O nível elevado de endividamento das famílias brasileiras não está desembocando em avanço da inadimplência do financiamento imobiliário, mas há uma piora na pontualidade dos mutuários. Esse cenário foi exposto por executivos de bancos que participaram de um debate sobre financiamento imobiliário durante a conferência anual do Santander, nesta segunda-feira, 17.
No Santander, o atraso nos pagamentos acima de 90 dias para os empréstimos imobiliários a pessoas físicas gira em torno de 1%, um patamar estável e saudável. "Comparando com outras opções de crédito, é de longe o melhor índice", ressaltou o Diretor de Negócios imobiliários do Santander, Paulo Duailibi.
No entanto, é possível notar que os mutuários estão com mais dificuldade de manter os pagamentos em dia. "Notamos aumento da inadimplência na faixa de 15 a 90 dias", apontou Duailibi. Na sua visão, as famílias estão atrasando a parcela do financiamento da casa própria para socorrer alguma outra dívida mais cara com vencimento no mesmo período. Depois disso, voltam a pagar o crédito imobiliário.
"Os clientes se comportam. Eles estão se auto dando um fôlego, mas não vão acima de 90 dias", afirmou, lembrando que, depois disso, o banco pode iniciar o processo de execução da dívida (tomada do imóvel como forma de pagamento). "Esse processo é eficiente".
O diretor de crédito imobiliário do Bradesco, Romero Albuquerque, disse que também tem visto esse esforço dos mutuários para dar conta de diferentes boletos, eventualmente causando atrasos na parcela da casa própria, mas sem extrapolar. Segundo ele, a prioridade é pagar o crédito imobiliário para não sofrer o risco de execução. "Ele paga o boleto bancário e atrasa um pouco mais outras linhas", comentou.
O diretor do Santander acrescentou que a inadimplência dos incorporadores que tomaram financiamento para a construção também está controlada. Apesar do juro alto e da subida do preço dos imóveis, as empresas têm conseguido repassar os clientes para os bancos.
"Os incorporadores estão preocupados em prover aos clientes alternativas para que se adaptem ao fluxo de pagamento como alternativa ao distrato. Todo mundo se preocupa em não chegar ao distrato", frisou. "Apesar do juro elevado, tanto PF quanto PJ não trazem preocupação. Precisamos tomar cuidado na concessão, mas são carteiras saudáveis", avaliou Duailibi.
Já Albuquerque, do Bradesco, chegou a apontar que os distratos estão um pouco mais altos, dado o volume elevado de entregas de empreendimentos pelos incorporadores neste ano. Isso, porém, não configura uma crise sistêmica.
"O distrato tem aumentado? Tem. Chama atenção? Não", sintetizou, lembrando que a lei dos distratos têm funcionado bem. "Não temos visto inadimplência ou distrato que nos chame atenção. Seguimos monitorando, claro. Tem projetos e projetos. Mas no geral o mercado vai bem", afirmou, lembrando que o banco prioriza financiar o consumidor que comprou imóvel na planta (da mesma construtora financiada pelo banco) em vez do clientes que buscam comprar imóveis usados.