Clubes e federações divulgaram manifesto contra a intenção do governo Lula de restringir bets e proibir cassinos online, classificando a medida como um golpe fatal que levaria times à insolvência e fortaleceria o mercado clandestino. As empresas de apostas, principal fonte de renda atual do futebol, faturam a maior parte com os jogos virtuais e temem perdas drásticas, além do impacto de uma possível proibição de patrocínios nos uniformes. As entidades pedem fiscalização, e não o fim do setor.
BRASÍLIA - Federações de futebol publicaram um manifesto, nesta quinta-feira, 17, por meio do qual classificam como um "golpe fatal no futebol brasileiro" o plano de acabar com as bets no Brasil.
A iniciativa vem na esteira de declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre "medidas drásticas" contra empresas de apostas. Como antecipou o Estadão no último dia 2, o governo prepara uma Medida Provisória (MP) para proibir a oferta de cassinos online - categoria que inclui o "jogo do tigrinho".
A expectativa é de que uma MP seja enviada ao Congresso ainda antes do primeiro turno das eleições. A crítica às bets virou um tema trabalhado pelas campanhas dos principais candidatos.
O que diz o manifesto
No manifesto, os clubes e as federações afirmam que as empresas de apostas se tornaram a principal fonte de renda do esporte nos últimos anos, para equipes grandes e pequenas. E por isso dizem que uma "mudança abrupta" desequilibraria o futebol.
"A consequência não será apenas uma porta escancarada para as apostas clandestinas, mas um golpe fatal para o futebol brasileiro, levando muitos clubes à insolvência. Isso, sem falar na insegurança jurídica e profissional que a medida acarretaria, especialmente para contratos regularmente firmados e planejamentos construídos sob o marco regulatório aprovado pelo Congresso Nacional e estabelecido pelo próprio Estado", diz o texto.
O documento foi divulgado por algumas das principais federações do futebol brasileiro, como as de Rio de Janeiro e São Paulo. Clubes como Flamengo, Santos e Fluminense também deram publicidade ao manifesto nesta quinta.
"O que o futebol entende que deve ser feito, com o máximo rigor, é combater a ilegalidade, fortalecer a fiscalização e aperfeiçoar os mecanismos de proteção, sem colocar em risco um mercado que foi regulamentado pelo próprio Estado", destaca o manifesto.
Receita das bets em xeque
A reação atende a uma pressão direta das empresas de apostas, que estão preocupadas com a queda da receita com uma eventual proibição dos jogos online, que representam a maior parte do faturamento delas.
Isso porque, ainda que a medida não deva proibir apostas esportivas, segundo representantes do mercado, os cassinos online representam de 60% a 90% das receitas das bets. As apostas esportivas, como as feitas em resultados de partidas de futebol, variam de 10% a 40%.
O aquecimento das conversas sobre uma medida mais dura do governo Lula tem mobilizado empresários de bets. Eles tratam a proposta como eleitoreira e avaliam que ela jogará um contingente de cerca de 31 milhões de apostadores para o mercado ilegal, onde jogos como o do tigrinho são populares.
Os clubes, as federações e as bets não foram comunicadas sobre a versão final pretendida pelo governo e se dizem preocupados com "rumores". Entre eles, o de que um dos pontos da MP trataria da vedação de publicidade destacada nos uniformes dos times de futebol, com um prazo para adequação.
As bets também têm cobrado uma posição da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que optou por tratar o tema com cautela.