Megadeth celebra suas diferentes facetas em álbum de despedida; leia resenha

Mais cadenciado que o habitual, disco que leva o nome da banda americana de thrash metal honra carreira gloriosa — ainda que não seja um clássico instantâneo

19 jan 2026 - 16h58
(atualizado às 17h10)

"Eu cheguei. Eu comandei. Agora, eu desapareço." É com essa frase, bem ao estilo Dave Mustaine, que se encerra o álbum final do Megadeth, também chamado Megadeth, a ser lançado nesta sexta-feira, 23. O vocalista, guitarrista, líder e único integrante recorrente de uma das maiores bandas da história do heavy metal se notabilizou ao longo das décadas não apenas por sua música feroz, como também pela língua ferina. O artista de 64 anos fala o que pensa, sem rodeios — inclusive sobre si, normalmente em termos elogiosos.

Chegou ao ponto de ter sido criticado por parte dos fãs ao dizer, no comunicado em que confirmava o fim do Megadeth após um disco e uma turnê finais, que "começamos um estilo musical, começamos uma revolução, mudamos o mundo da guitarra e a forma como ela é tocada, e mudamos o mundo". O americano nascido na Califórnia se refere ao desenvolvimento do thrash metal, subgênero da música pesada que funde metal (especialmente o praticado pelos grupos da New Wave of British Heavy Metal), punk/hardcore e um jeito muito característico de tocar guitarra, em boa parte estabelecido pelo próprio Mustaine.

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Pode soar um pouco arrogante, mas não está errado. Desde a sua rápida passagem pelo Metallica — grupo do qual foi expulso sem cerimônias devido ao comportamento errático —, Dave se estabeleceu como um dos pilares da música pesada. Com o Megadeth, influenciou artistas ao redor do mundo, vendeu 50 milhões de discos e realizou milhares de shows (a base de dados Setlist.fm contabiliza mais de 2,6 mil apresentações ao vivo). Serviu como inspiração também por sua história pessoal ao superar graves problemas de saúde como um câncer e uma séria lesão no braço, encontrar uma saída para sua dependência química e manter seu sucesso mesmo reformulando sua própria banda várias vezes.

Este último ponto exerce alguma influência, ainda que não muita, no álbum de despedida do Megadeth. O décimo sétimo álbum de estúdio do grupo é o primeiro — e, como anunciado, o último — com o guitarrista finlandês Teemu Mäntysaari, trazido para a vaga do brasileiro Kiko Loureiro, que se afastou para estar mais próximo da família. Mäntysaari, que completa a formação com o baterista Dirk Verbeuren e o baixista James LoMenzo, não tem o background diverso de Loureiro: é o típico guitarrista de heavy metal, que cresceu e aprendeu a tocar seu instrumento totalmente imerso no gênero musical.

https://www.youtube.com/watch?v=ECXg-a7XZQI

Todavia, embora Teemu coassine nove das dez faixas presentes na edição convencional, o disco não se aprofunda tanto no lado mais metal do Megadeth. Seja por natural inspiração artística ou pelas limitações vocais e instrumentais de Mustaine, o álbum Megadeth bebe muito das obras mais hard rock da banda, lançadas na década de 1990 e representantes do período de maior sucesso comercial: Countdown to Extinction (1992), Youthanasia (1994) e Cryptic Writings (1997). A veia thrash salta vez ou outra, mas as novas e últimas canções do grupo são mais cadenciadas.

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"Tipping Point", faixa de abertura e primeiro single, é uma rara amostra puramente thrash metal no tracklist. A acelerada canção deixa as guitarras bem à frente ao mesmo tempo em que tem como destaque uma performance soberba de Verbeuren, coautor de quatro músicas. Este, aliás, é um dos trabalhos mais coletivos do Megadeth em termos de autoria, pois Dave assina sozinho apenas a punk-rocker "I Don't Care", responsável por dar sequência à audição numa pegada bem similar à do grupo californiano FEAR. Em seu terço final, adquire caráter metálico com várias trocas de solo entre Mustaine e Mäntysaari.

https://www.youtube.com/watch?v=-E4O5VlRYOY

A veia hard rock anteriormente citada se faz presente em "Hey, God?!", cuja letra apresenta uma espécie de diálogo de Dave, cristão convicto, com Deus. Remete tanto a Countdown to Extinction que um de seus riffs parece extraído do pré-refrão do hit "Symphony of Destruction". A esta altura, está liberado fazer autorreferência. "Let There Be Shred" é outro exemplar thrash, com solos de guitarra no centro da trama e versos que celebram o instrumento.

A partir daí, porém, a audição começa a ficar morosa. Exceção feita à potente "Made to Kill" (com suas bem-vindas variações de andamento) e ao final acelerado de "Obey the Call", todo o disco segue no mesmo andamento cadenciado até próximo de seu encerramento. A dobradinha "Puppet Parade" (cujo riff inicial é praticamente o mesmo de "Almost Honest", faixa de Cryptic Writings) e "Another Bad Day" é pouco convincente, seja pelos vocais praticamente falados da primeira ou pelo refrão óbvio da segunda. "I Am War", única do álbum composta pelos quatro membros, cativa menos ainda.

https://www.youtube.com/watch?v=4IL67t825cA

A melancólica "The Last Note", responsável por encerrar o disco em sua edição convencional, enfim volta a deixar tudo mais interessante. Vem daqui o verso que abre este texto. Mustaine conta ter escrito a letra a respeito dos casos de suicídio na ponte Golden Gate, em São Francisco, mas a ideia original foi reprovada por Mäntysaari (quem diria) e retrabalhada para funcionar como uma despedida autobiográfica do frontman. Exceção feita a seu pouco natural solo de violão no meio, a canção funciona e cativa.

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Quanto à muita comentada versão para "Ride the Lightning", música do Metallica coescrita por Dave e incluída em edições do álbum como faixa bônus, não há muitas mudanças em relação à original. O tom adotado é ligeiramente mais grave, a performance soa um pouquinho mais acelerada e dá para sentir Mustaine sofrer um pouco para cantar as estrofes de verso, naturalmente agudas. Fora isso, a execução é bastante fiel à presente no disco de mesmo nome lançado em 1984. Seguiram à risca e se saíram bem. Só é difícil imaginá-la no repertório da turnê, devido aos vocais desafiadores.

Em uma análise sóbria, Megadeth, o álbum, posiciona-se talvez na segunda prateleira de discos do Megadeth. Apesar de boas canções isoladas, não tem a força de Endgame (2009) e Dystopia (2016), para ficar em exemplos mais recentes de alto nível de qualidade. Mas talvez isso não importe. O simples sentimento de estar ouvindo músicas inéditas de Dave Mustaine e companhia pela última vez ajuda a engrandecer a audição, mesmo nos momentos mais morosos na segunda metade do tracklist.

https://www.youtube.com/watch?v=kj9OK_n6rpw&list=RDkj9OK_n6rpw&start_radio=1&pp=ygUNbWVnYWRldGggMjAyNqAHAdIHCQlPCgGHKiGM7w%3D%3D

O grande mérito do o trabalho final do grupo está em homenagear diferentes momentos de sua obra sem soar como pastiche de si próprio. O Megadeth mudou bastante ao longo de sua trajetória e várias de suas facetas são representadas aqui. Se não é um clássico instantâneo, ao menos faz justiça a uma banda e a um músico que, sim, começaram um estilo musical, começaram uma revolução, mudaram o mundo da guitarra e a forma como ela é tocada, e mudaram o mundo.

*Megadeth, o álbum, será lançado nesta sexta-feira, 23, pela Tradecraft/BLKIIBLK. Capa e tracklist abaixo.

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Foto: Rolling Stone Brasil

1. Tipping Point

2. I Don't Care

3. Hey, God?!

4. Let There Be Shred

5. Puppet Parade

6. Another Bad Day

7. Made To Kill

8. Obey The Call

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9. I Am War

10. The Last Note

11. Ride The Lightning (Faixa bônus)

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