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Como as criptomoedas estão se entrelaçando com o mundo político

2 jul 2026 - 17h26

Trump lucrou US$ 1,4 bilhão com a venda de criptomoedas em 2025, o que lhe rendeu acusações de que estaria usando o cargo para enriquecer. E ele não é o único político que tem lucrado com o mercado mundo afora.Em 2021, o presidente dos EUA, Donald Trump, descrevia as criptomoedas como "um desastre esperando para acontecer" e uma "fraude".

Venda de memecoins rendeu 635 milhões de dólares ao presidente dos EUA no ano passado
Venda de memecoins rendeu 635 milhões de dólares ao presidente dos EUA no ano passado
Foto: DW / Deutsche Welle

No entanto, em 2025, Trump já tinha abraçado essas moedas digitais. No ano passado, elas lhe renderam mais de 1,4 bilhão de dólares em lucros, segundo documentos divulgados nesta terça-feira (30/06) pelo Gabinete de Ética Governamental (OGE).

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A maior parte dos lucros veio da empresa World Liberty Financial (WLF), que vende novos produtos de criptomoedas (quase 800 milhões de dólares), e das vendas das chamadas memecoins (635 milhões).

Isso ocorre num momento em que as políticas do presidente dos Estados Unidos em relação às criptomoedas se tornaram cada vez mais favoráveis, com a redução da regulamentação e a introdução de regras federais para as chamadas stablecoins.

Políticos e criptomoedas

Trump não está sozinho ao defender as criptomoedas como o futuro das finanças. No Reino Unido, o líder populista Nigel Farage enfrenta uma reação pública que ameaça a ascensão aparentemente imparável de seu partido, o Reform UK, devido a um "presente" de 5 milhões de libras que recebeu do bilionário britânico das criptomoedas Christopher Harborne, residente na Tailândia.

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O Reform UK também adota uma postura favorável às criptomoedas, e Farage prometeu "tirá-las do isolamento" caso chegue ao poder.

Ainda na Europa, Pavel Blažek renunciou ao cargo de ministro da Justiça da República Tcheca em 2025 após aceitar 468 bitcoins, avaliados em 45 milhões de dólares, do criminoso condenado Tomáš Jiřikovský.

Já o eurodeputado espanhol de direita Luis "Alvise" Pérez Fernández também foi acusado de receber financiamento em criptomoedas de um fraudador condenado.

Na Argentina, o presidente Javier Milei, aliado de Trump, vem sendo criticado por autoridades financeiras e pelo público devido à sua promoção do esquema de criptomoeda $LIBRA, marcado por forte valorização seguida de queda abrupta. O ativo disparou após uma publicação de Milei nas redes sociais, mas entrou em colapso pouco depois. Ele negou qualquer irregularidade, afirmando que fez a publicação de boa-fé.

Influência na política

As criptomoedas estão se tornando uma parte cada vez mais importante da economia mundial, e emconsequência, os governos estão enfrentando o desafio de regulamentá-las.

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"Os criptoativos estão se tornando cada vez mais relevantes na política, e não apenas como forma de doação político-partidária, mas também como uma indústria bem financiada que busca influenciar regulamentações, como fonte de riqueza pessoal e de campanhas, e como uma tecnologia financeira capaz de transferir valores rapidamente através das fronteiras", afirma a analista Eliza Lockhart, do Royal United Services Institution (Rusi), um centro de estudos britânico especializado em defesa e segurança.

"A influência política das criptomoedas está crescendo à medida que as empresas do setor se integram mais ao sistema financeiro tradicional e que os governos tomam decisões cada vez mais importantes sobre como regular esse mercado."

O professor de macroeconomia Edoardo Beretta, da Universidade da Suíça Italiana (USI), concorda, mas observa que uma queda recente nas cotações, ocorrida após o período abrangido pelas declarações financeiras de Trump, ajudou a reduzir o entusiasmo em torno das criptomoedas.

O valor do bitcoin caiu pela metade desde seu pico, de mais de 126 mil dólares, em 6 de outubro de 2026, e com a capitalização total do mercado de criptomoedas apresentando comportamento semelhante, o entusiasmo político e econômico em torno das criptomoedas arrefeceu.

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"No entanto, isso não significa que os agentes econômicos tenham perdido o interesse nesse mercado; o ambiente ao seu redor apenas se tornou um pouco mais silencioso", comenta Beretta.

Risco da interferência política

O anonimato e a velocidade das carteiras digitais que operam de forma transnacional tornam o rastreamento de doações de campanha muito mais difícil do que nas operações financeiras tradicionais. Isso, por sua vez, facilita a influência ilegal sobre processos eleitorais.

"Uma blockchain registra transações, mas não necessariamente revela a identidade da pessoa que controla uma carteira digital nem a fonte original dos recursos", explica Lockhart. "As criptomoedas criam vulnerabilidades que podem ser exploradas por Estados hostis e outros agentes mal-intencionados."

Um relatório de 2025 da empresa Chainalysis, especializada em monitoramento e análise de atividades em blockchain, concluiu que o uso de criptomoedas por grupos extremistas europeus está se aproximando do nível observado nos Estados Unidos.

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"Entre 2022 e 2024, a participação da Europa aumentou de forma drástica, representando quase 50% de todo o volume recebido", afirma o relatório. Isso ocorre, em parte, porque muitas empresas do setor de criptomoedas não estão submetidas a normas que impeçam grupos extremistas de utilizarem seus serviços, ao contrário do que acontece em setores financeiros mais tradicionais.

Essas preocupações levaram o Reino Unido a introduzir, no início deste ano, uma proibição temporária de doações políticas feitas em criptomoedas, alinhando-se a países como Brasil e Irlanda, além de alguns estados dos EUA.

Mais influentes na direita ou na esquerda?

Nos Estados Unidos, o governo Trump foi acompanhado de um aumento do uso de criptomoedas entre os republicanos em comparação com os democratas, segundo uma pesquisa do Pew Research Center.

O levantamento mostrou que 22% dos republicanos haviam investido, negociado ou utilizado criptomoedas, ante 17% dos democratas.

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Lockhart diz que as criptomoedas não devem ser vistas como algo inerentemente ou exclusivamente de direita e que esse alinhamento político varia de país para país, mas reconhece que o setor frequentemente se alia a setores da direita.

"Isso reflete a preferência [do setor de criptomoedas] por desregulamentação financeira e descentralização, o que o levou a apoiar estrategicamente políticos que oferecem um ambiente regulatório mais favorável", diz.

Conflito de interesses

As enormes quantias pagas por empresas de criptomoedas a políticos, seja diretamente, seja por meio do financiamento de campanhas, levantam preocupações sobre conflito de interesses.

Diante das críticas de que estaria usando o cargo para enriquecer, Trump respondeu que os seus rendimentos estão em fundos fiduciários sem direito de supervisão, estruturas usadas por dirigentes que ocupam cargos públicos para que os bens privados sejam geridos de forma independente.

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"Não me ocupo das minhas finanças pessoais, temos fundos que gerem o meu dinheiro. Ganhei muito dinheiro antes de me tornar presidente. Eles investem o meu dinheiro, e eu não falo com eles", afirmou o presidente.

Lockhart defende que as criptomoedas sejam tratadas como qualquer outra situação de conflito de interesse. "A questão central é saber se um ocupante de cargo público deve ter permissão para manter um interesse financeiro ou comercial substancial em uma empresa cuja lucratividade ou valor de mercado pode ser diretamente afetado por decisões governamentais", afirma. "Quando isso ocorre, apenas tornar público esse conflito de interesses, real ou percebido, pode não ser suficiente para lidar com ele."

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