Vinte anos após sua última visita ao Brasil, Robbie Williams apresentou-se em São Paulo com a turnê Britpop, reafirmando seu status de rei do entretenimento. Acompanhado por uma banda afiada de dez músicos e bailarinas, sem bases pré-gravadas, o britânico uniu elegância, teatralidade e bom humor. O repertório misturou sucessos como Rock DJ, Feel e Angels a covers de Sinatra e Oasis, além de homenagens à família e interação constante com a plateia em uma noite vibrante e totalmente ao vivo.
Já havia passado mais de uma hora de show no Nubank Parque, em São Paulo, quando Robbie Williams ajoelhou-se no chão, vestindo um terno rosa choque, para dar um grito demonstrando seu alcance vocal durante "Theme from New York, New York", clássico eternizado por Frank Sinatra. Talvez seja o gesto mais representativo deste artista britânico de 52 anos. O autoproclamado "rei do entretenimento" consegue ser, ao mesmo tempo, elegante (pelo figurino) e positivamente deselegante (por aceitar o risco de sujar a calça do joelho para baixo). Apresenta beleza e feiura. Referências refinadas e palavrões. Voz limpa com um fundinho levemente distorcido.
Foi essa deliciosa combinação que sustentou sua apresentação única no Brasil, realizada na última terça-feira, 13, vinte anos após sua visita anterior ao país. Desta vez, ele trouxe a turnê Britpop, amparado por um repertório que atravessa boa parte das três décadas de carreira solo e acompanhado de uma banda tão robusta a ponto de tornar desnecessário o uso de qualquer material pré-gravado. É tudo ao vivo o que sai das bocas e/ou instrumentos de Williams, Gary Nuttal (guitarra), Tom Longworth (guitarra), Jeremy Meehan (baixo), Karl Brazil (bateria), Owen Parker (teclados), Sara-Jane Skeete (backing vocals), Elle Cato (backing vocals), Ben Edwards (trompete), Mike Kearsey (trombone) e Mark Brown (saxofone). Sim, um grupo de dez músicos o acompanha — fora o sexteto de bailarinas. Tudo pelo entretenimento.
Robbie, cabe destacar, é uma figura peculiar na música mainstream. Surgiu como integrante do Take That, mas mostrou rapidamente ser muito mais do que um ex-membro de boyband. Sua música é pop, mas com rara autenticidade roqueira neste segmento. Ao mesmo tempo, há um apelo pop tão precioso em seu rock que não dá para o rotular como "roqueiro". Flertou ainda com funk/disco, rap (embora péssimo nesta arte), eletrônico e mais, sem abdicar de sua personalidade dicotômica e teatral. Desenvolveu, aliás, a persona "rei do entretenimento" não somente das décadas se apresentando em arenas lotadas: seu pai, Pete Williams, era um policial que também se apresentava como cantor e comediante. Ele ainda é vivo e foi citado pelo filho antes da execução de "My Way" (Frank Sinatra), mas está bastante debilitado pelo Parkinson.
A abertura do show não poderia ser outra. "Let Me Entertain You", com seu piano percussivo, guitarras incisivas e refrão explosivo, estabeleceu imediatamente o tom divertido da noite. A música, que mistura a energia do glam rock a uma irresistível jungle beat, parece ter sido criada para introduzir o personagem que Williams gostaria de interpretar. Não por acaso, tornou-se uma de suas aberturas de show mais frequentes. Não à toa, foi celebrada por cada presente do estádio — que, sim, estava menos cheio que o usual, algo notado desde as cadeiras superiores fechadas até os espaços generosos nas pistas.
O artista não demorou a ocupar todos os espaços disponíveis, inclusive a passarela no meio da plateia, onde passou parte considerável do show. Pouco tardou a demandar todo tipo de interação do público. A música seguinte, "Rocket", é uma das duas representantes do álbum Britpop (2026) e traz Tony Iommi (Black Sabbath) na gravação original. Ao vivo, soou pesada e manteve a aura roqueira da canção anterior. No fim, o astro conversou por consideráveis minutos com os presentes. Rolou de tudo: um apontamento de que encontrou um fã com quem dormiu 20 anos antes (um barbado grisalho), competição de "na na na" entre lados da pista, palavras como "entretenimento" e "m*rda" em português e a confissão de que segue se apresentando para pagar as contas de seus quatro filhos.
A transição para a envolvente "Rock DJ" pareceu natural. Construída sobre uma base de disco e funk, com referência a "It's Ecstasy When You Lay Down Next to Me" (Barry White), a música ganhou contornos de uma festa com direito a Williams trajando um casaco de pele. Talvez tenha sido cedo demais para a canção posterior, a balada "Strong", mas ainda é divertido de se assistir pois, aqui, Williams desceu até o povo e se debruçou nele enquanto cantava. Ainda que o set tenha ficado morno com a elegante "Supreme" e sua citação a "I Will Survive" (Gloria Gaynor) somada ao retíssimo alt-rock "Pretty Face", outra do novo disco e trazendo referência a "Smells Like Teen Spirit" (Nirvana) ao fim, Robbie não perdeu a plateia. Todos ainda estavam em sua mão.
"Love My Life" rendeu um momento pessoal, pois foi dedicada à esposa, Ayda Field, e aos filhos. "Meu filme [Better Man] acaba quando chego aos 27 anos, mas minha vida só começou quando conheci minha mulher [aos 32]", diz, antes de entoar a baladinha água com açúcar, mas convincente no contexto do repertório. Ainda em ritmo lento, mas com uma construção folk bem mais interessante, "Better Man" torna o espetáculo mais interessante. Imagens da mencionada cinebiografia homônima surgem no telão enquanto Williams canta sobre reconhecer os próprios erros e tentar se tornar alguém melhor — tema que ganha outra dimensão diante do relato familiar feito minutos antes.
A seção seguinte, guiada apenas por violão e voz, aproveitou a familiaridade do público com seu catálogo. O inglês emendou trechos de "Angels", "Tripping" e "Candy", além de boa parte de "Sexed Up" ("essa tocava em um programa de TV", relembra, em referência à novela Mulheres Apaixonadas), em meio a brincadeiras sobre o Brasil: de "estou em São Paulo ou Brasília?" a "eu, o maior performer ao vivo, nunca fui chamado para tocar no Rock in Rio, acredita?". Quase todas as muitas conversas com a plateia na noite foram bem-humoradas. E sempre no tom certo, como o visto antes do cover de "Wonderwall", do Oasis. "Essa música não é minha", disse ele sobre o hit dos irmãos Gallagher, inicialmente seus amigos, depois desafetos. Numa turnê chamada Britpop, certamente a versão encaixou.
"Something Beautiful" começa de maneira delicada e cresce até um refrão pouco memorável, ainda que o andamento geral seja elegante. Já "Millennium" é um exemplo curioso do pop meticuloso de Williams, com metais, ambientação dourada e coreografia das bailarinas, vestidas de gala sobre plataformas escondidas pelos vestidos. É nesse momento que o cantor reaparece com o citado terno rosa, comendo uma banana atrás de um teclado, antes de "Theme from New York, New York". Williams não faz feio justamente porque rejeita se transformar em Sinatra.
A sequência desemboca em "No Regrets", um pop rock atmosférico e ligeiramente tenso. Seu refrão grave evita a catarse habitual do repertório. Nada de recompensa imediata — diferentemente do vindouro momento, no qual Robbie apresenta, despojadamente, cada membro de sua banda com um trecho de música. A saber, foram tocadas as seguintes canções para os devidos integrantes:
- "Ace of Spades" (Motörhead) — Tom Longworth (guitarra)
- "Seven Nation Army" (White Stripes) — Jeremy Meehan (baixo)
- "Hips Don't Lie" — Karl Brazil (bateria)
- "Livin' on a Prayer" (Bon Jovi) — Sara-Jane Skeete (backing vocals) e Elle Cato (backing vocals)
- "Acenda o Farol" (Tim Maia) — Ben Edwards (trompete), Mike Kearsey (trombone) e Mark Brown (saxofone)
- "Take on Me" (A-ha) — Owen Parker (teclados)
- "Hey Jude" (Beatles) — Gary Nuttal (guitarra, também cantando)
Da seleção, destacaram-se a pesada "Ace of Spades" e "Take on Me", com trechos mais consideráveis tocados e até cantados por Robbie, e "Acenda o Farol", um inesperado aceno à música brasileira. Abriram alas para a seção final do repertório pré-bis, com a power ballad "Come Undone", a roqueira e sensual "Kids", a afável "She's the One" (executada como uma serenata para a fã Ana Cecília, filmada na grade durante toda a canção) e outra homenagem a Frank Sinatra, com "My Way". Esta foi dedicada a Pete, pai e descrito como "herói" de Robbie, e teve no telão uma série de fotos antigas, com direito ao astro apresentar cada um de seus quatro filhos.
O bis funcionou como uma confirmação de que Williams, ainda que eventualmente com um ajuste de tamanho de local para show, precisa fazer o que prometeu minutos antes: voltar dentro de dois anos. "Feel", uma das melhores músicas de seu catálogo, foi interpretada de modo climático, com iluminação escura e zero irreverência de sua parte. "Angels", como era de esperar, encerra o concerto transformando o Nubank Parque em coro coletivo. Apropriadíssimo.
Quando este repórter conversou com Robbie Williams, em entrevista publicada na nova edição impressa da Rolling Stone Brasil, o artista cravou: "meu primeiro dever é te entreter". "Não é cantar afinado ou demonstrar emoção com paixão da maneira correta — é fazer você sentir algo com os poucos talentos que tenho", complementou. Missão cumprida. Seu show é perfeito com as devidas imperfeições. Milimetricamente preciso com as partes improvisadas. Ora teatral, ora irreverente. Elegante e debochado. A perfeita contradição que só um ótimo espetáculo de entretenimento consegue oferecer.
Setlist — Robbie Williams em São Paulo:
1. Let Me Entertain You
2. Rocket
3. Rock DJ
4. Strong
5. Supreme
6. Pretty Face
7. Love My Life
8. Better Man
9. Medley: Angels / Tripping / Sexed Up / Candy
10. Wonderwall (cover do Oasis, em versão acústica)
11. Something Beautiful
12. Millennium
13. Theme from New York, New York (cover de Frank Sinatra)
14. No Regrets
15. Medley de apresentação da banda: Ace of Spades (Motörhead) / Seven Nation Army (The White Stripes) / Hips Don't Lie (Shakira) / Livin' on a Prayer (Bon Jovi) / Acenda o Farol (Tim Maia) / Take On Me (A-ha) / Hey Jude (Beatles)
16. Come Undone
17. Kids
18. She's the One (cover do World Party; dedicada à fã Ana Cecília)
19. My Way (cover de Frank Sinatra)
Bis:
20. Feel
21. Angels