A nova novela das 19h da TV Globo, ‘Coração Acelerado’, chega com uma promessa de renovação: ambientada em Goiás, aposta no universo sertanejo contemporâneo e em uma cultura regional rica, popular e facilmente identificável.
No entanto, basta olhar com atenção para o elenco principal para perceber que a mudança geográfica não se traduziu em diversidade real. Entre os protagonistas, apenas um ator tem ligação direta com o estado: o goianense Filipe Bragança, no papel do cantor João Raul.
Goiás aparece como cenário e pano de fundo narrativo, mas os sotaques e as vivências seguem majoritariamente ausentes. O Centro-Oeste entra em cena, mas o corpo que o representa é importado.
Essa situação suscita um questionamento tão antigo quanto relevante: até quando as novelas brasileiras vão continuar mudando o mapa do roteiro sem dar o devido espaço a quem faz parte dele?
Este não é um caso isolado. A teledramaturgia carrega um histórico de escalações que, no mínimo, desafiam a verossimilhança.
Em ‘Segundo Sol’, de 2018, ambientada em Salvador, a ausência de atores baianos e negros em papéis centrais provocou críticas merecidas à Globo.
Estado em que cerca de 80% da população se autodeclara preta, a Bahia foi retratada majoritariamente por um elenco branco e de fora, criando uma dissonância impossível de ignorar.
Problema semelhante afetou ‘Sol Nascente’, de 2016, que trouxe um ator de ascendência europeia, Luis Mello, na pele de um oriental. A escolha provocou um desconforto compreensível e reforçou a invisibilização de atores asiático-brasileiros em um país que abriga a maior comunidade nipônica fora do Japão.
O ponto comum entre esses casos não é apenas a polêmica, mas a recorrência de uma prática na TV: a diversidade entra como tema e estética, porém, não aparece nos elencos.
A representatividade se torna decorativa, como se o Brasil que foge aos padrões vigentes no saturado eixo Rio-São Paulo pudesse ser visitado, filmado e explorado, desde que não se altere demais o perfil tradicional de seus protagonistas.
Defensores dessas escolhas costumam recorrer ao argumento da “liberdade artística” e da “necessidade de nomes conhecidos” — entenda-se: atores brancos famosos com sotaque mais neutro — para promover a novela ou a série.
Até que ponto essa lógica se sustenta quando se repete sistematicamente? Tal pensamento elitista e limitado condena atores locais a nunca serem fortes o suficiente para o protagonismo.
Um exemplo que quebra essa dinâmica: a direção do remake de ‘Renascer’ escalou Edvana Carvalho para o importante papel de Inácia.
Ela era desconhecida do grande público, mas tinha uma carreira consolidada na Bahia, onde a trama se passava. Resultado: nasceu uma nova referência nacional, aplaudida por telespectadores e imprensa.
Produtores de elenco e diretores precisam abandonar as escolhas óbvias e investir na riqueza da diversidade de cores, origens, pronúncias e belezas. O brasileiro não é um só — e precisa ser visto em todas as suas versões.
Conservador, a Globo quer você
A escolha de Goiás e do universo sertanejo para produções da Globo como ‘Coração Acelerado’ e ‘Rensga Hits’ não é mero acaso.
A emissora enfrenta há anos resistência e rejeição em parte significativa do público do Centro-Oeste, região onde, frequentemente, seus índices de audiência ficam abaixo da média nacional.
A preocupação em agradar ao público-raiz daquela parte rica do país não é nova. Em 2014, a pedido da emissora, o autor Manoel Carlos ambientou parcialmente ‘Em Família’ numa fictícia cidade goiana. O telespectador local não comprou a ideia: do começo ao fim, os índices no Ibope foram tão baixos que a novela acabou encurtada.
Agora, ao apostar em uma narrativa ancorada no gênero musical associado à identidade do cerrado, a valores tradicionais e a um Brasil mais conservador, o canal busca novamente atrair um telespectador que pouco se vê retratado na TV.
Para a Globo, contar histórias de outras regiões, longe do cotidiano de paulistanos e cariocas, tornou-se não apenas uma escolha criativa, mas uma necessidade estratégica — ainda que, paradoxalmente, essa descentralização continue acontecendo sem a devida incorporação de quem, de fato, vive nesses territórios.