetivas no comércio internacional.

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No entanto, a guerra no Irã desacelera a economia e gera grande incerteza quanto à demanda global. A previsão supõe que as atuais perturbações no mercado de energia são temporárias e que os preços se normalizarão novamente a partir de meados de 2026.

A inflação do G20 deverá atingir 4% em 2026 e, assim, ficar 1,2 ponto percentual acima das expectativas anteriores, afirma a OCDE. Para 2027, espera-se uma queda para 2,7%, já que a pressão dos preços de energia provavelmente diminuirá.

Para os Estados Unidos, prevê-se crescimento do PIB de 2% neste ano e 1,7% em 2027. Na zona do euro, espera-se um crescimento de 0,8% em 2026 e 1,2% em 2027. O crescimento da China deverá desacelerar para 4,4% em 2026 e 4,3% em 2027.

Os Estados do Golfo entrarão em recessão no primeiro semestre, segundo uma previsão da consultoria britânica Oxford Economics, devido à guerra do Irã. A expectativa é de que o PIB encolha 0,2% nos países do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Omã, Catar, Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes Unidos), uma revisão de 4,6 pontos percentuais em comparação com o período anterior à guerra.

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Economia alemã enfraquece

Na Alemanha, os principais institutos econômicos estão menos otimistas e revisaram significativamente suas previsões. Em seu diagnóstico conjunto para o governo federal, esperam para o ano atual apenas um crescimento do PIB de 0,6%. No segundo semestre do ano passado, a previsão era mais que o dobro disso. Para 2027, os economistas também reduziram significativamente suas previsões, de 1,4 para 0,9%.

Devido aos preços mais altos de energia, acredita-se que a inflação aumentará. Tanto neste como no próximo ano, os preços para o consumidor deverão subir 2,8%. O Banco Central da Alemanha alertou recentemente que a taxa de inflação deverá "subir claramente em direção a 3% em breve".

A evolução também se reflete em uma pesquisa do Instituto Ifo de Munique. "Os resultados deixam claro que os efeitos econômicos da guerra do Irã já se mostram agora e podem se intensificar ainda mais por diversos canais", disse Klaus Wohlrabe, chefe das pesquisas do Ifo. "Quanto mais a incerteza persistir, maiores serão os problemas econômicos para as empresas."

Nove em cada dez empresas industriais na Alemanha esperam que seus negócios sejam prejudicados pela guerra do Irã, sobretudo devido aos preços mais altos de energia, segundo o instituto.

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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