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Rock in Rio Tem Chuva, Calvin Harris e Hits dos Anos 2000

Terceiro dia reuniu Calvin Harris, Black Eyed Peas, Nelly, Ne-Yo, Barão Vermelho e homenagens a Cazuza e Tim Maia

7 set 2026 - 13h16
Resumo
Sob chuva persistente e frio recorde, o terceiro dia do Rock in Rio 2026 uniu pop, hip-hop, nostalgia dos anos 2000 e música eletrônica. Atrações nacionais como BaianaSystem e Barão Vermelho brilharam tanto quanto as internacionais, incluindo Black Eyed Peas e Ne-Yo. Nelly oscilou fora dos hits, enquanto Calvin Harris fez história ao se tornar o primeiro DJ a fechar o Palco Mundo sozinho, transformando a Cidade do Rock em uma enorme pista de dança e consagrando a força da cena eletrônica no evento.

Rock in Rio 2026 chegou ao terceiro dia com um problema impossível de resolver na produção: o céu. A chuva começou cedo, acompanhou a abertura dos portões e permaneceu por boa parte das horas seguintes, com temperatura chegando a 19,3 °C naquela que foi registrada como a tarde mais fria do ano no Rio. O domingo de ingressos esgotados havia sido programado para pop, R&B, hip-hop, música brasileira e eletrônico; na prática, ganhou também um figurino coletivo formado por capas plásticas, tênis molhados e pessoas decididas a descobrir quanto tempo ainda conseguiriam dançar debaixo d'água.

A chuva chegou a suspender temporariamente os agendamentos de roda-gigante e tirolesa por segurança, dificultou deslocamentos e deixou a Cidade do Rock menos confortável desde as primeiras horas. O efeito sobre os shows, porém, foi curioso. No dia anterior, a água já havia reduzido a quantidade de celulares permanentemente erguidos. No domingo, essa transformação ficou ainda mais visível: guardar o aparelho deixou de ser escolha contemplativa e virou proteção patrimonial. Com isso, boa parte do público acompanhou os palcos com menos mediação entre olhos e artistas, mesmo que ninguém tivesse planejado uma experiência "detox digital".

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O terceiro dia também apresentou uma mudança radical em relação ao sábado. Depois de Sepultura, Bring Me The Horizon, Bad Omens e Avenged Sevenfold, a Cidade do Rock virou território de groove, refrões pop, R&B, hip-hop, soul, reggae, funk e house. A programação oficial colocava Calvin Harris, Black Eyed Peas, Nelly e Barão Vermelho no Mundo; Ne-Yo, Jota Quest tocando Tim Maia, BaianaSystem e Calema no Sunset; e Sofi Tukker, Liu, Casa Bonita e MEDUZA³ no New Dance Order.

A troca de estilos produziu outra forma de participação. No sábado, a imagem recorrente era a roda punk. No domingo, quadris, braços e coros coletivos assumiram o gramado. Depois de três dias, o festival também começa a revelar uma tendência bastante boa para sua curadoria: os artistas brasileiros frequentemente estão entregando apresentações tão fortes quanto e, em alguns casos, mais completas do que atrações internacionais posicionadas acima deles no cartaz.

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Barão Vermelho Fez a Chuva Parecer Parte da Memória

Barão Vermelho | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@DiegoPadilha)
Barão Vermelho | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@DiegoPadilha)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

O Barão Vermelho abriu o Palco Mundo às 16h40 sob chuva persistente e diante de um público que ainda chegava coberto por capas. A reunião de Roberto Frejat, Guto Goffi, Maurício Barros e Dé Palmeira, acompanhados por Fernando Magalhães, carregava uma relação histórica evidente com o festival: em janeiro de 1985, a banda ocupou a primeira Cidade do Rock ao lado de Cazuza. Quarenta e um anos depois, a formação voltou ao palco principal sabendo que qualquer homenagem mal dosada poderia transformar o show em exposição de arquivo.

A apresentação encontrou um caminho melhor ao fazer o passado aparecer dentro das próprias músicas. "Maior Abandonado", "Pense e Dance", "Bete Balanço", "Meus Bons Amigos" e "Tão Longe de Tudo" criaram uma primeira parte guiada pelo catálogo da banda, enquanto a homenagem a Cazuza foi crescendo sem interromper esse fluxo. "O Tempo Não Para" e "Codinome Beija-Flor" carregaram naturalmente a lembrança do cantor, mas o momento de maior carga emocional veio em "Todo Amor Que Houver Nessa Vida".

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Frejat cantou diante de imagens de Cazuza nos grandes painéis do Mundo, criando um dueto entre registros separados por décadas. O recurso poderia facilmente cair no sentimentalismo calculado, principalmente num festival que conhece muito bem o valor comercial da nostalgia. Funcionou porque o reencontro daquela formação já carregava história suficiente e porque a música dispensava qualquer dramatização adicional. A imagem de Cazuza diante de milhares de capas de chuva fez o palco de 2026 conversar diretamente com o Rock in Rio de 1985.

A reta final abandonou qualquer delicadeza prolongada. "Por Você", "Vem Quente Que Eu Estou Fervendo", "Malandragem Dá um Tempo", "Puro Êxtase", "Por Que a Gente É Assim?" e "Pro Dia Nascer Feliz" deixaram o público dançando num momento em que o clima já havia tornado ficar parado uma péssima estratégia contra o frio. Foi um começo de Palco Mundo sustentado por repertório e história brasileira, sem precisar tratar a posição das 16h40 como simples preparação para os estrangeiros.

Nelly Trouxe os Anos 2000, Mas Demorou Para Encontrar o Público

Nelly | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@VansBumpeers)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

A estreia de Nelly no Brasil carregava uma promessa fácil de entender. Boa parte de seus maiores sucessos pertence ao período em que videoclipes, MTV, rádios e CDs faziam "Country Grammar", "Hot in Herre", "Ride Wit Me" e "Dilemma" circular muito além do hip-hop. O Rock in Rio já percebeu há algumas edições o potencial de artistas de R&B e rap dos anos 2000 para uma plateia que hoje chega ao festival adulta e pronta para cantar repertórios associados à adolescência.

O começo, contudo, teve dificuldade para justificar o tamanho do Mundo. A formação com DJ e backing vocal colocava quase toda a responsabilidade da apresentação sobre Nelly, e as músicas menos reconhecidas recebiam respostas bem mais discretas. O show começou a crescer quando "Country Grammar" apareceu e ganhou força na reta final, quando o rapper concentrou justamente aquilo que aquela plateia parecia ter ido buscar: memória afetiva. "Hot in Herre", "Dilemma" e "Just a Dream" mudaram a reação do gramado e finalmente fizeram o Palco Mundo responder com volume compatível com o repertório.

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"Dilemma" produziu uma das imagens esperadas da noite quando Nelly pediu que o público acendesse as lanternas dos celulares. Depois de horas protegendo aparelhos da chuva, milhares deles reapareceram para iluminar o Mundo. Há alguma ironia nisso: justamente num domingo em que o telefone teve menos protagonismo por causa do clima, uma música de 2002 conseguiu trazê-lo de volta como elemento cênico.

O principal limite do show estava na dependência quase completa desse reconhecimento. Quando os hits apareciam, a apresentação justificava a espera. Fora deles, a energia caía. Nelly entregou uma viagem eficiente à primeira década dos anos 2000, mas ficou abaixo de outros artistas do domingo quando a comparação envolve construção de palco, risco e capacidade de transformar uma plateia que já não conhece cada música.

BaianaSystem Fez o Sunset Esquecer Que Estava Chovendo

Baiana System | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@OxiDany)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

Enquanto o Mundo trabalhava fortemente com memória, o BaianaSystem levou ao Sunset um show interessado em deslocamento físico. A banda apareceu com Alice Carvalho, Antônio Carlos & Jocafi, Afrossinfônicas e Ranking Joe, reuniu "Água", "Sulamericano", "Lucro (Descomprimindo)", "Balacobaco", "Saci" e outras faixas, e tratou a chuva como mais um elemento dentro de uma apresentação que já possui a rua como referência central.

BaianaSystem funciona especialmente bem em festival porque sua música foi construída para circulação. Guitarra baiana, graves, reggae, dub, frevo, ijexá, rap e percussão produzem um som que depende tanto do movimento da plateia quanto da execução no palco. A relação entre os músicos e o público guarda algo dos trios elétricos e do Navio Pirata: existe direção, mas a energia retorna constantemente do gramado para a banda. A água não interrompeu esse circuito; tornou a entrega mais física.

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Alice Carvalho acrescentou uma presença teatral que conversa com o universo visual do show, deixando no ar um gostinho de quero mais. Antônio Carlos & Jocafi lembraram que a invenção musical baiana trabalhada pelo grupo possui raízes anteriores ao próprio BaianaSystem, enquanto Ranking Joe trouxe o reggae jamaicano para uma apresentação que já faz essa ponte há anos. O resultado foi um dos encontros brasileiros mais bem resolvidos do domingo, justamente porque cada convidado ampliava uma parte da linguagem da banda.

O desempenho reforçou uma tendência observada ao longo do primeiro fim de semana. Capital Inicial, Detonautas com Biquini, Black Pantera com Nervosa, Sepultura, Barão Vermelho e BaianaSystem tiveram respostas capazes de rivalizar com vários internacionais. O público brasileiro conhece as letras, mas o reconhecimento sozinho não explica tudo. Os melhores desses shows chegaram com propostas pensadas para aquele palco, enquanto algumas atrações estrangeiras confiaram demais no peso do nome.

Jota Quest Encontrou Tim Maia Sem Virar Banda de Karaokê

Jota Quest | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@AlexWoloch)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

Pouco depois, o Jota Quest enfrentou outro tipo de risco. Um show inteiro dedicado a Tim Maia poderia facilmente funcionar como coleção competente de versões. A banda, porém, possui uma relação antiga com soul, funk e disco, o que torna esse repertório muito mais próximo de sua própria formação musical. O projeto "Jota Quest & Tim Maia: Dance Enquanto É Tempo" foi criado a partir dessa afinidade e ganhou no Sunset uma produção voltada para metais, backing vocals e balanço.

"Dance Enquanto É Tempo", "Acenda o Farol", "Você", "Vale Tudo" e "Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)" encontraram um público que dispensava qualquer apresentação. O repertório de Tim Maia possui uma característica valiosa para festival: mesmo quem não acompanha sua discografia conhece mais músicas do que imagina. Rogério Flausino soube usar isso, abrindo espaço para os coros e evitando transformar sua interpretação numa tentativa de reproduzir a voz original.

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O momento mais emocionante veio com Tony Tornado, aos 96 anos, cantando "Sossego" ao lado do filho Lincoln Tornado. A presença de Tony carregava muito mais do que a surpresa de ver um artista veterano entrando no palco. Sua própria trajetória está ligada à formação da black music brasileira, o que colocava diante do público alguém pertencente ao mesmo ambiente artístico que ajudou a tornar Tim Maia possível. A vitalidade com que comandou a música rapidamente transformou participação especial em um dos grandes momentos do terceiro dia.

Negra Li ainda participou de "Descobridor dos Sete Mares", enquanto Flausino chegou a descer para perto do público durante a apresentação. Entre tantos reencontros com os anos 1980 e 2000 naquele domingo, o Jota Quest olhou ainda mais para trás e mostrou que parte da festa brasileira que hoje aparece no pop nasceu de uma tradição de soul e funk nacional construída há décadas.

Black Eyed Peas Entendeu Que Nostalgia Precisa de Movimento

Black Eyed Peas | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@VansBumpeers)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

O Black Eyed Peas encontrou um cenário muito mais favorável do que Nelly porque seu catálogo foi construído para grandes multidões. "Let's Get It Started", "Boom Boom Pow", "Rock That Body", "Pump It", "The Time (Dirty Bit)" e "I Gotta Feeling" formam praticamente uma linha do tempo da festa pop dos anos 2000 e início dos 2010. Debaixo de chuva, esses refrões tiveram uma função adicional: manter milhares de pessoas em movimento.

J. Rey Soul ocupou os vocais femininos sem tentar reproduzir Fergie, ausência que inevitavelmente paira sobre qualquer show atual do grupo. A apresentação ganhou personalidade quando saiu do repertório esperado e começou a dialogar com o Brasil. Papatinho entrou para um bloco que passou por "Eu Só Quero É Ser Feliz" e referências ao funk carioca, e a colaboração inédita "We Live Up in Here" foi apresentada pela primeira vez diante do Palco Mundo.

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Will.i.am ainda prestou homenagem a Sérgio Mendes através de "Mas Que Nada", composição de Jorge Ben Jor que se tornou mundialmente conhecida também pelas gravações de Mendes. Essa relação com música brasileira evita que a participação de Papatinho pareça um enxerto produzido exclusivamente para aplauso local. O Black Eyed Peas possui histórico de aproximações com o país e, em 2019, havia recebido Anitta no mesmo festival.

O show alcançou seus melhores minutos quando parou de tentar apresentar faixas e passou a funcionar como sequência de gatilhos coletivos. "Pump It", "The Time" e "I Gotta Feeling" chegaram praticamente prontas para uma plateia de festival. Quem passou a adolescência ou juventude nos anos 2000 não precisava se lembrar de cada verso; bastavam os primeiros segundos para reconhecer o lugar que aquela música ocupava na própria vida.

Esse mecanismo pode virar comodismo, mas o grupo trabalhou bem o palco, os convidados e os painéis. Entre as atrações internacionais daquele domingo, foi uma das que melhor entendeu que memória afetiva precisa de alguma ação no presente para continuar viva.

Ne-Yo Fez do Sunset Um Show de R&B Sem Economizar Hit

Ne-Yo | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilms/@Lali_Moss)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

Ne-Yo entrou às 22h45 com um repertório quase perverso para qualquer pessoa que tenha ouvido rádio entre 2005 e 2012. "Closer", "Because of You", "One in a Million", "Miss Independent", "Sexy Love", "So Sick", "Mad" e "Beautiful Monster" aparecem em uma hora que ainda reserva músicas compostas por ele para outros artistas, como "Take a Bow", de Rihanna, e "Irreplaceable", de Beyoncé.

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A banda e os dançarinos ajudam a colocar distância entre o show e uma simples sequência de bases, enquanto Ne-Yo preserva aquela combinação de elegância e sensualidade que marcou sua imagem pública nos anos 2000. A relação com a primeira fileira ganhou um momento especial quando ele desceu para cumprimentar fãs junto à grade, reduzindo por alguns minutos a distância de um Sunset já consolidado como segundo grande palco do festival.

A programação criou ainda uma pequena ponte perfeita para o headliner. Ne-Yo encerrou com "Let's Go", parceria que gravou justamente com Calvin Harris. Poucos minutos depois, o DJ escocês assumiria o Mundo. É uma "coincidência" musical que ajuda bastante um festival de vários palcos a parecer menos fragmentado: duas apresentações distintas acabaram ligadas por uma mesma música.

O Sunset terminou, assim, com um artista internacional utilizando hits antigos sem depender exclusivamente da saudade. Ne-Yo ainda canta, dança, conversa e possui domínio de palco suficiente para sustentar o repertório. Entre os nomes nostálgicos do domingo, foi um dos que melhor preservou a sensação de show completo.

A Eletrônica Ocupou Dois Palcos e Finalmente Chegou ao Topo

Sofi Tukker | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@LuaraBaggi)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

O domingo também marcou 25 anos da presença estruturada da música eletrônica no Rock in Rio. Em 2001, o gênero ocupava uma tenda própria. Passou por diferentes formatos nas edições seguintes e chegou a 2026 com um New Dance Order de 56 metros de largura, 22 de comprimento e 502 m² de LEDs, concebido para aproximar os DJs do público.

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A programação do terceiro dia ofereceu uma boa medida dessa evolução. Sofi Tukker levou seu formato performático e pop para o NDO; Liu, um dos brasileiros de maior projeção na eletrônica, assumiu a sequência; o projeto Casa Bonita, de Brisotti e Viot, manteve a pista durante a madrugada; e o MEDUZA³ encerrou o espaço às 1h40. O trio italiano chegou ao festival com bilhões de reproduções acumuladas e uma discografia que ajudou o house melódico a furar a bolha dos clubes.

O ponto mais simbólico, contudo, aconteceria alguns metros adiante. Pela primeira vez em mais de quatro décadas de festival, um DJ ocuparia sozinho a posição de headliner do Palco Mundo. A eletrônica havia passado de tenda complementar para atração responsável pelo último show da principal estrutura da Cidade do Rock.

E isso reflete muito sobre o que é o Rock in Rio. O festival continua carregando guitarras no nome e em boa parte de sua história, mas seus palcos já representam há muito tempo hábitos de consumo musical que não respeitam divisões tão rígidas. A geração que canta Foo Fighters na sexta, abre roda para Bring Me The Horizon no sábado e dança Calvin Harris no domingo não parece enxergar qualquer contradição nessa sequência.

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Calvin Harris Fechou o Domingo Sem Precisar Fingir Que Um DJ É Uma Banda

Calvin Harris | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@MareFemiani)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

Às 0h05, Calvin Harris subiu sozinho diante do Palco Mundo. Essa imagem já carregava um pequeno teste para o festival. Depois de décadas acostumado a grandes bandas, cantores, baterias, bailarinos e cenários ocupando aquela estrutura, o público encontrava um único homem atrás de equipamentos. O caminho escolhido foi assumir completamente a natureza de um set eletrônico, em vez de enchê-lo de convidados para justificar visualmente o tamanho do palco.

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"Sweet Nothing" abriu a apresentação e iniciou uma sequência sustentada por um catálogo absurdo de sucessos. "Outside", "I Need Your Love", "Miracle", "Summer", "Blame", "One Kiss", "This Is What You Came For", "We Found Love", "Feel So Close", "Under Control", "How Deep Is Your Love" e "Bounce" passaram pelo set, junto a clássicos de pista como "Insomnia", do Faithless, "Children", de Robert Miles, e "Hey Boy Hey Girl", do Chemical Brothers.

A ausência física de Rihanna, Dua Lipa, Ellie Goulding e outros colaboradores poderia destacar uma limitação evidente: boa parte das músicas mais conhecidas de Calvin ganhou fama através das vozes de outras pessoas. Na Cidade do Rock, essa ausência acabou reforçando a lógica da pista. Os vocais gravados são reconhecidos instantaneamente, o DJ trabalha transições e o público assume as partes que conhece. A pessoa no centro da experiência deixa de ser quem está atrás da mesa e passa a ser quem dança diante dela.

Os novos painéis do Mundo ajudaram bastante nesse desenho. Em vez de manter Calvin ampliado o tempo inteiro, as telas mostraram repetidamente a própria plateia. Quanto mais distante da grade, mais espaço havia para dançar; a área posterior do gramado virou uma pista ampla, com grupos espalhados, capas molhadas e gente que já havia passado quase 12 horas debaixo de chuva.

Calvin Harris venceu justamente por não tentar provar que música eletrônica precisava imitar outro formato para merecer aquele palco. O set foi gigantesco porque o catálogo era gigantesco, a produção visual trabalhava a escala e o público queria dançar. O encerramento consolidou uma mudança que o Rock in Rio vem preparando há anos: a eletrônica já possui tamanho suficiente para comandar sozinha a principal estrutura do festival.

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A Chuva Tirou Conforto e Deu ao Dia Uma Imagem Própria

Palco Mundo | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@VictorCarvalho)
Foto: Imagem: Reprodução/Woo! Magazine / Woo! Magazine

O domingo teve um custo físico maior do que a escalação sugeria. Frio, tênis encharcados, roupas molhadas e brinquedos temporariamente suspensos acompanharam uma programação feita justamente para movimento. Para quem chegou às 14h e permaneceu até Calvin Harris, foram quase 12 horas em condições que tornavam qualquer pausa mais difícil.

Essa resistência ajuda a explicar por que determinados shows cresceram tanto. O Barão Vermelho encontrou uma plateia que já havia decidido enfrentar o clima. BaianaSystem ofereceu movimento quando parar significava sentir frio. Black Eyed Peas entregou uma coleção de músicas associadas à festa. Ne-Yo levou R&B para um público preparado para cantar e dançar. Calvin recebeu a Cidade do Rock no ponto em que já não havia muito sentido em tentar preservar roupa ou cabelo.

Também houve apresentações menos consistentes. Nelly demorou para encontrar resposta fora dos hits e acabou dependendo fortemente da nostalgia. Algumas atrações menores sofreram com público reduzido porque a chuva tornou a circulação mais seletiva: cada deslocamento passou a exigir uma decisão maior. E a interrupção temporária dos brinquedos mostrou um limite prático de uma Cidade do Rock que tenta oferecer dezenas de experiências paralelas, mas continua submetida ao clima.

Os grandes destaques brasileiros equilibraram bem essa conta. O encontro do Barão com sua própria história, BaianaSystem controlando o Sunset e Jota Quest transformando Tim Maia em repertório de festival estiveram entre as apresentações que melhor aproveitaram o domingo. Tony Tornado cantando "Sossego" aos 96 anos talvez tenha sido a imagem humana mais bonita da noite.

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O terceiro dia começou sob uma chuva que parecia pronta para atrapalhar tudo e terminou com milhares de pessoas ainda dançando depois da meia-noite.O Rock in Rio passou décadas aprendendo a receber estilos diferentes dentro da mesma Cidade do Rock. No domingo, eles já pareciam morar ali.

E quando Calvin Harris encerrou o Mundo depois de Barão Vermelho, Nelly e Black Eyed Peas, aquela sequência estranha no papel fez bastante sentido diante do palco.

Calvin Harris | Imagem Destacada: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@Shourico)

Publicado originalmente na Woo! Magazine.

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