Rota petroleira conecta também diferentes telecomunicações entre vários países, da Índia à Europa. Operações militares ameaçam estrutura essencial para novos investimentos da região.O Irã alertou na semana passada que a segurança no Estreito de Ormuz é um ponto vulnerável para a economia digital da região. Além de ser um gargalo para o transporte global de petróleo, a via marítima abriga cabos de fibra ótica, que conectam países da Índia e do Sudeste Asiático à Europa por meio dos Estados do Golfo e do Egito.
Até agora, os cabos submarinos foram poupados na guerra no Oriente Médio. Especialistas alertam, entretanto, que embarcações danificadas correm o risco de arrastar âncoras e inadvertidamente atingi-los.
"Em uma situação de operações militares ativas, o risco de danos não intencionais aumenta, e, quanto mais tempo esse conflito durar, maior a probabilidade de ocorrências desse tipo", afirma o analista de geopolítica e energia Masha Kotkin à agência de notícias Reuters.
Um incidente semelhante ocorreu em 2024, quando um navio comercial atacado pelos houthis, alinhados ao Irã, ficou à deriva no Mar Vermelho e rompeu cabos com sua âncora.
O grau em que eventuais danos aos cabos afetariam a conectividade nos países do Golfo depende, em grande parte, de quanto cada operadora de rede depende deles e de quais alternativas elas têm à mão, segundo a TeleGeography, organização especializada em coletar e analisar dados sobre a indústria de telecomunicações.
Por que cabos submarinos são importantes?
Cabos submarinos são cabos de fibra ótica ou elétricos instalados no fundo do mar para transmitir dados e energia. Eles transportam cerca de 99% do tráfego mundial da internet, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência das Nações Unidas.
Também transmitem telecomunicações e eletricidade entre países e são essenciais para serviços de nuvem e comunicações online.
"Cabos danificados significam internet mais lenta ou quedas de serviço, interrupções no comércio eletrônico, atrasos em transações financeiras e impactos econômicos decorrentes de todas essas interrupções", explica Kotkin.
Países do Golfo, especialmente Emirados Árabes Unidos (EAU) e Arábia Saudita, vêm investindo bilhões de dólares em inteligência artificial e infraestrutura digital para diversificar suas economias e reduzir a dependência do petróleo. Ambos criaram empresas nacionais de IA que atendem clientes em toda a região — todas dependentes de cabos submarinos para mover dados em alta velocidade.
Entre os principais cabos que atravessam o Estreito de Ormuz estão o Asia‑Africa‑Europe 1 (AAE‑1), que conecta o Sudeste Asiático à Europa via Egito, com pontos de aterragem nos EAU, Omã, Catar e Arábia Saudita; a rede FALCON, que liga a Índia e o Sri Lanka aos países do Golfo, ao Sudão e ao Egito; e o Gulf Bridge International Cable System, que conecta todos os países do Golfo, incluindo o Irã. Redes adicionais estão em construção, incluindo um sistema liderado pela Ooredoo, do Catar.
Quais são problemas potenciais?
Embora a extensão total dos cabos submarinos tenha crescido consideravelmente entre 2014 e 2025, o número de falhas permaneceu estável, em torno de 150 a 200 incidentes por ano, segundo o Comitê Internacional de Proteção de Cabos (ICPC).
A sabotagem patrocinada por Estados continua sendo um risco, mas 70% a 80% das falhas são causadas por atividades humanas acidentais — principalmente pesca e âncoras de navios —, de acordo com o ICPC e especialistas consultados pela Reuters.
Outros riscos incluem correntes submarinas, terremotos, vulcões submarinos e tufões, explica Alan Mauldin, diretor de pesquisa da TeleGeography. A indústria lida com esses riscos enterrando os cabos, reforçando‑os com blindagem e escolhendo rotas seguras.
Reparar cabos danificados em zonas de conflito representa um desafio adicional à sua proteção. Embora o reparo físico em si não seja excessivamente complexo, decisões de proprietários de navios de reparo e seguradoras podem ser afetadas pelo risco de danos decorrentes dos combates ou da presença de minas, dizem especialistas.
Não há solução fácil
Autorizações para acessar águas territoriais acrescentam outra camada de dificuldade. "Isso pode levar muito tempo e, às vezes, é a maior fonte de problemas", diz Mauldin.
Embora danos potenciais aos cabos submarinos não causem perda total de conectividade — devido a ligações terrestres —, especialistas concordam que sistemas de satélite não são substituto viável, porque não conseguem lidar com o mesmo volume de tráfego e são mais caros.
Os satélites dependem de conexões com redes terrestres e são mais adequados para objetos em movimento, como aviões e navios. Já redes de órbita baixa da Terra, como a Starlink, são "uma solução de nicho, que não é escalável para milhões de usuários, no momento", segundo Kotkin.
Após o fim do conflito, o setor também enfrentará o desafio de reinspecionar o fundo do mar para determinar posições seguras para os cabos e evitar navios ou objetos que possam ter afundado.
ht/ra (Reuters)