No ‘BBB26’, a diferença de tratamento dispensada a Milena e Pedro escancara uma engrenagem social antiga, mas ainda ativa: a régua desigual com que julgamos comportamentos semelhantes quando atravessados por gênero e raça.
Os dois participantes apresentaram instabilidade emocional, crises de insegurança e reações impulsivas diante da pressão no confinamento. Ainda assim, a leitura pública de cada um segue caminhos diferentes, tanto entre os demais competidores como no implacável tribunal da internet.
Milena foi rapidamente rotulada como “descontrolada”, “agressiva” e “infantilizada”. Suas reações exageradas, aparentemente ligadas a episódios de exclusão anteriores à entrada no reality show, não geram a compreensão da maioria dos colegas.
Eles demonstram irritação mais rapidamente, menor disposição ao diálogo e tendência a invalidar seus sentimentos. A emoção, quando expressa por ela, vira defeito, e o sofrimento — como a crise de choro após ser eliminada da primeira Prova do Líder — apenas uma encenação.
Já Pedro, em contraste, recebe um olhar bem mais benevolente. Suas intermináveis declarações polêmicas e atitudes equivocadas são contextualizadas como resultado de ansiedade, trauma familiar e imaturidade por ser muito jovem.
Nota-se maior empatia com ele, apesar de ter cometido erros mais graves (e aparentemente propositais) do que Milena. Ganhou várias ‘passadas de pano’ de brothers que se colocaram como protetores ou mentores, a exemplo de Alberto Cowboy e Paulo Augusto.
Enquanto Milena vira alvo de críticas por “não saber se controlar”, Pedro é visto como alguém “desorientado”, “aprendendo”, “precisando de acolhimento”.
Impossível não associar a situação desfavorável da recreadora com o pior cancelamento da história do ‘Big Brother Brasil’.
Não precisou de muito tempo para percebermos que o massacre de Karol Conká na 21ª edição foi injustificável — e enxergar como o fato de ela ser mulher, preta e insubmissa interferiu na dosagem do nosso juízo moral.
Essa assimetria de interpretação do homem e da mulher, do branco e do negro, não ocorre apenas em programas de TV. Trata-se de um reflexo de estruturas sociais profundas.
Estudiosos apontam, há décadas, que mulheres — e, de forma ainda mais intensa, as negras — são cobradas por racionalidade, autocontrole e docilidade.
No menor sinal de instabilidade, são logo rotuladas: “a histérica”, “a frustrada”, “a problemática”, “a antissocial”.
“Ensinamos as meninas a se encolherem, a se fazerem menores. Ensinamos que elas não podem ficar com raiva”, explicou a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.
Os homens, em geral, recebem avaliação bem menos rígida, sem a exigência de que sejam polidos e disciplinados. Aliás, alguns comportamentos agressivos são até elogiados como símbolo de virilidade.
O que o ‘BBB26’ expõe é um espelho desconfortável da sociedade que o assiste. A diferença de visão sobre Milena e Pedro revela como as emoções nunca são neutras: acabam interpretadas a partir de características físicas, a primeira impressão e as narrativas (verdadeiras ou falsas) da pessoa analisada.
O julgamento continua contaminado por expectativas antigas sobre quem pode errar, quem merece uma segunda chance e quem, desde sempre, é duramente punido por existir fora do esperado.