“O amor tira as máscaras que tememos não conseguir viver sem e sabemos que não conseguimos viver dentro delas.”
A frase do livro ‘Da Próxima Vez, o Fogo’, do escritor norte-americano James Baldwin, negro e gay, resume o medo de ‘sair do armário’ e o pânico de continuar dentro dele.
São sentimentos experimentados por muitos homens de vida pública: da política às artes, das ciências ao telejornalismo.
Até o início dos anos 2000, seria impensável um apresentador de telejornal se declarar homossexual. Havia o risco real de fim da carreira.
Ainda que no tempo atual haja recrudescimento da intolerância disfarçada e da homofobia explícita, existe maior liberdade a um homem para viver abertamente seu amor por outro homem.
Recentemente, Marcelo Pereira, do ‘Bom Dia SP’, da Globo, postou pela primeira vez fotos em clima romântico com o cirurgião dentista Lourenço Albarello.
Houve forte apoio ao apresentador nas redes sociais. Até então, sua intimidade amorosa era uma incógnita, alimentando a curiosidade do público.
No Carnaval, o apresentador Marcelo Cosme, do ‘Em Pauta’, da GloboNews, compartilhou momentos de diversão ao lado do marido, o médico Frankel Brandão.
Igualmente numa postagem, o âncora do ‘Bastidores’ da CNN Brasil, Gustavo Uribe, anunciou sua “honeymoon” (lua de mel) com o companheiro, o juiz Raimundo Costa Neto.
Estes exemplos são relevantes por se tratarem de profissionais bem-sucedidos e formadores de opinião que expõem seus relacionamentos de maneira orgânica.
Podem fazer homens anônimos, inclusive os bem jovens, a compreender que a orientação sexual não é obstáculo para credibilidade, reputação ou sucesso profissional.
Do ponto de vista sociológico, a visibilidade desses jornalistas em posições de prestígio ajuda a deslocar a homossexualidade do campo do “segredo” ou da “exceção” para o da normalidade cotidiana.
A televisão aberta e os canais de notícias ocupam lugar central na formação de imaginários coletivos.
Apresentadores e repórteres são percebidos como mediadores da realidade. Por isso, quando assumem seus afetos, o gesto ganha peso institucional.
Ao surgirem em fotos triviais, eles ainda contribuem para desmontar a lógica histórica que confinava homens gays a guetos e estereótipos, sob pena de punição simbólica se ousassem frequentar ambientes dominados pela heteronormatividade.
Como escreveu o psicanalista francês Jacques Lacan, o sujeito se constitui também a partir das imagens e referências que encontra no mundo. Bons exemplos funcionam como autorização coletiva para existir.
Ao tornar visível o amor entre homens, sem alarde nem vergonha, esses comunicadores da TV ressaltam que viver a própria homossexualidade com liberdade e leveza é um direito inegociável.