"Até seus últimos dias, Edgar Morin permaneceu atento ao mundo, aos outros e às grandes questões humanas que alimentavam seu pensamento", disse sua esposa, Sabah Abouessalam Morin, em um comunicado enviado à AFP.
A originalidade de Morin, judeu laico de orientação política de esquerda, residia em sua rejeição à fragmentação do saber, em favor de uma visão cultural e científica multidisciplinar, a fim de confrontar "a complexidade da realidade". Ele foi chamado de "o pensador planetário" porque, por meio do conceito de "pensamento complexo", buscava "conectar o que, em nossa percepção usual, não está conectado".
Edgar Morin acreditava que quanto maiores os riscos de crises, maiores as chances de encontrar soluções. À pergunta que frequentemente lhe faziam se era otimista ou pessimista, respondeu em 2005: "Sou um 'otipessimista' (...). Tenho esperança em meio ao desespero".
Nascido filho único em 8 de julho de 1921, em Paris, numa família judia originária de Tessalônica, Grécia, Edgar Nahoum ingressou no Partido Comunista em 1941 e entrou para a resistência ao nazismo sob o pseudônimo de Morin.
Publicou seu primeiro livro, "Ano Zero da Alemanha", em 1946. Trabalhou como jornalista e ingressou no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) em 1950 - onde atuou como diretor de pesquisa de 1970 a 1993 e, posteriormente, como diretor emérito da prestigiosa instituição.
Olhar inovador
Morin causou grande impacto com a publicação, em 1959, de "Autocrítica", obra que narra sua expulsão do Partido Comunista Francês (PCF), do qual fora uma figura de destaque, e sua própria cegueira em relação ao stalinismo.
Naquela época, foi também um dos fundadores do Comitê de Intelectuais contra a Guerra da Argélia. Precursor da "sociologia do presente", ele se concentrou em fenômenos pouco estudados pela sociologia, como cinema, novas tecnologias, esportes, e transformação das áreas rurais.
No quinto volume de sua obra magistral, "La Méthode" (O Método), ele escreveu: "Quanto mais sabemos sobre a humanidade, menos a compreendemos. As dissociações entre as disciplinas a fragmentam, esvaziam-na de vida, de substância, de complexidade, e certas ciências consideradas ciências humanas chegam a drenar a própria noção de humanidade".
Essa mente enciclopédica permaneceu uma voz proeminente e influente no debate intelectual, com suas reflexões sobre as mudanças nos estilos de vida de nossa era, à medida que a globalização se acelera.
Apois à causa palestina lhe rendeu processo
Detentor de doutorados honorários de 38 universidades estrangeiras, escreveu cerca de 40 livros, muitos dos quais foram traduzidos. Em 2024, ainda publicou quatro livros e continuava a contribuir com artigos de opinião para jornais.
Entre seus escritos, estão uma biografia familiar, "Vidal e Sua Família" (1989, usando o primeiro nome de seu pai), e um texto comovente sobre sua primeira esposa, falecida em 2008, "Edwige, a Inseparável".
Tendo reconhecido desde cedo a importância das questões ecológicas, foi coautor de "Terra-Pátria" em 1992 e, em 2007, de "Primeiro Ano da Era Ecológica", um diálogo com o ecologista francês Nicolas Hulot.
Morin foi coautor de um artigo em 2002 no qual afirma que "os judeus, vítimas de uma ordem implacável, estão impondo sua própria ordem implacável contra os palestinos". O filósofo chegou a ser processado por antissemitismo por duas associações, mas ganhou o caso no Tribunal de Cassação, a mais alta instância judicial da França.
Em 2012, debateu com o futuro presidente François Hollande sobre "caminhos para superar a crise da civilização" - conversa que, mais tarde, se tornou um livro. "O progresso do conhecimento levou a uma regressão do pensamento", escreveu no Le Monde em 2024, conclamando à "resistência da mente".
Pai de duas filhas, o filósofo gostava de fazer compras no centro de Paris, com seu boné de marinheiro na cabeça e um sorriso no rosto, antes de se mudar, aos 97 anos, para Montpellier (sul da França), feliz por "sair ao sol" e "conversar com os vizinhos" (Le Monde, 2019).
Com AFP