Em entrevista à W Magazine durante sua turnê atual, Harry Styles refletiu sobre fama, privacidade e a maturidade aos 32 anos. Após um período de pausa e reclusão na Itália, o cantor explicou como aprendeu a separar sua identidade pessoal do personagem dos palcos, diminuindo o peso da validação digital e das redes sociais. Com uma nova sonoridade mais eletrônica e focado na conexão real com o público, Styles se prepara para realizar uma residência histórica de 30 shows no Madison Square Garden.
Harry Styles está em uma fase diferente da carreira. Depois de anos vivendo entre grandes turnês, estádios lotados e uma exposição praticamente permanente, o cantor descobriu que também precisava aprender a existir longe dos holofotes.
Em entrevista à W Magazine, publicada nesta terça-feira (25), Styles falou sobre fama, criatividade, redes sociais e a relação com o público. Aos 32 anos, o artista parece mais confortável com a ideia de que não precisa estar o tempo inteiro sendo Harry Styles para saber quem é.
A conversa aconteceu durante sua passagem pela Cidade do México com a turnê Together, Together, que acompanha seu quarto álbum solo, Kiss All the Time. Disco, Occasionally. O novo trabalho apresenta uma mudança na sonoridade do cantor, que deixa parte das referências de rock dos anos 1970 e 1980 de seus primeiros discos para apostar em uma atmosfera mais eletrônica, dançante e influenciada pelo techno.
"Quem sou eu se não estiver fazendo isso?"
A pausa entre uma turnê e outra foi importante para Styles. Depois da extensa agenda de shows de Harry's House, lançado em 2022, o cantor decidiu diminuir o ritmo e dedicar mais espaço à vida pessoal.
Ele passou a viver em uma pequena cidade italiana, longe da rotina de paparazzi, além de frequentar shows e clubes como uma pessoa comum. Para alguém que começou a carreira aos 16 anos, ainda integrante do One Direction, a experiência representou uma mudança profunda.
"Eu me sinto mais confortável com quem sou quando não estou fazendo isso", contou.
Segundo Styles, durante muito tempo existia uma espécie de medo sobre o que aconteceria quando ele não estivesse trabalhando.
"Quem sou eu se não fizer isso?", questionava.
Hoje, essa pergunta parece ter perdido parte do peso. O cantor entende que pode se afastar dos palcos e continuar sendo ele mesmo. E, justamente por isso, voltar a eles se tornou mais prazeroso.
A armadilha de ser observado o tempo inteiro
A relação com a própria imagem também mudou.
Styles contou que uma das razões para seu período de afastamento foi tentar recalibrar a percepção que tinha de si mesmo. Afinal, durante anos, ele esteve constantemente diante da opinião de milhões de pessoas.
"É algo muito antinatural estar sempre vendo a percepção que outras pessoas têm de você", afirmou.
As redes sociais tornaram esse processo ainda mais intenso. Para o cantor, existe uma diferença entre criar algo para o público e passar a criar pensando naquilo que o público espera.
E basta um comentário para essa dinâmica mudar.
"É a morte!", brincou Styles ao falar sobre o momento em que alguém lê uma opinião sobre si.
Para ele, tanto elogios quanto críticas podem ser perigosos quando passam a determinar a maneira como um artista se enxerga.
"Algumas pessoas vão dizer que você é a melhor coisa do mundo, e isso não é verdade. Algumas pessoas vão dizer que você é terrível, e isso também não é verdade."
O palco não é apenas sobre Harry
Apesar de ser o nome estampado nos ingressos, Styles não acredita que um show seja exclusivamente sobre ele.
Ao falar sobre a relação com os fãs, o cantor explicou que prefere enxergar as apresentações como uma experiência compartilhada.
"Não estou guiando você até mim. Estou dizendo que acredito na mesma coisa que você acredita, e estamos todos aqui pelo mesmo motivo, que está além de mim."
A declaração surgiu depois de Julio Torres, responsável pela entrevista, comparar Styles a um astrônomo, e não às próprias estrelas.
A metáfora resume bem a maneira como o cantor enxerga sua atual relação com a fama: ele pode estar no centro do palco, mas a experiência pertence também a quem está na plateia.
Entre lágrimas, chuva e glitter
A passagem pela Cidade do México mostrou exatamente essa conexão.
Durante um dos shows, milhares de fãs enfrentaram a chuva para cantar junto com Styles. No meio da multidão, havia rostos cobertos de glitter, roupas customizadas, rosas, ursinhos de pelúcia e declarações de amor.
Para o cantor, esse retorno às apresentações depois de um período distante tornou a experiência ainda mais intensa.
"Quando você está perto de algo o tempo todo, isso deixa de causar impacto", explicou. "A pausa mudou o contexto."
A experiência também reforçou uma das ideias centrais da entrevista: a importância de viver momentos que não podem ser completamente reproduzidos por uma tela.
Styles acredita que estar ao lado de desconhecidos em um show, compartilhar energia e até enfrentar uma noite de chuva faz parte daquilo que torna uma experiência memorável.
"Quase exclusivamente, minhas coisas favoritas aconteceram em momentos de ser incrivelmente improdutivo", afirmou.
Harry Styles e a vida fora do palco
A água, inclusive, aparece como um elemento recorrente na estética do cantor. Ao ser questionado sobre as referências a peixes e água em seus trabalhos, Styles revelou que existe uma relação pessoal com o tema.
"Se eu não estiver molhado e/ou com frio, não fizemos nada", brincou.
Mas existe também um significado simbólico.
Depois de cada show, uma das primeiras coisas que Styles faz é tomar banho. Para ele, o ritual funciona como uma maneira de deixar para trás a persona que existe no palco.
Durante a apresentação, ele é Harry Styles, o astro diante de dezenas de milhares de pessoas. Minutos depois, está sozinho, vulnerável e sem a imagem construída para o espetáculo.
É uma maneira de "lavar" o personagem e voltar para si.
Uma nova fase
A próxima grande etapa da carreira de Styles será em Nova York. O cantor fará 30 apresentações no Madison Square Garden, sua única parada nos Estados Unidos nesta turnê.
A residência supera sua passagem anterior pela arena, em 2022, quando realizou uma sequência de shows tão marcante que recebeu uma faixa permanente no teto do local.
Agora, mais de 500 mil pessoas devem acompanhar as apresentações ao longo de dez semanas.
O encerramento acontecerá no Halloween, uma data que Styles considera especial justamente pelo caráter coletivo da celebração. Para ele, shows, casamentos e eventos esportivos possuem algo em comum: são momentos em que as pessoas deixam de estar isoladas e passam a compartilhar uma experiência.
Em tempos de inteligência artificial, redes sociais e relações cada vez mais digitais, essa presença física parece ter ganhado ainda mais valor.
E talvez seja justamente aí que esteja o novo momento de Harry Styles.
Depois de anos aprendendo a ser uma das pessoas mais observadas do planeta, ele parece finalmente ter entendido que não precisa ser observado o tempo inteiro.
Ser Harry Styles, agora, também pode significar simplesmente ser Harry.