Em 2012, o Brasil ocupava o 25º lugar no ranking de países mais felizes do planeta. Atualmente, está na 32ª posição do ‘World Happiness Report’.
Este é apenas um exemplo das diferenças entre a época de ‘Avenida Brasil’ e este período às vésperas da continuação da novela, com estreia prometida pela Globo para janeiro de 2027.
É outro país: polarizado, raivoso e menos fiel à televisão.
Naquele tempo, o streaming ainda engatinhava. A Netflix havia chegado ao Brasil apenas um ano antes.
Prime Video, HBO Max, Disney+ e Globoplay ainda não faziam parte do cotidiano.
A TV por assinatura vivia um bom momento, mas sua audiência fragmentada não representava risco à Globo.
As pessoas tinham o hábito da segunda tela: assistiam à ‘Avenida Brasil’ publicando comentários no Twitter (renomeado X).
No início de cada capítulo, os usuários postavam “oi, oi, oi” como um código de pertencimento a um grupo.
O microblog foi ofuscado pelo TikTok, que reúne uma audiência quase dez vezes maior.
No aplicativo chinês de vídeos curtos, a velha televisão aparece menos como centro de uma conversa nacional e mais como fonte de gafes e erros destacados em postagens irônicas.
Na política de 14 anos atrás, a divisão do país era entre PT e PSDB.
Havia uma rivalidade intensa, mas ninguém imaginava o grau de radicalização que surgiria entre lulistas e bolsonaristas, inclusive com casos de mortes.
Os haters eram uma minoria. A internet parecia um parque de diversões. Tornou-se uma fábrica de hostilidade permanente.
A nova ‘Avenida’ vai encontrar esse Brasil transformado para melhor e para pior, a depender do ponto de vista e do humor de quem o analisa.
Já existem críticas na internet em relação ao elenco dessa continuação.
Vários personagens queridos foram cortados — como Mãe Lucinda (Vera Holtz) e Suellen (Ísis Valverde) — ou farão apenas aparições rápidas no início, a exemplo da antiga protagonista, Nina/Rita (Débora Falabella).
Melhor interpretar como outra novela, e não uma sequência fiel à original. Assim, evita-se decepção semelhante a que vimos com o remake de ‘Vale Tudo’, descaracterizado em pontos importantes.
Por isso, se faz necessária cautela em relação a essa ‘parte 2’ daquele fenômeno da teledramaturgia. Afinal, quanto maior for a expectativa, pior pode ser a frustração.
Ainda que a memória afetiva leve muita gente para a frente da TV, dificilmente a trama que trará de volta a vilã Carminha (Adriana Esteves) vai repetir picos de 54 pontos e média geral de 39 no Ibope.
A produção do momento na faixa das 21h, ‘Quem Ama Cuida’, está com 23 pontos.
‘Avenida Brasil 2’ nasce de uma tática recorrente da Globo na última década: apelar ao saudosismo para tentar reverter a audiência estagnada de sua principal faixa na programação.
A ideia parece funcional, mas, na prática, não é tão fácil gerar bons resultados.
Os brasileiros ganharam incontáveis novas formas de entretenimento desde 2012 e uma parcela numerosa das pessoas perdeu a paciência para acompanhar uma novela diária.
A trama de Tufão (Murilo Benício) terá a seu favor a curiosidade inicial, porém, precisará entregar fortes atrativos para segurar a atenção do público depois dos primeiros capítulos.
Está cada dia mais difícil para a televisão reviver seus melhores momentos, assim como o Brasil se distancia cada vez mais do nível de felicidade que um dia teve.