Gabriela Loran estreou na televisão em 2018, quando se tornou conhecida por ser a primeira atriz trans de Malhação. Na temporada Vidas Brasileiras da novela adolescente, ela interpretou Priscila, uma professora de dança. De lá para cá, ela fez outras duas novelas e uma série na Globo, até conquistar este ano um papel de destaque como Viviane em Três Graças, trama escrita por Aguinaldo Silva e exibida na faixa das 21h da emissora.
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"Viviane é um presente assim na minha carreira. É uma personagem que sempre reivindiquei, cheia de nuances, que não é bengala da protagonista. Ela tem uma história também, tem um enredo. Ela vive, se emociona, chora, ri, se aventura, é séria, é amiga, se apaixona. É muito gratificante e um divisor de águas na minha carreira", diz Gabriela em entrevista ao Terra.
Em Três Graças, Viviane é uma farmacêutica na Chacrinha, comunidade fictícia na cidade de São Paulo, e melhor amiga da protagonista, Gerluce (Sophie Charlotte), com quem arma um plano para conseguir comprar remédios e substituir os falsificados distribuídos por lá. Ela também se apaixona por Leonardo (Pedro Novaes), um playboy rico e de uma realidade completamente diferente da dela.
"Todas as personagens que vivi antes são maravilhosas, sou muito grata a todas, mas elas estavam sempre como o suporte de alguém. Elas não tinham desenvolvimento dentro da trama. Agora, acabei de gravar na casa da Viviane. A personagem ganhou um cenário da casa dela", comemora a atriz.
Em um ano em que tramas de personagens LGBTQIAPN+ enfrentaram dificuldades nas novelas da Globo, com um casal gay sendo até cortado de Garota do Momento, a trama de Aguinaldo Silva vai na contramão desse movimento, retratando um casal gay com uma filha, duas mulheres se apaixonando e uma mulher trans entre os personagens de mais destaque.
"Aguinaldo Silva está sendo um pai da comunidade LGBT. Ele está mostrando que o Brasil é diverso. O Brasil é esse aí que a gente está vendo na novela. Essa é a representação real do que a gente vê aqui fora", analisa Loran.
Tratando-se de um País diverso, mas ainda com altos índices de LGBTfobia --o que mais mata trans e travestis--, Gabriela considera um verdadeiro sucesso o retorno que tem tido do público, que inclui elogios à personagem dela e a torcida para Viviane e Leonardo formarem um casal.
"É lindo ver o Brasil torcendo por uma personagem como ela, tendo em vista que o Brasil é o País que mais mata pessoas como ela. Pessoas LGBTs, pessoas pretas e pessoas da periferia estão com a Viviane ali. Ela está levando essa representatividade. Isso não tem preço."
O caminho até Viviane
Gabriela se formou em Artes Cênicas na Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, mas teve outros trabalhos antes de conseguir se dedicar integralmente à arte. Ela foi atendente de farmácia, trabalhou em um restaurante e teve outras profissões, até conseguir o papel em Malhação, o primeiro grande marco na carreira dela, pois foi quando começou a cobrar para trabalhar como atriz.
Na época em que estreou nas telinhas, Loran também já produzia conteúdo para as redes sociais, na época focados em assuntos de gênero, raça e diversidade. Ela se dedica às redes sociais até hoje, mas com o papel em Três Graças diminuiu o ritmo dos conteúdos que publica, pois conseguiu pela primeira vez conquistar um salário fixo com a atuação.
"No meu quarto trabalho na Globo, posso dizer que estou sobrevivendo da minha arte. A minha fonte de renda de uns anos para cá foi a internet. Com a novela, pude dar um respiro para reconfigurar minha carreira na internet. Antigamente, produzia muito conteúdo. Posso dar essa pausa agora porque tenho um salário confortável em Três Graças."
Produzir menos conteúdo para as redes sociais não significa que ela esteja trabalhando menos. A atriz grava seis dias por semana e se diz exausta, mas feliz. "Estou realizando um sonho. Tudo o que sempre almejei está se concretizando na minha frente. São anos reivindicando uma personagem intensa, complexa para que eu possa mostrar as nuances, não só da personagem, mas da Gabriela também, que posso fazer jus ao diploma de Artes Cênicas que tenho."
A realização não é apenas da atriz, mas a família dela também tem se sentido orgulhosa e realizada por vê-la em horário nobre. Gabriela conta que o pai e a mãe saem de casa vestidos com roupas estampadas com Três Graças e fazem questão de apresentá-la a amigos e conhecidos quando ela vai visitá-los em São Gonçalo (RJ).
Para a artista, o apoio da família foi fundamental para que ela conseguisse percorrer esse caminho e alcançar o sucesso na TV.
"Por mais que o mundo me destrua aqui fora, que a transfobia, a LGBTfobia, o racismo, o machismo, tudo isso perpasse o meu dia, sei que eu posso chegar na casa da minha mãe e comer um arroz e feijão quentinhos. Sei que posso contar com o meu pai me ligando."
É com ajuda das pessoas mais próximas, como a família e as melhores amigas que a atriz conta para não deixar o sucesso subir à cabeça. Além disso, ela também ressalta a importância de cuidar da saúde mental. A atriz já contou que chegou a tentar suicídio na adolescência e, hoje, além do trabalho na TV, também é estudante de Psicologia. Ela precisou trancar o curso devido à agenda lotada, mas garante que vai se formar assim que conseguir um tempo para se dedicar à faculdade.
"Sei o quanto é importante a gente cuidar da saúde mental. Estou em uma novela, então preciso saber lidar com a crítica negativa e positiva. Não posso achar que sou a dona do mundo só porque estão gostando de mim, porque pode vir o dia em que a personagem faça alguma coisa que as pessoas não gostem."
Sorte no trabalho e no amor
Por mais que esteja sendo elogiada pela interpretação na novela, Gabriela Loran precisou lidar com críticas antes mesmo da trama ir ao ar, pois parte dos noveleiros não gostou da ideia de ela formar um par romântico com Pedro Novaes. "Falaram que não tinha química, que eu era velha demais para ele, que eu era feia para ele. Vendo aquilo, falei: 'Calma, meus amores, vocês nem têm noção do que está se construindo'. Foi gostoso por isso, porque o melhor tapa na cara é aquele que a gente não dá, mas prova através de atitudes."
Ela relembra que soube desde o primeiro contato com Pedro Novaes que eles formariam uma boa parceria em cena e exalta o trabalho com o ator. "Nós dois somos leves. Por mais que as cenas sejam profundas e com uma carga dramatúrgica muito pesada, a gente consegue trazer uma leveza de dois atores que se escutam."
Das cenas de Três Graças que foram ao ar até o momento, a favorita de Gabriela é o momento em que Viviane conta para Leonardo que é uma mulher trans e é rejeitada por ele. Ela teve a oportunidade de construir essa cena junto com a equipe de roteiro e usou algumas experiências da própria vida para isso, mas também pontua que foi um trecho difícil de gravar, pois nunca viveu nada parecido com o que a personagem passa.
"A gente se emocionou muito. Fui para casa meio mexida por dentro porque acessei um lugar da Viviane que nunca vivi. No dia seguinte, acordei e a primeira coisa que veio na minha cabeça foi aquela cena. Comecei a chorar, chorar e chorar, porque, por mais que não tenha vivido, sei que alguém viveu."
O momento da rejeição não foi algo que Gabriela experienciou na vida pessoal, mas a atriz analisa que tem uma forma parecida de se relacionar com a da Viviane. Assim como a personagem, ela não gosta de relacionamentos puramente sexuais e prefere relações que tenham envolvimento sentimental.
"Quando eu comecei o meu processo de transição, muitos homens se sentiam atraídos por mim, mas era uma coisa muito sexual. Não sou essa pessoa. Meu corpo é o meu templo e não vai ser qualquer pessoa que vai acessar. Compartilhei isso com a Viviane também. Na história que construí, ela também viveu isso. Tudo o que ela está vivendo com o Leonardo é a primeira vez de todas as possibilidades. Com a Gabriela também foi assim."
Loran tentou usar aplicativos de relacionamento no passado, mas se incomodava com o quanto eles eram superficiais. Ela se considera uma pessoa romântica e teve dificuldade para encontrar alguém que fosse assim também, até que encontrou o primeiro namorado em 2017, com quem teve um relacionamento de quatro anos e de quem é amiga atualmente.
Desde o final de 2024, Gabriela está em um relacionamento com Ipojucan Ícaro, artista circense e ex-participante de No Limite. "São anos de autoconhecimento para poder viver o que estou vivendo hoje. Estou muito feliz."
Apenas o começo do sucesso
Com o maior papel da carreira até o momento, Gabriela Loran já sonha com os próximos passos que dará como atriz. "Quero fazer uma vilã e quero fazer uma mãe grávida. Quero poder mostrar para o Brasil que é possível uma atriz trans viver uma maternidade e que isso seja verossímil, que as pessoas acreditem que estou vivendo isso. Quero comprar essa missão de mostrar para o Brasil que é possível me enxergarem como uma mãe."
O desejo em torno da maternidade não fica apenas no âmbito profissional, pois Gabriela planeja ter um filho nos próximos anos. "É o maior sonho da minha vida. Coloquei um deadline de 35 anos para ter esse filho. Então, tenho três anos pela frente para poder cumprir essa missão. Mas até lá tem muito trabalho, muita consolidação de carreira e vamos embora, mas essa criança vem", conclui a artista.