'A alma é carioca, o corpito é português': Roberta Medina fala sobre o presente e o futuro do Rock in Rio Lisboa

À sombra do Tejo, com uma "brisa carioca", o Rock in Rio Lisboa se prepara para seu último fim de semana de shows. Enquanto milhares de fãs aguardam as apresentações que encerram mais uma edição do festival, a vice-presidente executiva do evento, Roberta Medina, recebeu a RFI para uma conversa descontraída durante o tradicional evento-teste que antecede a abertura dos portões.

26 jun 2026 - 11h31

Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Lisboa

Entre histórias de bastidores, comparações entre Brasil e Portugal e planos para ampliar a presença internacional do festival, Roberta mostrou por que o Rock in Rio continua sendo muito mais do que uma sequência de concertos. "A alma é carioca, o corpito é português", resumiu, sorrindo, ao olhar para o novo recinto instalado às margens do Tejo.

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O espaço, que pode receber até 100 mil pessoas por dia, representa uma nova fase para o festival em Portugal.

"É um lugar muito especial. Tem uma energia maravilhosa. A expectativa é de dias quentes, então estamos reforçando algumas mensagens importantes para o público: usar transporte coletivo, vir com roupa leve, sapato confortável e beber bastante água", recomenda. 

O ensaio geral antes da multidão

Antes da chegada das dezenas de milhares de espectadores, o festival realiza um evento-teste. Embora pouco conhecido pelo público, ele é fundamental para o funcionamento da operação.

"Só que abrir as portas sem testar é como bater prego no escuro", brinca Roberta.

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Ela explica que o objetivo é colocar toda a estrutura para funcionar simultaneamente antes da estreia oficial. "O evento-teste ajuda a descobrir se há uma fuga de água, um problema numa estrutura ou alguma questão operacional. Depois que entram milhares de pessoas, já não existe mais ensaio".

A dimensão impressiona: mais de 15 mil profissionais são credenciados para trabalhar no festival e cerca de 10 mil entram diariamente para fazer a máquina funcionar.

"Tem muita regra para uma coisa deste tamanho dar certo. Desde saber qual portão usar até conferir se a credencial está correta".

Quem imagina que a executiva conhece todos os segredos dos artistas pode se surpreender. Questionada sobre as participações especiais que costumam marcar o Rock in Rio, Roberta revelou que muitas vezes também é pega de surpresa.

"Comigo acontece imenso", conta, usando uma expressão típica do português europeu. "Às vezes sobe alguém ao palco e eu penso: 'Olha!' Depois digo para a equipe: 'Mas por que não me contaram? Eu podia ter aproveitado isso na comunicação'."

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Mesmo assim, ela admite gostar do fator surpresa. "Eu gosto de ser surpreendida. Faz parte da magia."

O mesmo Rock in Rio, mas diferente

Ao longo dos seus 22 anos em Portugal, o Rock in Rio Lisboa construiu uma identidade própria. Ainda assim, segundo Roberta, a essência permanece a mesma.

"Eles são muito diferentes e, curiosamente, são o mesmo Rock in Rio", Roberta Medina, vice-presidente executiva do evento.

A executiva lembra que o festival brasileiro nasceu em 1985 e se tornou um marco histórico e cultural. "O Rock in Rio Brasil não é apenas um evento incrível. Ele é um fato histórico." Já em Lisboa, a trajetória começou em 2004. "Aqui ele é um evento incrível que cresce pela Europa. Não tem a mesma história de 1985, mas já começa a deixar marcas importantes na indústria portuguesa".

Brasileiros e portugueses: energias diferentes

Um dos momentos mais divertidos da entrevista aconteceu quando a conversa chegou ao comportamento do público. Roberta não esconde o carinho pelos dois lados do Atlântico, mas reconhece diferenças.

"Os portugueses são muito calorosos. Os artistas adoram tocar aqui. Mas o ritmo e a energia do brasileiro estão um andar acima." Ela ri ao imaginar uma situação comum em festivais lotados. "Se você pedir para 90 mil portugueses darem um passinho para o lado, eles vão. No Brasil... esquece".

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A observação vem da experiência acumulada em décadas de organização de grandes eventos. "Em termos de operação, aqui tudo é mais suave."

O impacto econômico

Além da música, o Rock in Rio também movimenta a economia portuguesa. Segundo dados citados por Roberta Medina, um estudo realizado após a última edição apontou um impacto de cerca de 120 milhões de euros em apenas quatro dias de evento.

"É uma coisa impressionante". O perfil dos visitantes reforça esse peso econômico. "60% do público vem de fora da Grande Lisboa e 80% de fora da cidade. Temos pessoas de 125 países."  A internacionalização aparece agora como uma das grandes apostas da organização. 

"Hoje recebemos entre 16 e 17 mil visitantes internacionais. Esse número pode ser triplicado ou quadruplicado com tranquilidade".

Segundo ela, quanto maior for a presença de turistas estrangeiros, maior será o retorno para a cidade. "Isso amplia o impacto econômico, fortalece o turismo e deixa mais recursos em Lisboa". 

Um festival que continua crescendo

Cantor jamaicano Shaggy em concerto em Nova Delhi, Índia, em outubro de 2024. Ele é uma das atrações do Rock in Rio Lisboa.
Cantor jamaicano Shaggy em concerto em Nova Delhi, Índia, em outubro de 2024. Ele é uma das atrações do Rock in Rio Lisboa.
Foto: RFI

Ao entrar no último fim de semana da edição de 2026, o Rock in Rio Lisboa parece viver um momento de maturidade. O novo recinto oferece espaço para crescer, as marcas investem cada vez mais em experiências para o público e a organização aposta numa presença internacional mais forte. Para Roberta Medina, o objetivo continua sendo o mesmo que inspirou a criação do festival há mais de quatro décadas.

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"Quanto mais relevante o Rock in Rio for para a cidade, mais forte fica o projeto", resume Roberta.

E enquanto os últimos artistas se preparam para subir ao palco, ela já tem sua própria prioridade na programação. Quando perguntada sobre quem gostaria de assistir, respondeu sem hesitar: "Shaggy."

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