Manoel Carlos ocupa um lugar singular na história da teledramaturgia brasileira por ter transformado o cotidiano em matéria-prima nobre da ficção.
Em um gênero muitas vezes marcado por grandes reviravoltas, vilões caricatos e conflitos espetaculares, ele fez o caminho inverso: apostou no banal, no diálogo íntimo, nas pequenas dores e alegrias que atravessam a vida comum, sobretudo a da classe média urbana.
Paulistano, ele fez do elitista Leblon, na zona sul do Rio, o cenário principal de suas tramas. Por ali circulavam as protagonistas, sempre apaixonadas e impulsivas.
Maneco para os íntimos, o escritor revelou uma compreensão profunda dos sentimentos e fez da novela um espaço de reflexão sensível sobre o valor da vida, das pequenas alegrias, dos gestos que passam despercebidos.
Suas histórias não dependiam de acontecimentos extraordinários: bastava um término amoroso, um dilema familiar ou uma frustração profissional para mover a narrativa. Essa escolha dramatúrgica aproximava o público dos personagens, que pareciam gente de carne e osso, versões ficcionalizadas de nós mesmos.
Outro traço fundamental era a abordagem dos sentimentos. Poucos autores foram tão hábeis em dar voz às contradições emocionais, às fragilidades e às obsessões afetivas.
Seus personagens sempre amam demais, sofrem demais, erram demais — e, justamente por isso, são tão humanos, compreensíveis e até perdoáveis.
As famosas Helenas tornaram-se um arquétipo da mulher sensível, dividida entre o amor romântico e as exigências da vida adulta, espelhando conflitos de gerações inteiras de telespectadoras.
Manoel Carlos também ajudou a consolidar o horário nobre da Globo como um espaço de diálogo social. Sem recorrer ao panfleto, abordava temas essenciais como a solidão no casamento, o papel do velho na família, a ascensão do negro à elite, a competição feminina por homem, os limites do amor materno e a relação ocasionalmente tóxica entre mãe e filha.
Ao tratar esses assuntos com delicadeza e profundidade psicológica, ele contribuiu para que o público se reconhecesse, refletisse e debatesse esses temas fora da tela.
Poeta da rotina, Manoel Carlos ensinou que as grandes histórias quase estão nas vidas mais comuns. Ele sempre via algo interessante onde a maioria não enxergava nada.