'Não estava no meu horizonte ser imortal', afirma Milton Hatoum ao tomar posse na ABL

Escritor amazonense, vencedor de três prêmios Jabuti, ocupa a cadeira seis, que foi do jornalista Cícero Sandroni

25 abr 2026 - 23h46

Um dos grandes nomes da literatura contemporânea, vencedor de nada menos que três prêmios Jabuti, o amazonense Milton Hatoum, de 73 anos, tomou posse na noite desta sexta-feira, 24 da cadeira de número seis da Academia Brasileira de Letras (ABL), que pertencia ao jornalista Cícero Sandroni, morto em junho do ano passado.

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Hatoum é autor de nove livros de ficção, além de tradutor, professor e arquiteto. Entre 2008 e 2022, ele foi colunista do Estadão, onde escrevia sobre literatura e cidades.

O escritor Milton Hatoum na cerimônia de posse na ABL, na noite desta sexta-feira, 24
O escritor Milton Hatoum na cerimônia de posse na ABL, na noite desta sexta-feira, 24
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

"Não tenho pendor à imortalidade, não estava no meu horizonte ser imortal", afirmou, bem humorado. "Acho que imortais são os clássicos, e nunca tive pretensão de escrever clássicos."

Ele contou que foi persuadido e incentivado por colegas como Ana Maria Machado, Antônio Carlos Secchin e Rosiska Darcy, em um processo iniciado há mais de uma década. Ana Maria Machado relembrou o início das sondagens em seu discurso de boas vindas ao novo colega de imortalidade.

"Ouvindo minha sugestão, o ar de espanto dele foi autêntico e inesquecível. Evidentemente, a hipótese não lhe ocorrera jamais. Ficou sem ter o que dizer, balbuciando desculpas. (Algumas sem pé nem cabeça, aliás...) Mas prometeu pensar no assunto", contou. "Pois não é que ele levou dez anos pensando? Só agora, em final de 2025, resolveu se candidatar - e por isso estamos todos aqui a festejá-lo hoje."

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Hatoum contou que na época dessa primeira sondagem, ele estava profundamente envolvido na concepção da trilogia O Lugar mais Sombrio, um drama familiar passado durante a ditadura militar, que só foi concluída no ano passado.

"Quando ela me sondou, eu estava muito envolvido com a trilogia, que acabei agora, há pouco tempo, e disse a ela que não poderia me dedicar a ABL naquele momento. Mas fiquei de pensar", contou. "Pensei muito, mas anos depois estou aqui para dar a minha contribuição."

Minutos antes da posse na cadeira seis da ABL, o escritor amazonense Milton Hatoun conversou com jornalistas
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

Saudado como um "escritor escritor" em uma instituição cada vez mais aberta a artistas, jornalistas e profissionais de outras atividades, o novo imortal elogiou a diversidade, mas lembrou algo que faz parte da natureza da ABL:

"É uma Academia Brasileira de Letras, a casa de Machado de Assis, o maior escritor da América Latina. Não necessariamente é preciso privilegiar a literatura, mas ela precisa ter um lugar cativo. O meu esforço, e o que venho fazendo desde que publiquei meu primeiro romance, é falar sobre literatura (romance, poesia, crônica, teatro), tentar formar leitores."

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Hatoum nasceu em 19 de agosto de 1952, em Manaus, no Amazonas. Aos 19 anos, ingressou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), onde fez parte do movimento estudantil e chegou a ser perseguido pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), da ditadura militar.

No início da década de 1980, ele morou na Espanha e na França. Publicou seu primeiro livro, Relato de um Certo Oriente, em 1989. A obra é centrada em uma família de origem libanesa - como a de Hatoum - vivendo em Manaus, e trata de temas como identidade, imigração e o choque cultural entre o Oriente e a Amazônia.

Pelo livro, venceu seu primeiro Prêmio Jabuti, na categoria de melhor romance. Ele ganhou o prêmio novamente em 2001, por Dois Irmãos, e em 2006, por Cinzas do Norte. Ambos os livros também são ambientados em Manaus e ampliam a exploração de Hatoum sobre família, memória, desigualdade e política, entre outros temas que circulam sua obra.

No fim do ano passado, o autor publicou o último livro da trilogia O Lugar Mais Sombrio, um drama familiar entrelaçado à história da ditadura militar em Brasília, nos anos 1960. A série é composta pelos livros A Noite da Espera (2017), Pontos de Fuga (2019) e Dança dos Enganos (2025).

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O trabalho de Hatoum é celebrado internacionalmente: segundo a Companhia das Letras, que publicou a maior parte da obra do autor no Brasil, ele já vendeu mais de 500 mil exemplares em 17 países, entre França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha e México.

Em 2018, ele recebeu o prêmio Roger Caillois (Maison de l'Amérique Latine/Pen Club-França). No ano anterior, foi nomeado Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres pelo Ministério da Cultura e da Comunicação da República Francesa.

Suas histórias também renderam adaptações para a TV e o cinema. Dois Irmãos deu origem à minissérie homônima da TV Globo, de 2017. Retrato de um Certo Oriente virou um filme lançado em 2024, Órfãos do Eldorado, de 2008, originou o longa de 2015, e O Adeus do Comandante, conto do livro A Cidade Ilhada (2009), inspirou O Rio do Desejo, de 2022.

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