“Ela não é jornalista.”
“Ela não sabe nada de futebol.”
“Ela vai usar a Globo para divulgar bet?”
“Ela vai tumultuar o nosso trabalho.”
“Ela vai só para aparecer, enquanto a gente vai para ralar dia e noite.”
Estas foram algumas reclamações ouvidas pela coluna ao conversar com profissionais do jornalismo esportivo da Globo.
Todos pediram anonimato por motivos óbvios.
A presença de Virginia Fonseca como repórter convidada do ‘Domingão com Huck’ na Copa do Mundo desagrada a muita gente na emissora. E fora dela também.
Com quase 100 milhões de seguidores somando Instagram e TikTok, a influenciadora não vai fazer a cobertura convencional dos jogos da Seleção.
Pelo que apuramos, será uma espécie de embaixadora do programa de Luciano Huck, mostrando curiosidades, como a reunião de esposas de jogadores na área VIP dos estádios.
Há expectativa de que sua fama abra portas na Seleção para mostrar coisas leves, nada relacionado a esquema tático, lesões de atletas e outras pautas que exigem um conhecimento de especialista.
Na prática, Virginia não vai roubar o lugar de nenhum jornalista. Será muito mais uma celebridade vivendo na Copa algo semelhante ao quadro ‘Repórter por 1 Dia’ do ‘Fantástico’.
Compreende-se o incômodo de alguns repórteres que passaram anos construindo carreira no jornalismo esportivo, enfrentando madrugadas, viagens intermináveis, plantões, coletivas e a pressão permanente por furos de reportagem.
Para muitos deles, a Copa do Mundo representa o auge da carreira, o momento mais importante de um ciclo de quatro anos de trabalho.
Nos bastidores, as preocupações vão além da simples questão do mérito profissional.
Há quem tema que a presença de Virginia e de toda a estrutura que costuma acompanhá-la (assessores, produtores, seguranças e equipe de redes sociais) transforme uma cobertura naturalmente estressante em um ambiente ainda mais tumultuado.
Em Copas do Mundo, cada credencial vale ouro. Os espaços são limitados. O acesso aos jogadores é disputado segundo a segundo, centímetro a centímetro. Qualquer interferência extra pode gerar atritos.
Outro receio é mais simbólico do que prático. Parte dos jornalistas vê com desconforto a crescente substituição da informação pelo entretenimento.
Afinal, uma entrevista exclusiva com um dirigente da CBF pode produzir menos repercussão nas redes do que um vídeo descontraído gravado por alguém com tanto poder de engajamento como Virginia.
Também existe quem enxergue toda a operação como puro oportunismo. Na avaliação desses críticos, a Globo estaria tentando se aproximar de um público jovem que despreza a televisão e prioriza o conteúdo pelo celular.
Virginia seria uma ponte direta para milhões de seguidores que dificilmente assistiriam a uma cobertura esportiva na TV aberta.
Não por acaso, vários dos comentários mais ácidos ouvidos pela coluna mencionam menos a influenciadora e mais a estratégia do ‘Domingão’.
A verdade é que a escalação de uma influenciadora por um canal de TV parece suscitar mais interesse, polêmica e debate do que notícias sobre a maioria dos jogadores da Seleção.
Isso indica que o problema realmente não é Virginia.