A alta nos preços dos fertilizantes deve atingir de forma severa os países emergentes de baixa renda, especialmente na África e no sul da Ásia, avalia a Capital Economics em relatório enviado a clientes. Em análise divulgada nesta quinta-feira, 23, a consultoria britânica destaca que o efeito principal na economia global ocorrerá por meio da inflação de alimentos, além de riscos ao balanço de pagamentos e pressões fiscais nessas regiões vulneráveis.
A guerra no Irã provocou maior choque em fertilizantes nitrogenados, com o preço da ureia — o tipo mais utilizado no mundo — saltando cerca de 50% desde o início do conflito. Esse cenário reflete a alta necessidade energética da produção, que utiliza o gás natural como insumo, e o fato de cerca de 15% da oferta global de nitrogenados ser originária do Oriente Médio, com a logística prejudicada pelo fechamento do Estreito de Ormuz.
Sobre os canais de pressão econômica, o relatório aponta que a inflação de alimentos deve subir de forma gradual, com estimativas indicando que aproximadamente 45% da alta nos preços dos fertilizantes será repassada ao consumidor.
A consultoria projeta que a inflação de alimentos supere 6% no Reino Unido no próximo ano, enquanto nos EUA e na zona do euro o pico deve atingir cerca de 4%. Em economias de baixa renda, em que a agricultura representa entre um quarto e um terço do PIB, como na Etiópia, qualquer redução na aplicação de nutrientes provoca reflexo direto na atividade econômica. Além disso, países como Quênia enfrentam riscos de deterioração nas contas externas, já que o aumento na conta de importação de fertilizantes se soma aos custos mais elevados com energia.
Contudo, a maior parte dos grandes produtores agrícolas globais está temporariamente isolada desse choque. Produtores do Hemisfério Sul, incluindo Brasil, Argentina e Austrália, não demandarão grandes volumes de fertilizantes até o início da próxima temporada de plantio no segundo semestre. A China e a Rússia permanecem autossuficientes, enquanto a Índia mantém grandes estoques do insumo. Para mitigar a pressão inflacionária, governos de nações como Egito, Indonésia e Bangladesh devem ampliar os subsídios a alimentos básicos, o que resultará em um custo fiscal relevante para esses países.