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Brasil tem os elementos para ser protagonista na mineração, diz CEO da Aura

Rodrigo Barbosa afirma que o País reúne variáveis necessárias para exercer protagonismo global no setor

14 ago 2026 - 05h42

O Brasil vem ampliando seu peso na estratégia global da Aura Minerals. Desde 2017, a companhia passou de uma única operação no País para quatro minas em atividade e outros projetos em diferentes estágios de desenvolvimento. Hoje, o mercado brasileiro responde por 54% da receita global da empresa. "Com quatro operações ativas, o Brasil é a base sólida da Aura", afirma o CEO da empresa, Rodrigo Barbosa.

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Na avaliação dele, o País reúne condições para assumir um papel de destaque na mineração internacional, especialmente diante da demanda crescente por minerais críticos. "O Brasil reúne quatro variáveis importantes para ser protagonista no desenvolvimento da mineração", diz. Entre elas, cita o potencial geológico ainda pouco explorado, a qualidade da mão de obra, instituições e regras consolidadas e um mercado de capitais desenvolvido. O principal entrave, afirma, são os juros elevados, que "reprimem todo esse potencial", sobretudo para empresas menores.

A mineradora está no País há mais de 15 anos e, desde 2016, contou com a entrada de novos acionistas e passou por mudanças no conselho e na gestão. Essas alterações foram seguidas pela ampliação de investimentos no Brasil. A empresa tem, atualmente, projetos em cinco Estados.

A Aura gera mais de 5,3 mil empregos globalmente, entre integrantes da equipe e parceiros, e o Brasil concentra a maior parte desse total.

O Estadão promove na quinta-feira, 20, o Fórum Minério Verde, em São Paulo. Especialistas e executivos vão discutir a mineração em áreas de biodiversidade sensível, a corrida pelos minerais críticos e a automatização e o uso de inteligência artificial no setor. O evento será transmitido nas redes sociais do Estadão. Mais informações e inscrições: https://forumminerioverde.com.br/.

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Leia abaixo os principais trechos da entrevista de Barbosa ao Estadão.

Como se entrelaçam as mudanças pelas quais a Aura passou e a atuação da empresa no Brasil?

Implementamos, desde 2016, uma série de decisões que provocaram uma transformação profunda na estratégia de crescimento, (com) fortalecimento do balanço patrimonial, novo time e (nova) cultura empresarial. Adotamos um modelo de empoderamento dos líderes locais, com respeito, transparência e compromisso ambiental e social. Em 2017, tínhamos apenas uma operação no Brasil (Apoena, em Mato Grosso). Desde então, adquirimos e desenvolvemos projetos greenfield em Almas (Tocantins), Matupá (Mato Grosso), Borborema (Rio Grande do Norte), Serra Grande (Goiás) e Serra da Estrela (Pará). Já colocamos em operação Almas e Borborema. Serra Grande já era uma mina em operação, Matupá está na fase final de estudos para construção e Serra da Estrela encontra-se em pesquisa geológica. Além do Brasil, a Aura tem projetos no México, Honduras e Guatemala. Com foco em bons ativos, balanço sólido e um time de alta performance, a empresa cresceu, retomou operações e realizou aquisições. Em 2020, listamos na B3. Em 2025, com o crescimento contínuo, listamos também na Nasdaq.

Qual o peso do Brasil nos resultados globais da empresa?

O peso do Brasil nos resultados da Aura tem aumentado de forma contínua. Desde 2017, realizamos cinco aquisições no país. Hoje, o Brasil representa 54% da receita global da companhia. Com quatro operações ativas, o Brasil é a base sólida da Aura. Somado ao desenvolvimento do projeto Era Dorada, na Guatemala, ele nos permitirá atingir a meta de superar 600 mil onças de ouro equivalente por ano nos próximos anos. Esse crescimento só faz sentido com disciplina operacional, segurança, respeito às comunidades e cuidado com o meio ambiente.

'Não há como uma empresa ir bem e ser sustentável no longo prazo se seus colaboradores não estão bem', diz Rodrigo Barbosa, CEO da Aura Minerals
'Não há como uma empresa ir bem e ser sustentável no longo prazo se seus colaboradores não estão bem', diz Rodrigo Barbosa, CEO da Aura Minerals
Foto: Aura/Divulgação / Estadão

Qual é a situação do Brasil no panorama internacional da mineração? O País tem se tornado atrativo para investimentos ou afugenta investidores?

O Brasil reúne quatro variáveis importantes para ser protagonista no desenvolvimento da mineração e atender à forte demanda de minerais críticos, aqueles que contribuem para a humanidade criar, inovar e prosperar. Essas variáveis são potencial geológico - ainda que o Brasil já seja relevante na mineração, o conhecimento que temos da geologia é inferior a 30% em um país de dimensões continentais -; qualidade de mão de obra - um grande legado criado pela Vale, com universidades de excelência em engenharia de minas, metalurgia e geologia, somado a um povo trabalhador, dedicado e de alta capacidade de adaptação -; instituições sólidas e Rule of Law - apesar de ainda termos muito o que evoluir, o Brasil se destaca em relação a muitos outros países pela existência de regras claras, agências reguladoras independentes e uma das legislações ambientais mais rigorosas do mundo; e mercado de capitais desenvolvido - bancos sólidos e investidores com apetite ao risco da mineração. No entanto, não podemos ignorar que os altos juros atuais no Brasil acabam reprimindo todo esse potencial, especialmente para as empresas menores que não têm acesso ao capital internacional.

Como o sr. avalia a legislação para a mineração no Brasil?

A legislação mineral brasileira é clara e madura. A regulação ambiental estabelece as melhores práticas mundiais, o que consideramos saudável. Não vemos a regulação como entrave, mas como piso mínimo para uma operação responsável. Em Borborema (RN), investimos R$ 48 milhões em uma Estação de Tratamento de Esgoto. Com isso, toda a água que entra em nossa operação — seja proveniente do tratamento do esgoto da cidade ou do aproveitamento da água da chuva é recirculada no processo produtivo, e evitamos uma competição por água potável no semiárido nordestino. O principal desafio (no Brasil) é a falta de recursos e investimentos das agências reguladoras e ambientais, o que torna os processos mais lentos, embora previsíveis.

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A Aura costuma adquirir minas que já estão em exploração para executar projetos em vez de começar a exploração do zero. Quais são os motivos dessa escolha?

A mineração tem fases muito distintas: pesquisa geológica, implantação, operação e fechamento. Os riscos e competências de cada fase são diferentes. Nosso time e estrutura foram construídos para excelência na implantação, operação e fechamento de projetos. Não temos expertise para desenvolver greenfields do zero. Por isso, preferimos adquirir ativos com estudo geológico já avançado. Essa estratégia nos permitiu implantar Almas e Borborema em tempos recordes e dentro do orçamento.

Ao adquirir uma mina, é possível dar continuidade à exploração minimizando a degradação no local? De que forma?

Claro, a mineração de escala industrial, onde atuamos, opera dentro das melhores práticas ambientais e sociais. Não utilizamos químicos tóxicos, recirculamos 100% da água usada na operação e sempre incluímos o reflorestamento de 100% da área minerada no passado. Em áreas que foram mineradas, estamos plantando uvas de qualidade para a posterior produção de vinhos. Essa iniciativa não só recupera o meio ambiente, mas também tem o objetivo de criar novas possibilidades de trabalho e geração de riqueza para a região onde atuamos.

No Brasil, a Aura tem operações em Estados e regiões diferentes e também em biomas diferentes e sensíveis. O que a empresa faz em cada projeto para reduzir o impacto ambiental da mineração?

O nosso modelo descentralizado dá autonomia para a liderança local praticar a escuta ativa, entender a realidade do território e construir um relacionamento duradouro. Cada região tem suas próprias características, por isso adaptamos nosso foco para atender melhor às necessidades locais e criar valor para todos. Por exemplo, no Rio Grande do Norte, operamos em uma região semiárida, com secas severas a cada cinco ou oito anos e baixo investimento em saneamento e tratamento de água. Por isso, adaptamos o projeto e investimos R$ 48 milhões para não disputar água limpa com a população local, ao mesmo tempo em que contribuímos com a universalização do saneamento da cidade. Toda a água que coletamos externamente é água de reuso, tratada nas nossas instalações industriais. Ainda no Rio Grande do Norte, mantemos a Fazenda Jesus Maria dedicada a combater a desertificação da caatinga. Já plantamos mais de 21 mil mudas nativas e, somente em 2026, a meta é plantar outras 96 mil mudas, recuperando 65 hectares. Nossos viveiros florestais são o coração desse replantio: em Apoena (MT), temos capacidade para produzir 33 mil mudas nativas por ano. No caso de Almas (TO), estamos em uma região com escassez de empregos e poucas alternativas de geração de renda. Antes de iniciar a construção do projeto, selecionamos mão de obra local, oferecemos treinamento e levamos as pessoas para trabalhar em outras operações da empresa. Após a implantação, elas retornaram e hoje ocupam cargos de liderança. Além disso, para contribuir com a agricultura local, estamos estudando formas de aplicar a economia circular, inclusive com testes do uso de material de rejeito como remineralizador de solo.

Como a empresa lida com o esgotamento dos recursos minerais em cada operação?

A mineração tem início, meio e fim. Por termos total consciência desse ciclo, a nossa maior preocupação, desde muito cedo, é agir com forte responsabilidade social para evitar que a cidade crie uma dependência exclusiva da mina. Aqui vale dar um exemplo do projeto Sementes da Esperança, em Honduras. Além de já termos reflorestado mais de 40% do total, estamos levando para a região uma ideia inovadora: aplicar o know-how desenvolvido no Brasil para produção de vinhos de alta qualidade, como foi feito na região de Espírito Santo do Pinhal, em São Paulo. Estamos investindo nessa transferência de tecnologia para a população local, que depende muito da mineração, criando uma nova vocação agrícola na região. Do ponto de vista ambiental, todas as nossas operações incluem plano de fechamento com recuperação de 100% das áreas afetadas, com o objetivo de deixar a região já reflorestada com o seu bioma.

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Como a empresa atua nas minas para reduzir problemas de saúde da equipe decorrentes das características desse tipo de trabalho?

O nosso papel não é apenas mitigar riscos físicos, mas focar de forma integral na prevenção e em programas de qualidade de vida para as nossas pessoas. Quando utilizamos produtos que podem afetar a saúde, seguimos as melhores práticas globais. Esses produtos circulam dentro da planta sem contato com qualquer colaborador e, no fim do processo, investimos em tecnologia e aplicamos o que chamamos de 'detox', com a neutralização desses produtos. Entendemos também que a saúde mental impacta a segurança. Em Almas (TO), temos um programa que integra o acompanhamento físico e mental dos funcionários e de seus familiares. Não há como uma empresa ir bem e ser sustentável no longo prazo se seus colaboradores não estão bem, se as comunidades estão insatisfeitas e o meio ambiente não está sendo cuidado.

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