A ameaça de cancelamento do quadro focado na Copa ‘Diário de Virginia’ no Domingão com Huck, depois de sucessivas críticas da imprensa e nas redes sociais, reforça um histórico desconfortável para a Globo.
A emissora investiu algumas vezes em grandes influenciadores digitais na tentativa de aproximar sua programação do público jovem.
Houve a expectativa de que a popularidade na internet garantisse instantaneamente o sucesso na TV aberta. A maioria dessas apostas terminou em decepção.
A primeira experiência aconteceu em 2016, quando o Fantástico escalou um dos maiores youtubers da época.
Christian Figueiredo estreou o quadro ‘Me Conta Lá no Quarto’, em que recebia adolescentes para conversar sobre bullying, relacionamentos, sexualidade e conflitos familiares.
O projeto teve baixa repercussão e vida curta: durou apenas oito episódios.
Depois foi a vez de Kéfera Buchmann, uma das primeiras estrelas da web brasileira. Atriz de formação, ela ganhou um papel na novela ‘Espelho da Vida’, exibida em 2018.
Sua participação recebeu enorme divulgação justamente por simbolizar a chegada de uma celebridade digital à teledramaturgia da Globo.
A novela não agradou ao público e derrubou a audiência média do horário em quase quatro pontos. Kéfera não atuou em outras novelas da emissora.
Estrela na internet, Rafa Kalimann foi convidada para o ‘BBB20’. Aceitou e ficou em 2º lugar. Virou uma aposta de Boninho como apresentadora.
Ganhou o programa ‘Casa Kalimann’ no Globoplay. As críticas foram duras. Não passou da primeira temporada.
Ao migrar para a atuação, Rafa enfrentou uma nova onda de rejeição por sua interpretação da vilã Jéssica na novela ‘Família é Tudo’.
Por que deu errado?
Estes casos ajudam a explicar um dilema recorrente da televisão brasileira.
Enquanto as redes sociais premiam espontaneidade, intimidade e comunicação direta com comunidades específicas, a TV aberta exige domínio de linguagem, ritmo, roteiro e capacidade de dialogar simultaneamente com milhões de espectadores de perfis distintos.
A plateia digital não vai, obrigatoriamente, para a frente da TV, e os telespectadores tradicionais podem não conhecer aquele famoso nascido na internet.
São universos bem diferentes.
Acumular milhões de seguidores pode até abrir as portas da maior emissora do país, mas não garante a ninguém a permanência no ar, nem mesmo para a poderosa Virginia.