O mercado financeiro está dividido sobre a decisão do Copom, com projeções empatadas entre a manutenção da taxa Selic em 13,75% e um corte de 0,25 ponto percentual. As incertezas fiscais após as eleições, a desvalorização cambial e a alta do petróleo pressionam a inflação e recomendam cautela. Por outro lado, a atividade econômica enfraquecida ainda abre espaço para uma redução final. De todo modo, os analistas preveem o encerramento iminente do ciclo de cortes neste ano.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central começa nesta terça-feira, 3, sua reunião que vai definir o rumo da taxa de juros do País. E pela primeira vez em muito tempo o mercado chega com um cenário de previsões completamente indefinido. Pesquisa feita pelo Projeções Broadcast com 75 instituições financeiras aponta quase um "empate técnico": 39 acreditam que o juro terá uma redução de 0,25 ponto porcentual, enquanto 36 apostam na manutenção do patamar atual da Selic, de 13,75% ao ano.
Seja qual for o resultado, há uma certeza no mercado de que esse será o juro até o final do ano - não deve haver mexida na última reunião do ano, nos dias 8 e 9 de dezembro.
Após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o câmbio disparou e os juros sentiram a pressão, refletindo a desconfiança dos agentes quanto aos planos fiscais do novo mandato. A cotação do petróleo acima de US$ 110, alavancada pelas tensões no Oriente Médio, também seria mais um vetor de alerta que atuaria contra o afrouxamento monetário, segundo analistas.
"É um cenário bem dividido", resume o economista-chefe da EQI Investimentos, Stephan Kautz. Para ele, o Banco Central deve promover mais um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic em novembro, decisão que ainda se apoia na leitura do banco de uma atividade mais fraca. O economista pondera que a forte volatilidade nos mercados após as eleições, como o câmbio mais depreciado, ainda é muito recente para cravar tendência.
"Com essa piora no câmbio, o BC ainda não tem como saber se é um movimento que vai se manter à frente, porque é algo muito recente. Com a incerteza do que tem por vir, não deveríamos fazer muitas apostas", observa Kautz.
A economista-chefe do Inter, Rafaela Vitoria, também prevê mais um corte de 0,25 ponto nesta reunião de novembro, mas espera que o Copom comunique uma pausa no ciclo de calibragem na próxima reunião. "Apesar da maior incerteza e do aumento do prêmio de risco na curva de juros futuros, a taxa Selic em 13,50% permanece restritiva o suficiente para amortecer os choques inflacionários esperados para o começo de 2027, mas não vemos espaço para a continuidade dos cortes nesse momento", afirma, em relatório.
Vitoria reitera, porém, as incertezas do cenário e diz que uma manutenção da taxa também está dentro das opções. Ela lembra que, recentemente, o mercado promoveu uma rodada de reajustes para cima nas estimativas para o IPCA de 2027, incluindo o Inter, de 3,9% para 5%. "As revisões devem dar um tom de cautela para o BC, o que pode ser um fator para o Copom antecipar a pausa já para novembro, mantendo a Selic em 13,75%."
Para o estrategista-sênior da Tullett Prebon, Nicolas Borsoi, o cenário sugere uma manutenção da Selic em 13,75%. Mas ele considera que a decisão dependerá de qual visão o Copom vai aderir. "Tem duas visões possíveis: olhar para a foto ou para o filme. Se olhar para a foto, é sinal claro de manutenção", afirma ele, que destaca o salto na taxa de câmbio para R$ 5,40 e o petróleo cotado a US$ 110 o barril.
"Esse conjunto de câmbio e petróleo dão argumentos para o BC não cortar mais. A piora nessas variáveis faria o IPCA sair de 3,2% para 3,5% no fim do horizonte relevante. Assim, fica difícil manter a escrita de 'ao redor da meta'", diz Borsoi.
Na MAG Investimentos, a projeção para a trajetória da taxa Selic chegou a ser de dois cortes de 0,25 ponto porcentual após o primeiro turno das eleições, mas voltou ao cenário de juros estáveis depois do resultado do segundo turno, segundo o economista-chefe Felipe de Oliveira.
Simulações da MAG apontam que a projeção de inflação do BC no horizonte relevante subiria de 3,2% para acima de 3,5%, nível semelhante ao alertado por Borsoi, da Tullett Prebon. "O BC tem uma possibilidade não desprezível de sinalizar uma interrupção do ciclo, de mostrar que o processo de calibração parou", diz.
Sinal de fim de ciclo?
Kautz, da EQI, considera que este deve ser o último corte do ano, mas espera um sinal de fim do ciclo, com eventual retirada da menção à calibração na comunicação da autarquia e uma indicação de pausa.
Segundo o economista, a inflação tende a subir nos próximos meses, sobretudo no primeiro trimestre, com o impacto do El Niño, além de efeitos associados à reforma tributária. "Isso deve parar os cortes da Selic, por ora", diz ele, que prevê retomada nos cortes entre o segundo e terceiro trimestre de 2027.
Embora boa parte dos argumentos esteja pendendo para o lado da manutenção na Selic, Borsoi reconhece que o BC pode focar na expectativa de atividade mais fraca e cortar o juro em 0,25 ponto neste encontro.
O economista da Tullett Prebon avalia que uma série de fatores sugere um reforço na cautela da comunicação. Para além da piora no câmbio e no petróleo, ele concorda que o qualitativo da inflação ainda indica atenção, com El Niño no radar, mercado de trabalho que se mantém aquecido, e eventuais pressões com o fim da escala 6x1 e a reforma tributária. "Se o corte vier, será um 'hawkish cut', com sinalização conservadora. A mensagem do BC está bem ajustada, mas precisa ser mais explícita do porquê é preciso ser cauteloso neste momento", diz.