Eu compreendi você, vou te amar eternamente”, diz a letra de “Meu Poeta”, escrita por Marina Lima. Essa é uma das canções de “Ópera Grunkie”, seu primeiro disco feito após a morte do irmão. Sem ele, seu parceiro da vida toda, as composições ficaram a cargo dela mesma, que olha o luto recente de uma forma serena. “Perdi minha família. Dois irmãos que se foram. Se eu me sinto só? Eu me sinto grata. Todo mundo era tão generoso comigo…”, ela diz. Estamos na minha casa conversando. Ela se senta no sofá, toda vestida de branco, com um boné onde se lê “Yoko Ono”. Disse que veio disfarçada de Yoko para não ser reconhecida. Seu objetivo é se divertir, coisa que fazemos juntas desde que nos tornamos amigas, há 30 anos. Quando começamos a nos falar, tínhamos em comum o mesmo cabeleireiro, Mauro Freire, o respeito por Mãe Cleusa e o interesse pelo estudo da Cabala.
Aos 5 anos de idade, Marina mudou-se para Washington, nos Estados Unidos, com a família. O pai, Ewaldo, nascido no Piauí, foi transferido para lá para ser gerente de operações do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Foram com a mãe, Amélia, e os dois irmãos, Roberto e Cicero. O universo musical a fisgou desde então. Lá, ouvia música americana negra e Beatles, mas também Tom Jobim e a Tropicália. Ela afirma que a pedra fundamental foi Stevie Wonder e outras influências de peso que estão dentro dela. “Quando componho sou eu, mas fui habitada por esses talentos antes”, diz.
Os Lima moraram no hemisfério norte por sete anos. Na volta, Roberto, o irmão do meio, foi fazer Economia, como o pai. Cicero escolheu Filosofia. E Marina continuou cursando o colégio regular, mas já totalmente voltada para o mundo da música. “A nossa sorte é que desde cedo pudemos exercitar nossos talentos”, ela conta. Aos 22 anos, Gal Costa gravou uma composição sua, “Meu Doce Amor”, que já denota uma segurança enorme para a idade: “Eu sempre sei por onde vou e sempre quis tudo que fiz”, diz a letra. Decidiu então passar para o lado do microfone e sua primeira gravação de sucesso é uma das músicas que mais gosto dela, “Charme do Mundo”, de 1980 (“Do mar ou de amar, não sei, mas deve ser da idade”). Logo depois, em 1984, lançou o disco que dispensa apresentações, “Fullgás”. Esse álbum, nunca esqueço, eu ganhei de aniversário quando fiz 30 anos, aliás. Compor, ela diz, é seu grande talento. “Dos meus 23 discos da carreira, 19 foram feitos junto com meu irmão”, conta.
A minha passagem aqui pela Terra tem a ver com mudar as coisas para melhor. Eu aplico isso na minha música e tem dado certo.
Onde é que vai dar? Não sei
Foi da fonte de ídolos como Maria Bethânia e Gal que Marina entendeu a liberdade de viver sua bissexualidade. A música, ela garante, também ensinou sobre desejo, perda e sobre ser livre para assumir o que sente. Não tem vontade, por exemplo, de criar raízes e comprar uma casa. Prefere viver em lugares alugados que não a prendam em um mesmo local. “Eu gosto da experiência. Daqui a pouco já quero mudar”. Também mora em casas separadas de sua mulher. Marina é discreta nesse assunto. “Podendo não morar junto, eu acho melhor. Você pode marcar um date, uma coisa romântica que só se cultiva em casas separadas”, afirma.
Se “Fullgás” foi o estouro que foi no começo dos anos 1980, “Virgem”, de 1987, colocou Marina no topo. Mas ela diz que não segurou a onda de tantos convites para TV e shows e isso gerou uma das situações mais complexas de sua carreira. Marina perdeu a voz. “Hoje eu sei que foi uma questão psicológica que gerou o problema e isso virou físico, porque sou cantora. Quando entendi esse processo emocional, minha voz estava guardada, intacta”, ela conta. Hoje, cria o mínimo de segurança para poder se atirar em novas empreitadas “ou fica muito arriscado.” Nesse mínimo, está não se obrigar a fazer o que considera desnecessário. Gata escaldada.
“O Chamado”, de 1991, traduz um pouco esse espírito de dar sequência ao trabalho. “Onde é que vai dar? Acho que vou desistir”, “Céu abriga o recado que é pra eu me guardar, mudanças estão por vir”, “Acho que vou resistir” são alguns dos versos que passam uma ideia de positividade apesar das dificuldades. O sentimento se parece com o atual, que a leva a compor após o luto. “Cicero segue perto, sempre. Quando alguém vem ao meu lado, peço para se afastar, porque está oprimindo o Cicero e a mim também”, conta, sobre a onipresença do irmão.
Compor as músicas desse álbum, garante, foi outro chamado, pautado em algo que ela sempre quis fazer: mudar o mundo para melhor. A vontade tem a ver com a Cabala, escola de pensamento esotérica e tradição mística central dentro do judaísmo, que ela descobriu já adulta. O jogo da vida mencionado na filosofia, por exemplo, se refere a entender as regras espirituais do universo para viver com mais paz, propósito e receber a luz. Nesse sentido, Marina brilha. “No estúdio, não sinto frio na barriga. Eu me sinto bem. O palco era uma luta, eu era muito tímida e entrava em pânico achando que não daria certo. Mas o estúdio sempre foi a parte que mais gostei”, diz.
Através da música, eu me abri para outras possibilidades de sexualidade, porque via que as mulheres que eu admirava podiam ser bissexuais. A música avisa que é possível fazer o que quiser e, assim, abre a cabeça das pessoas.
Na maturidade, afirma que administra o tesão na vida da maneira que sempre fez. Sem hipocrisia, diz que as coisas mudaram dos 55 para os 70 anos, que completou em 2025. “Minha mãe jogou uma praga dizendo a vida toda que eu ia ver como seria quando envelhecesse”, ela diz, rindo. A maturidade tem sido menos complicada do que a mãe previu, graças a certas escolhas: Marina nunca gostou de álcool, mas amava malhar e cuidar da saúde. “Aos 70, se eu tiver mais 30 anos, estou no lucro. Sempre valorizei o corpo não só por vaidade, mas por instinto, para poder durar”, diz.
Seu tempo é dividido entre os amigos, que fazem parte de sua sanidade. Não teve irmãs de sangue, mas valoriza amizades femininas. “Quando encontro uma mulher bacana, eu quero ficar perto. São essas coisas que eu priorizo. Eu valorizo muito a lealdade e a confiança entre meus amigos”, confessa. Eu sorrio, porque ela está falando de mim também. Marina na sala de minha casa, em São Paulo: amizade de longa data.
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O imponderável
Marina não era espiritualizada até conhecer a Cabala. “Minha mãe ficou muito católica no fim da vida, e eu dizia ‘mãe, para com isso’”, conta, entre risos. Seu pai era ateu. Mas ela intuiu que ia gostar da Cabala, que chama de ciência, na qual fica claro o que você dá e o que ganha. “Mudou minha vida, fiquei anos sem fazer análise. Voltei porque me separei, depois de nove anos casada, e fiquei sem chão. Estava emocionalmente muito triste”. Mas garante que não vai ter outra depressão, como aconteceu nos anos 1980. “Do buraco da doença é difícil sair, mas, quando se sai dele, você aprende e não cai mais. Voltei pra minha carreira. Amo fazer disco. Cicero ia ficar orgulhosíssimo de mim”, conta com ar sapeca de irmã mais nova.
Marina sabe que não tem tempo a perder e não tem pudor em negar coisas, dizer que não quer fazer algo ali ou aqui. Sabe que precisa se proteger para poder gostar da vida. Quando perguntam dos planos aos 70 anos, ela afirma que vai fazer o que sempre faz. Só que com mais sabedoria. “Eu gosto da vida, não vou ficar lamentando. Não gosto de perder meu tempo”, ela diz. O conselho ela recebeu de Fernanda Montenegro: “Não se queixe, a vida tem tanta coisa boa. Não se queixe”. Quem ousaria desobedecer?