Bloqueio do Estreito de Ormuz impede Bagdá de exportar petróleo suficiente para financiar seu enorme setor público, gerando atrasos nos saláriosnto e preocupação dos iraquianos. Seria o estopim para uma nova crise?Mesmo a milhares de quilômetros de distância, o Estreito de Ormuz - mais especificamente, o bloqueio a essa via marítima vital para o comércio global - vem tornando a vida cada vez mais difícil para muitos iraquianos.
Nos últimos três meses, o salário de Mahmoud Waleed tem chegado com cada vez mais atraso. O professor de 38 anos é pago pelo Ministério da Educação iraquiano, mas como o Iraque não consegue exportar petróleo suficiente pelo Estreito de Ormuz, o governo está ficando sem dinheiro.
Como resultado, milhares de iraquianos como Waleed não conseguem receber seus salários em dia. "O atraso nos afeta muito", disse o morador de Mossul à DW. "Como a maioria das pessoas, temos obrigações financeiras, além das despesas básicas de subsistência. Estamos cada vez mais convencidos de que precisamos reduzir as despesas e guardar algum dinheiro para emergências até que as coisas voltem ao normal. Isso nos deixa realmente ansiosos e com medo".
"O futuro parece mais incerto", acrescenta Ahmed, um médico da mesma cidade que não quis revelar seu nome completo à DW por motivos pessoais. "Este mês, nossos salários atrasaram mais de dez dias. O ministro da Saúde explicou que o Estado não tem fluxo de caixa suficiente e que esse é o motivo do atraso. Mas simplesmente não sabemos de quanto tempo será o próximo atraso".
No início de agosto, houve uma série de pequenos protestos contra os salários atrasados, dos quais participaram funcionários de universidades de todo o país, assim como do Ministério da Eletricidade.
Por que o Iraque não consegue pagar salários?
Quase todo o orçamento nacional do Iraque, entre 85% e 90%, vem da exportação de petróleo.
Ao mesmo tempo, o Iraque possui um setor público enorme e crescente, com cerca de dois terços dos aproximadamente 30 milhões de iraquianos em idade ativa dependendo do Estado para seu sustento. É por isso que a maior parte do orçamento estatal agora se destina a salários, pensões e assistência social. Todos os meses, o governo iraquiano precisa de algo entre 6,5 bilhões e 8,2 bilhões de dólares (R$ 33,7 e R$ 42,5 bilhões) para esses pagamentos.
Mas, recentemente, esse dinheiro se tornou muito mais difícil de se obter. Desde que o início dos bombardeios de Israel e dos Estados Unidos ao Irã, no final de fevereiro, Teerã bloqueou o Estreito de Ormuz. Quase todo o petróleo do Iraque - entre 80% e 90% - era exportado por ali, porque, ao contrário de outros países da região, o Iraque não possui rotas alternativas relevantes.
Como resultado do bloqueio, as exportações de petróleo iraquianas diminuíram cerca de 83% em março, em comparação com o mesmo período do ano passado. Em maio, suas exportações marítimas de petróleo bruto caíram 97%.
Isso significa que a renda nacional do Iraque também foi gravemente reduzida. Fontes governamentais disseram a vários meios de comunicação locais que a receita mensal do Iraque em maio e junho ficou entre 2 e 2,3 bilhões de dólares, muito menos do que o necessário.
É esse tipo de notícia que recentemente gerou rumores alarmistas de que os salários do funcionalismo público seriam pagos apenas a cada 45 dias, em vez de mensalmente.
Nos últimos dias, o governo iraquiano divulgou diversos comunicados, primeiro negando o rumor e depois afirmando que ainda possuía 83 bilhões de dólares em reservas, além de ouro e receitas não petrolíferas. Isso significa que os salários podem ser pagos pelos próximos 10 a 11 meses, segundo informações divulgadas pelo governo nesta terça-feira (11/07).
O montante, no entanto, pode não ser suficiente. Um relatório da consultoria britânica Oxford Economics divulgado esta semana afirma que o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz provavelmente não retornará à normalidade tão cedo.
"Até pelo menos 2028, espera-se que os níveis de tráfego flutuem conforme as tensões diminuam e aumentem, permanecendo, em média, bem abaixo dos níveis pré-conflito", disse Ben May, diretor de pesquisa macro global, em um comunicado.
Esta é uma crise grave, que "transcende o setor petrolífero", argumentou o economista iraquiano Ali Al-Rawi em um relatório de agosto para o think tank Al Bayan Center, com sede em Bagdá. "Toda a economia iraquiana está agora refém das receitas do petróleo."
O Iraque está desestabilizado?
Nenhum dos funcionários públicos com quem a DW conversou planejava participar de protestos caso seus salários fossem atrasados novamente.
Segundo Hayder al-Shakeri, pesquisador do think tank britânico Chatham House, no momento atual é improvável que essa situação desestabilize o Iraque.
"Se os atrasos salariais continuarem, eu esperaria mais protestos, mas inicialmente eles provavelmente permanecerão setoriais, em vez de se transformarem em outro movimento nacional como o Tishreen", disse al-Shakeri à DW, se referindo aos enormes protestos antigoverno liderados por jovens entre 2019 e 2021. "O governo aprendeu com 2019 e agora possui uma série de mecanismos políticos, administrativos e de segurança para conter os protestos antes que eles se espalhem".
No entanto, as coisas podem ficar mais perigosas se surgir uma combinação de problemas, alguns dos quais já desencadearam protestos maiores no passado.
Se os atrasos salariais forem combinados com a escassez de eletricidade, inflação e deterioração dos serviços por um período prolongado, esses protestos isolados podem começar a se conectar", previu al-Shakeri. "Nesse ponto, a recente estabilidade do Iraque enfrentaria um teste muito mais sério".
O que o Iraque pode fazer?
O Iraque tem tentado contornar o problema do Estreito de Ormuz. Uma pequena parcela do petróleo iraquiano é exportada através de um oleoduto turco. O petróleo também tem sido transportado por caminhão para fora do país e, em seguida, carregado em navios em portos sírios. Na semana passada, o governo iraquiano anunciou a reativação de um oleoduto Iraque-Líbano, há muito fora de operação.
O primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, também afirmou que solicitou às autoridades iranianas, durante sua visita ao país no final de julho, uma autorização especial para que o petróleo iraquiano pudesse passar pelo Estreito de Ormuz. Os dois países mantêm boas relações.
Muito mais importante, segundo especialistas, é que o novo governo iraquiano finalmente coloque em prática reformas realistas, medidas que reduzam a corrupção e incentivem o setor privado, afastando o país da dependência do petróleo e oferecendo empregos para os iraquianos fora do serviço público.
Mas as reformas também exigem financiamento, o que, segundo as estatísticas mais recentes, não está acontecendo, escreveram neste mês pesquisadores da consultoria econômica Iraqi Horizons. Em maio, o gasto total do governo caiu cerca de um quarto em comparação com o mesmo mês do ano passado. Desse total, o dinheiro destinado a salários, pensões e previdência social representou 99% de todas as despesas operacionais. Isso significa que sobrou muito pouco dinheiro para qualquer outra coisa, apontaram os consultores.
"Crises fiscais já impulsionaram governos iraquianos rumo a reformas antes", sugeriu al-Shakeri, da Chatham House. "Quando as receitas do petróleo caem, os governos se tornam mais dispostos a discutir o combate à corrupção, o aumento das receitas não petrolíferas e o apoio ao setor privado. Mas, assim que o dinheiro do petróleo volta a fluir, os incentivos políticos para a reforma enfraquecem".
A crise atual pode criar uma oportunidade para reformas no Iraque, concluiu al-Shakeri. "Mas a verdadeira questão é se essas oportunidades sobreviverão quando a pressão imediata diminuir."
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