Hoje, o Brasil é detentor da segunda maior reserva mineral de terras raras, grupo de minerais usados na fabricação de turbinas eólicas, veículos elétricos, smartphones e computadores, por exemplo. No entanto, em 2024, o País produziu menos de 1% da demanda global, que somou cerca de 390 mil toneladas. Apesar da participação modesta, a projeção é de que o País entre no hall dos principais fornecedores mundiais da matéria-prima nos próximos anos.
É a estimativa de Rafaela Guedes, consultora especializada em minerais críticos e transição energética, com mais de 20 anos de experiência no setor de energia, incluindo 17 anos na Petrobras. Na perspectiva dela, caso os projetos em desenvolvimento sejam aprovados, a produção brasileira poderá saltar para quase 10% da oferta global. A aposta é uma alternativa em meio ao monopólio de países que concentram a maior fatia da produção, como a China, responsável por mais de 90% do processamento mundial desses minerais.
Para a especialista, o Brasil reúne vantagens difíceis de encontrar em um único país: abundância de recursos minerais, energia renovável, disponibilidade hídrica e uma posição diplomática que facilita relações comerciais com diversos blocos econômicos. O desafio é criar condições para transformar a riqueza geológica em desenvolvimento econômico.
"O Brasil já produz lítio, tem projetos de terras raras e possui uma base geológica privilegiada. O que falta é acelerar investimentos, inovação e agregação de valor", diz.
O tema integra os debates do Energy Summit, evento que discute os desafios nos setores de energia e sustentabilidade. Com parceria do Estadão, o festival deve reunir mais de 12 mil participantes, 3,3 mil empresas e 300 palestrantes entre os dias 23 e 25 de junho no Rio de Janeiro.
Leia, a seguir, trechos da entrevista:
Estima-se que o País detenha a segunda maior reserva de terras raras do mundo, 23%, mas ainda produz menos de 1% da produção mundial. O que falta para transformar esse potencial geológico em protagonismo global?
Uma coisa é ter o potencial geológico. Se Deus existe, certamente ele é brasileiro em vários sentidos. O Brasil tem uma grande diversidade e disponibilidade de energia. O mesmo vale para os minérios. Grafite, níquel, cobre, terras raras, que estão em evidência agora, lítio e outros minerais existem em abundância no País. Isso ocorre porque a geologia brasileira é favorável. Já houve avanços importantes. Em comparação com o passado, por exemplo, hoje temos a região do Vale do Jequitinhonha produzindo lítio. Em relação às terras raras, estamos começando a ver os primeiros projetos.
Para todos esses minerais, não se trata de um cenário de terra arrasada. Existe um início de produção. O que mais se discute é a falta de agregação de valor. Mas o que significa agregar valor? Em toda a cadeia da mineração, a primeira etapa é contar com a geologia favorável, algo que alguns países têm; e outros, não. O Brasil tem essa vantagem. Depois de mapear e confirmar a existência das reservas, é necessário atrair investimentos para extrair esses minerais.
Primeiro, é preciso criar os incentivos adequados. Não adianta avançar em apenas um aspecto e negligenciar os demais. Isso ajuda, mas não é suficiente. Para que alguém decida investir recursos na exploração mineral, abrir minas, produzir e comercializar minério, a conta precisa fechar. O investidor vai avaliar, antes de tudo, se existe segurança jurídica. Ele precisa saber se as regras permanecerão estáveis ou se podem mudar no meio do caminho.
Por isso, é necessário um arcabouço jurídico sólido. É isso que está sendo discutido no Congresso. Há projetos em tramitação que buscam criar um ambiente regulatório mais previsível. O objetivo é oferecer as mínimas condições para que os investimentos aconteçam.
Esse ambiente regulatório é importante porque muitos desses minerais dependem da atuação das chamadas junior mining companies (empresas de capital aberto de pequeno e médio portes focadas na fase inicial de exploração mineral). Imagine um grupo formado por investidores, geólogos e empreendedores que decide apostar no desenvolvimento de um projeto mineral. O risco é enorme, principalmente no começo, mas se o projeto der certo, o retorno futuro compensa esse risco.
A sra. poderia dar um exemplo?
O investimento necessário para garantir que tenha uma boa licença social para operar e que esteja atendendo aos condicionantes do licenciamento ambiental pode variar. Vamos supor que precisa de R$ 10 milhões, mas não tenho tudo isso, então preciso captar. Aí eles falam: 'Para pegar dinheiro no Brasil ou captar com o BNDES, você precisa ter uma garantia'. É igual ao fiador. Quando você vai comprar um apartamento ou alugar um imóvel, precisa ter uma garantia. Só que ele não tem nada para dar como garantia, porque está fazendo o primeiro empreendimento. Não tem uma casa própria anterior.
Então, sem essa regulação e esse arcabouço que permita fazer a previsão dos incentivos que serão dados para produzir aquilo que é chamado de mineral estratégico, o que o governo vai oferecer em troca? Dá para ter uma depreciação acelerada para pagar menos imposto no início? Dá para ter alguma coisa relativa a uma zona específica, como aconteceu com a Zona Franca de Manaus?
Então, são coisas que precisam estar previstas na regulação. Claro, não é só o Brasil que tem minério. A África, o Chile e a Argentina também têm. Se não facilitar, em vez de acontecer aqui, vai acontecer em outros lugares. Então, tem de haver essa dimensão. Também temos de falar de um bom licenciamento, tem de ter agilidade, porque ficar esperando o que acontece? Se não estiver minimamente aparelhado, não terá infraestrutura suficiente para destravar os processos de forma mais rápida.
Quando o investidor for fazer a conta para saber se vale a pena investir ou não, se ele vai conseguir vender aquilo e ter retorno sobre o que investiu, necessariamente vou precisar ter estímulos para esses minérios e mão de obra qualificada também. Muitos ainda relatam que não há capacitação suficiente. Diferentemente da China, onde milhões de pessoas se formam por ano, aqui não temos esse incentivo. A mineração não é uma área tão atrativa.
Depois, há todas as questões relacionadas a uma boa licença social para operar, ou seja, a relação com a comunidade. Tudo isso precisa acontecer, além da inovação. Tenho de ter o ecossistema de inovação trabalhando próximo das empresas. O setor, as universidades, o Sistema S, todos próximos para atender às necessidades dos novos desafios tecnológicos, que viabilize uma produção sustentável e acelere essa produção.
Para ter uma noção, hoje, em média, entre a descoberta de uma reserva e a entrada em produção, são 17 anos. Nada disso é simples. Não é uma canetada que resolve. Existe ainda um outro mito que ficamos repetindo: 'Ah, quero agregar valor, não quero apenas exportar o minério'.
Não é só isso. Até para fazer o desenvolvimento, com todos os requerimentos, na velocidade necessária, com tecnologia, tudo isso gera empregos e pode trazer benefícios para o território. Digo 'pode' porque, obviamente, a regulação precisa prever isso, que determinado percentual seja destinado a isso, que exista conteúdo local ou alguma exigência que faça sentido. Essas previsões que garantem a fixação de valor no Brasil fazem parte de um bom arcabouço. Mas esse arcabouço também não pode asfixiar quem está fazendo o investimento.
A sra. mencionou os principais gargalos para destravar o avanço de terras raras no País. Sobre as oportunidades, o que torna o Brasil um país competitivo, até mesmo em comparação com outros que mantêm produções consideravelmente mais robustas?
Na história do Brasil, nunca rasgamos uma regulação. Então, a percepção de risco em relação a fazer negócios no Brasil é relativamente bem aceita. Trata-se de um país diplomaticamente neutro. Faz negócios com a França, com a Europa de forma geral, faz negócios com a China, com os Estados Unidos, com o Japão, com o Oriente Médio. Quem quiser vir é bem-vindo. Não tomamos lado. Isso é um diferencial.
É um ambiente que está aberto a recepcionar e desenvolver a produção. Então, estamos vendo isso com o conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel, é o gargalo que existe. O quanto eu posso ser impactado se eu fecho o Estreito de Ormuz: 20% da produção de óleo desaparece. Foi o que aconteceu, o preço do petróleo subiu.
Vou dar o exemplo das terras raras. Mais de 70% da produção e mais de 90% do processamento são feitos na China. Então, quando a China resolve dizer que vai exportar o óxido de neodímio, de praseodímio, de térbio, ou qualquer outro desses elementos separados, acabou. Não há quem entregue na escala que o mundo precisa.
Nenhum monopólio é bom, em lugar nenhum. Não estou tomando partido. Acho que precisamos agregar e entender que nenhuma situação monopolista é positiva e que nenhuma concentração de poder em um único ente é boa. Nesse sentido, estamos entrando em uma fase muito próspera, em que os países começam a pensar que o Brasil pode ser um parceiro.
Também temos abundância de água, os minérios estão aqui, energia com preços competitivos. Com isso, o escopo de emissões e todo o ciclo produtivo podem ser realizados com uma pegada de carbono menor. Já estamos vendo um crescimento do interesse em relação a isso.
Por exemplo, hoje produzimos, em terras raras, menos de 1% do que o mundo precisa. Em 2025, o mundo inteiro consumiu 390 mil toneladas. O Brasil produziu menos de mil toneladas. Mas, se todos os projetos entrarem em operação nos próximos anos, em pouco tempo poderemos entregar ao mundo cerca de 38 mil toneladas. Ou seja, sairíamos de menos de 1 mil toneladas para 38 mil toneladas, alcançando quase 10% da produção mundial.
Nas discussões sobre a exploração de terras raras, o desenvolvimento do entorno e os possíveis impactos para as comunidades entram no circuito. Como a exploração pode beneficiar a população local?
Vou fazer um paralelo. Quando produzimos petróleo, existe um percentual que corresponde aos royalties e à participação especial. Os Estados produtores de petróleo, ou por onde o petróleo passa, ou que fazem parte da rota de escoamento, recebem essa participação especial e esses royalties.
Quando existe uma regulação que prevê que determinado percentual desse dinheiro, isso não acontece hoje, mas seria o ideal, o mesmo vale para a mineração, seja necessariamente revertido em gastos com educação, saúde e no fortalecimento do serviço geológico, para ter mais transparência dos dados e mais conhecimento geológico, isso faz diferença.
Isso ajuda a mitigar riscos. Quanto mais você conhece alguma coisa, mais segurança tem de que está colocando seu dinheiro naquele projeto. Em um primeiro momento, cabe ao Estado definir como atuar. Na minha visão, não deve ser um Estado que sai criando estatais. Um bom Estado é aquele que cria boas regulações. Para quê? Para garantir que o dinheiro investido pelo setor privado seja bem investido e revertido para a sociedade, não para inchar o Estado ou criar cabides de emprego. Não é isso que vai tirar um país da pobreza. Nenhum país que fez isso saiu da miséria.
Outro exemplo é a pesquisa e desenvolvimento. Um percentual da receita operacional bruta tem de ser investido em pesquisa e desenvolvimento. Qualquer pesquisa? Não. Quero uma pesquisa direcionada a essas cadeias: do níquel, a cadeia do grafite. Esse planejamento cabe ao Estado, que não deve criar travas, mas gerar os incentivos adequados para que os recursos sejam alocados de forma correta.
Outra vertente está no próprio licenciamento. Quanto mais conseguirmos reaproveitar materiais, utilizá-los uma segunda ou terceira vez, e quanto mais tivermos um arcabouço regulatório para isso, melhor. Isso beneficia desde o catador de recicláveis ou a população local, que consegue ganhar dinheiro separando pilhas ou determinados tipos de metal. Aquilo pode se transformar em um ou dois salários mínimos no final do mês.
Também envolve a empresa que está investindo, que precisa ajudar a fazer o planejamento daquele município. É preciso haver escuta para que a comunidade possa ser ouvida sobre o que está acontecendo ao seu redor. É preciso empregar a população local, utilizar mão de obra local, ajudar na construção da infraestrutura da região e colaborar com o planejamento de longo prazo.
Existe aquilo que chamamos de 'maldição dos recursos naturais': você tem prosperidade enquanto a mineradora está operando, mas aquele minério um dia acaba. Então, quais são as outras fontes de renda que precisam surgir para que aquela cidade, aquele município ou aquele Estado continuem sendo prósperos quando a mineração não estiver mais ali?
Já existe muita coisa em andamento, mas ainda há espaço para melhorias. Todas essas novas mineradoras são operações mais limpas. Esses projetos preveem e utilizam reúso de água, tratamento do solo, monitoramento constante, uso de mão de obra local e apoio às prefeituras para a realização desses planejamentos. Esses pontos vão ajudar a construir uma mineração diferente daquela que lembramos do passado, que gerou tragédias e mortes.
Pensando na mineração sustentável que vem se tornando uma exigência de mercado, como as demandas por rastreabilidade, descarbonização e governança devem transformar o setor nos próximos anos?
Estamos em uma encruzilhada em que ou os países se unem para fazer boas exigências e entendem que isso é necessário, ou vamos continuar repetindo o passado. Porque o fato é que, voluntariamente, nenhuma empresa quer gastar um centavo a mais. Voluntariamente, nenhum de nós, consumidores, quer pagar mais. Ninguém quer pagar R$ 100 a mais na passagem aérea porque para compensar a pegada de carbono. Essa lógica do voluntário não funciona.
Por isso também entra o papel dos governos. São os famosos selos, em que você precisa cumprir requerimentos mínimos, que entram questões como rastreabilidade. Eu tenho mão de obra escrava? Tenho mão de obra análoga à escravidão? Estou fazendo reúso de água em ciclos fechados? Estou descontaminando adequadamente?
Estou replantando depois que produzi nesse local? Quando exauri aquele terreno, estou garantindo que vou replantar e recompor o bioma que existia ali? Não adianta se, por exemplo, era uma área com araucárias, depois planto qualquer coisa, um gramado ou eucalipto, estragou tudo. Não pode ser assim, isso impacta os insetos, impacta as pragas. Precisa pensar o bioma como um todo.
As empresas entendem, ao contrário do que muita gente diz, que, se elas não tiverem uma boa licença social para operar, vai dar problema. Vão enfrentar ações na Justiça, problemas trabalhistas e uma série de outras dificuldades. Isso vai acontecer.
O que vemos, desde o início do planejamento do meu plano de exploração que estou apresentando à Agência Nacional de Mineração, existe uma série de itens para cumprir. Agora, o que não adianta é um estar jogando lixo no mar, contaminando a água, usando mão de obra escrava e, obviamente, ter um custo menor às custas do planeta, que é um só. Estamos em um momento em que essas questões estão batendo à porta. Todo mundo vai pagar essa conta, não temos um segundo planeta. Eu não estou indo morar em Marte. É um duelo entre o curto prazo e o longo prazo.
As novas tecnologias, a exemplo da inteligência artificial, estão redesenhando diversas cadeias produtivas. No caso da mineração, qual é o impacto que essas tendências terão no setor brasileiro?
Vamos ver uma mudança gigantesca, uma coisa leva a outra. Antes, fazia uma sísmica. Agora, vai fazendo camadas e mais camadas de leitura e de interpretações geológicas. Com isso, temos visões por satélite, por drone, modelos preditivos que vão antecipando ou acompanhando situações.
Por exemplo, existe uma determinada rocha aqui, essa mesma rocha existe na Austrália. Na Austrália, se comportou de uma determinada maneira. Como aquilo conversa com a realidade brasileira? Posso fazer uma comparação.
Há tecnologia que vai favorecer diversas etapas no início do processo, mas também existe todo mundo competindo para desenvolver técnicas que permitam processos mais rápidos, limpos e eficientes. É uma infinidade de possibilidades. Precisamos incentivar ecossistemas de inovação. O brasileiro é muito criativo. Você traz um problema, e damos um jeito, criamos uma solução. Então, a questão é como aproveitar essa criatividade e transformá-la em inovação intencional.