Rico, famoso, judeu, isentão: por que Huck sempre é atacado quando fala de política

Entre o estrelato televisivo e a ambição presidencial, o apresentador paga o preço por se colocar como uma alternativa para o Brasil

27 mai 2026 - 11h20
(atualizado às 11h20)

Aconteceu de novo. E não terá sido a última vez. Luciano Huck foi massacrado nas redes sociais e por alguns colunistas respeitados após se posicionar com olhar crítico sobre o Bolsa Família.

Disfarçados ou explícitos, os julgamentos se repetiram: arrogante, elitista, playboy, alienado, preconceituoso.

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No Brasil polarizado dos últimos anos, poucas figuras públicas despertam tanta irritação simultânea na esquerda militante e na direita ideológica quanto o principal apresentador da Globo.

Basta ele emitir uma opinião política, sobretudo que escape ao maniqueísmo, para ser submetido a um tribunal instantâneo.

Não importa exatamente o conteúdo da fala. O personagem já parece condenado antes mesmo da sentença.

Huck ocupa um lugar raro e desconfortável na vida pública brasileira: o de alguém poderoso, popular e politicamente indefinido. 

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Ou, talvez mais precisamente, definido demais para um tempo que desaprendeu a conviver com ambiguidades.

Durante anos, ele flertou abertamente com a possibilidade de disputar a Presidência da República. 

Conversou com partidos, participou de movimentos cívicos como o RenovaBR e o Agora!, articulou alianças e parece ainda cultivar o projeto de tentar subir a rampa do Palácio do Planalto.

Ao mesmo tempo, recusou-se a aderir integralmente aos polos dominantes. Criticou Jair Bolsonaro, mas também Lula.

Em 2024, chegou a assumir publicamente a condição de “isentão”, dizendo não se incomodar “em apanhar da direita e da esquerda”.

Essa posição de centro, hoje quase ofensiva para setores hiperpolitizados, talvez explique parte da hostilidade que ele desperta.

No ambiente digital contemporâneo, o “isentão” virou um dos personagens mais odiados do debate público. 

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Não porque seja incoerente, mas porque desafia a lógica tribal das redes sociais. Quem não declara fidelidade absoluta a um dos dois maiores campos passa a ser visto como suspeito por ambos os lados.

Huck simboliza exatamente isso: um liberal-progressista moderado, defensor da democracia institucional, crítico de radicalismos e adepto de um discurso conciliador. 

Em outra época, poderia ser percebido como alguém pragmático. Hoje, para muitos ativistas, soa como oportunismo.

Há também o fator de classe.

Luciano Huck nasceu em família de classe média alta paulistana, estudou na USP, tornou-se um dos homens mais influentes da televisão brasileira e construiu fortuna e prestígio dentro da Globo.

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Em um país profundamente desigual, figuras como ele carregam uma presunção automática de desconexão popular. 

Qualquer comentário sobre pobreza, programas sociais ou comportamento da população vulnerável tende a ser interpretado não como opinião, mas como demonstração de pretensiosa superioridade.

A recente polêmica envolvendo sua fala sobre o Bolsa Família seguiu exatamente esse roteiro. 

O trecho mais criticado: “O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para que as famílias queiram sair do Bolsa Família. Na verdade, elas criam atalhos para conseguir ficar no programa de distribuição de renda, de proteção social, ad eternum. A gente precisa criar um estímulo.”

Huck precisou publicar um vídeo dizendo que não era contra programas sociais e que sua opinião havia sido retirada de contexto.

Mas a reação foi além da discordância legítima. Ressuscitaram frases que envelheceram mal, episódios constrangedores e comentários infelizes do passado para construir uma narrativa mais ampla: a de que ele seria “inimigo dos pobres”, “anti-nordestino” e representante de uma elite desprezível.

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É evidente que Huck, como qualquer figura pública com décadas de exposição, já cometeu erros e disse bobagens. Algumas críticas são justificáveis. Outras, claramente compreensíveis a alguém permanentemente no centro do palco e exposto a desgaste de imagem.

O que chama atenção é a intensidade quase emocional das reações.

Há ainda um elemento raramente discutido com honestidade: sua identidade judaica.

Embora o Brasil não tenha um histórico de antissemitismo comparável ao europeu, o crescimento mundial de discursos antijudaicos a partir das ações do governo de Israel em Gaza tornou mais frequente o reaparecimento de estereótipos antigos associados à riqueza, influência midiática e poder cultural.

Não é possível afirmar que toda manifestação de aversão a Huck tenha motivação antissemita. Seria irresponsável. Mas também seria ingênuo ignorar que certas caricaturas direcionadas a ele — o “rico globalista”, o “dono da narrativa”, o “bilionário desconectado” — dialogam frequentemente com imaginários historicamente usados contra judeus em diferentes contextos.

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Além disso, Huck representa algo que incomoda tanto políticos profissionais quanto setores ideológicos da imprensa: a possibilidade concreta de uma alternativa eleitoral competitiva fora das estruturas tradicionais.

Mesmo sem nunca ter disputado eleição, seu capital político sempre foi tratado com seriedade. Conhecido nas classes populares, articulado com empresários e relativamente palatável ao centro democrático, Huck já foi visto como potencial “terceira via”.

E outsiders viáveis costumam despertar reações de rejeição nos velhos caciques que controlam o poder.

No Brasil, a política se acostumou a operar entre figuras previsíveis: profissionais da máquina partidária ou líderes populistas consolidados. Huck ameaça esse quadro justamente por não pertencer integralmente a nenhum desses mundos.

Talvez, por isso, cada fala sua seja tratada não apenas como opinião, mas como movimento estratégico de alguém que “ainda pode voltar ao jogo”.

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No fundo, o caso Luciano Huck revela menos sobre ele e mais sobre o momento brasileiro.

Um país em que o debate público se tornou tão passional e identitário que qualquer tentativa de nuance parece insuportável.

Huck continuará sendo criticado. Algumas vezes com razão. Outras, como símbolo conveniente de tudo o que parte numerosa do país aprendeu a odiar: ricos, celebridades, formadores de opinião, centristas.

E, enquanto ele seguir ocupando esse espaço ambíguo entre entretenimento, riqueza e política, continuará despertando a desconfiança generalizada e o ódio gratuito.

Luciano Huck reúne características que irritam parte da imprensa e são vistas como ameaça à política tradicional que comanda o Brasil
Luciano Huck reúne características que irritam parte da imprensa e são vistas como ameaça à política tradicional que comanda o Brasil
Foto: Reprodução
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