Glen Hansard afastou-se do microfone, caminhou até a beira do palco e gritou as palavras "Eu tenho um lar no alto". Vindo da tradição irlandesa de músicos de rua, Hansard cantava dessa maneira desde sempre. Então, quando se deparou com alguns problemas de som no meio de uma apresentação fascinante no Carnegie Hall, em março de 2019, onde participava de uma homenagem ao seu ídolo, Van Morrison, Hansard arrancou o cabo do violão, aproximou-se da plateia e transformou o histórico teatro de 2.800 pessoas em mais um pub apertado ou esquina de rua em Dublin.
Hansard interpretava "Astral Weeks" de Morrison — sua estrela guia musical — e oferecia o tipo de performance solo acústica eletrizante pela qual era mais conhecido e amado. Ele dedilhava o violão tão rápido que mal se via sua mão direita se mover, gritava e cantava com toda a força a ode divina de Morrison à correnteza, transformando a canção sinuosa, de alguma forma, em um coro coletivo com a plateia. Ele pregava e profetizava, oferecendo lições de vida em meio às suas instruções de chamada e resposta. "Quando você canta com o coração", disse Hansard à plateia no meio da música, quase como um aparte, "você nunca desafina."
Hansard, o cantor e compositor irlandês cuja morte chocante aos 56 anos em um acidente de moto na manhã de ontem, 29, ainda está sendo assimilada por fãs, amigos e familiares, era mais conhecido como o músico de rua comovente que se tornou um baladeiro, como exemplificado naquela noite no Carnegie Hall. Mas sua música era frequentemente muito mais sombria e musicalmente inquietante do que qualquer um poderia imaginar se o conhecesse (para seu grande desgosto), seja como o jovem baixista
OutspanFosterem
, de 1991, ou, mais comumente, como a versão decadente de si mesmo que interpretou em
Once- Apenas Uma Vez, o filme de 2007 que se tornou um sucesso estrondoso, um musical da Broadway e, por fim, o projeto com o qual ele foi mais intimamente associado.
Hansardera muito mais do que isso. Ele era uma estrela do rock, um sintetizador e um serenador, um artista de rua e um bardo, um jazzista e um místico, um sussurrador folk discreto e um cantor de soul de sucesso, tanto um inovador inquieto que se rebelava contra as expectativas depositadas nele quanto um contador de histórias que agradava o público, cujas narrativas não musicais podiam ser quase tão envolventes quanto as melhores canções que ele escreveu. (Pare tudo e ouça sua história de 10 minutos sobre a noite em que conheceu
Morrison, se você ainda não a ouviu.) As canções que
Hansardescreveu eram contos de loucura e misericórdia, frequentemente repletos de tensão não resolvida e dissonância latente, assim como de libertação catártica. Ele era tanto um cantor e compositor pós- Dylan, dedilhando músicas originais que expressavam sua compreensão do mundo, quanto um intérprete profundo e tradicional de obras de outros artistas, alguém que frequentemente demonstrava mais de si mesmo em suas performances de canções alheias do que de suas próprias: veja sua fascinante apresentação de 2012 de "
DriveAll Night", de Bruce Springsteen, que é menos uma versão cover e mais um diário musical de toda a trajetória musical de
Hansard.
Logo após testemunhar
Hansardroubar a cena completamente no Carnegie Hall com sua performance de rua inspirada em
Van Morrisonna primavera de 2019, eu o entrevistei para a
Rolling Stonesobre seu próximo álbum solo. Quando perguntei de onde ele estava me ligando, suas habilidades de contador de histórias se destacaram.
"Estou num jardim lindo, onde tudo está repleto de luz", disse ele. "Acabei de dar uma olhada na minha moto e ela está funcionando perfeitamente, e é um dia de primavera perfeito na Irlanda, o que é raríssimo. Estou nas nuvens por estar aqui."
Mas o tom que
Hansardadotou em nossa conversa não era de pura satisfação. Ele parecia quase frustrado — com a forma como o mundo o via como aquele cara de
Once, e com a forma como ele próprio se via, às vezes, como aquele cara de
Once. Depois de fazer o filme,
Hansardformalizou uma relação musical na vida real com sua co-estrela e colaboradora,
Markéta Irglová, e eles fizeram uma turnê mundial juntos como
The Swell Season, mas quando conversamos, já fazia algum tempo que não se apresentavam juntos.
Ele me contou que seu álbum solo anterior,
Between Two Shores, de 2018, foi o primeiro disco em que sentiu que havia feito um trabalho meio preguiçoso. Explicou que estava determinado a fazer o oposto em seu próximo álbum. Esse novo álbum,
This Wild Willing, de 2019, foi, segundo
Hansard, uma expressão muito mais autêntica de para onde ele sentia que sua música, arte e vida o haviam levado na meia-idade. Ele disse que pensou muito, enquanto fazia o disco, sobre o apelido jocoso que o músico
Nico Muhlylhe dera certa vez:
Earnest Strum(Toque Sincero). Ele queria fazer o álbum anti-Earnest Strum.
"Estou meio entediado com a música que faço", disse ele. "Tive que deixar de lado quem é Glen Hansard, quem é Earnest Strum. Tive que deixar de lado a ideia de ser um cantor folk."
Hansard destacou a faixa de abertura daquele disco: "
I'll Be You, Be Me", uma faixa tempestuosa com loops de bateria e um sample de Queen/ Bowie que apresenta três minutos de sussurros de
Hansardantes de se desfazer completamente em uma onda de ruído de guitarra e cantos vocais.
"O cara que escreveu 'Falling Slowly'", disse
Hansard, referindo-se à sua balada vencedora do Oscar pela trilha sonora de
Once, "e o cara que escreveu 'I'll Be You, Be Me' é o mesmo cara."
A verdade é que
Hansardera tudo isso. Como vocalista da influente banda de rock irlandesa
The Frames, como metade da dupla
The Swell Seasone como artista solo,
Hansardfoi um dos cantores e compositores mais queridos de sua geração. Ele canalizou seus muitos heróis musicais em suas composições e em seu estilo de performance intimista, que sempre remetia às suas raízes como alguém que cantava para transeuntes aleatórios na rua.
O que significou para o cara do
Once, fã de
Van Morrisone músico de rua, abandonar a ideia de ser um cantor folk? "A estrutura das canções mudou", disse ele em 2019. "Essa coisa de 'verso/refrão' já era, sumiu, não faz mais sentido. Então, de certa forma, estou lutando e batalhando com a música que estou fazendo porque ela segue o mesmo formato tradicional dos meus ídolos, Leonard Cohen e Joni Mitchell."
Essa foi uma tensão com a qual ele pareceu lidar pelo resto de sua carreira, inclusive em seu álbum solo mais recente, o ousado
All That Was East Is West Of Me Now, de 2022. "Estou pisando com cuidado/Estou aprendendo a dançar", cantava
Hansard, de fato em seu estilo mais à la
Cohen, em uma das músicas. "Tenho 52 rosas brancas como leite para os anjos do acaso." Mesmo quando finalmente se reuniu, no ano passado, com Irglová para o primeiro álbum do
Swell Seasonem 16 anos, o título do álbum —
Forward— pareceu indicar certa relutância em relação ao risco de nostalgia decorrente de tal reunião.
Tentar ouvir a música de
Hansardatravés do prisma de sua morte chocante é uma tarefa inútil;
Hansardestava muito interessado e investido na força espiritual, emocional e política da vida e da vitalidade para ter muito interesse em escrever sobre, ou mesmo contemplar, a mortalidade em sua própria obra. Ele era, como seu herói místico,
Morrison, continuamente interessado em explorar, questionar, celebrar e lamentar a dor desconcertante e o mistério sempre presente e alegre do simplesmente acordar a cada manhã. Você pode ouvir isso na dor claustrofóbica de "
High Horses", de 2009, uma de suas canções mais devastadoras com
Irglová, uma canção que captura o pesadelo absoluto em que a vida se transforma quando você não consegue alcançar alguém de quem já foi próximo. Você pode ouvir isso em "
Her Mercy", de 2015, uma canção de alma sincera — que soa como se sempre tivesse existido — que o encontra localizando o divino no cotidiano. É possível ouvi-lo resumir a loucura e a majestade da própria vida em "
Revelate", da banda
The Frames, de 1995:
"Às vezes", exclama
Hansard, "é tudo demais para suportar" (no original, "Sometimes", it's all too much to take").
A música de
Hansardera sobre abraçar a admiração junto com a inquietação, sobre deixar a luz entrar junto com a escuridão, sobre tentar discernir a beleza e a dor que surgem quando tudo parece demais para suportar. E ninguém parecia gostar mais do trabalho do que ele.
"Estou em uma idade em que ou você pisa fundo no acelerador, ou tira o pé do acelerador", disse
Hansardhá poucos meses. "E eu preciso muito pisar fundo no acelerador. Quero trabalhar. Quero estar no mundo. Quero fazer música."
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