Oferecimento

Maria Rita: 'Nunca tinha parado para ouvir na minha mãe o que poderia ser acolhedor para mim'

Ao 'Estadão', a cantora, que afirma ter passado por um esgotamento que gerou 'medo' do palco, diz como vem se curando. Ela também fala da mãe, de quem pegou o repertório emprestado para reencontrar o colo, e da amiga Rita Lee. 'Eu precisava da alegria de viver dela'

15 ago 2026 - 13h06

Maria Rita se cerca de afetos no show Redescobrir 2, que ela apresenta pela primeira vez em São Paulo neste sábado, 15, no Vibra São Paulo. A começar pelo repertório da mãe, Elis Regina (1945-1982), o qual ela já havia abordado em Redescobrir, de 2012. No palco, junto com a banda de amigos, está seu filho, Antônio Baldini, ao violão. No microfone, um crochê feito pela filha, Alice. No bis, Lança Perfume, música de Rita Lee (1947-2013), sua amiga e 'comadre' de Elis.

Publicidade

Foi preciso, segundo Maria Rita. Faz parte do que ela chama de "cura" de um período de exaustão, diagnosticado como síndrome de burnout, que a acometeu nos últimos dois anos. "Comecei a sentir medo do palco", diz ela, com mais de 25 anos de carreira, oito prêmios Grammy Latino e inúmeros shows no Brasil e no exterior.

Cantar novamente as músicas que a mãe gravou — mesmo que o show seja para ela, como explica em entrevista ao Estadão — é a busca por algo de que ela não havia se dado conta até então. "Algo me diz que ela seria a única pessoa capaz de me entender, orientar e acolher em um ponto muito específico de uma mãe e uma filha que compartilham da mesma profissão, dos mesmos desafios e de quase a mesma altura."

Maria Rita também fala sobre percepções: as que tem sobre a profissão que diz tê-la escolhido: "Entendi que a música também tem que me servir para que eu melhore e cresça." Ou do que possam pensar sobre ela e suas escolhas profissionais — atualmente, fora de Redescobrir 2, totalmente dedicadas ao samba: "Eu sei quem eu sou, ou quem eu quero ser, dentro e fora dos palcos. Pouquíssimas são as pessoas que sabem da minha vida."

O show parece mais para você do que um show para Elis. É isso mesmo? Por que foi importante que ele ocorresse por meio do repertório de sua mãe?

Respeitosamente, é um show para mim. Como venho comentando, nestes dois anos de trabalho em que vivi com o diagnóstico de burnout, foi exaustivo, difícil de digerir, de entender. De me entender dentro desse contexto a partir do momento em que comecei a sentir medo do palco, do que eu estava fazendo, da noção do que isso que era. Um dia, me peguei olhando para o vazio. Veio-me a imagem de um palco todo branco e eu de vermelho no centro; eu não sabia o que fazer com ela, tamanha a exaustão mental, espiritual, física e emocional em que eu estava. Eventualmente, entendi que era um coração pulsando em cima do palco. As músicas da minha mãe são o colo. Algo me diz que ela seria a única pessoa capaz de me entender, orientar e acolher em um ponto muito específico de uma mãe e uma filha que compartilham da mesma profissão, dos mesmos desafios, de quase a mesma altura (risos). Fundamentalmente mulheres inteligentes, dedicadas, profissionais e talentosas. Foi uma busca consciente — e eu nunca havia feito isso antes. Nunca tinha parado para ouvir nas mensagens de minha mãe o que poderia ser acolhedor e maternal para mim. A partir disso, o público vai pensar o que quiser, como é com a arte em geral. Quem estiver ali ouvindo pode sentir saudade da minha mãe, de mim ou de si mesmo.

Publicidade

Há uma descontração no bis, com 'Lança Perfume', música de Rita Lee. Uma canção que sua mãe não gravou, mas cantou na última turnê dela, também com relaxamento total — e sem medo de ser julgada, algo que parece ter perseguido ela por um bom tempo. O que essa canção significa para você?

Essa música entrou no show pela relação que eu tinha com a Rita. Não nos falávamos com tanta frequência, mas eu tenho por ela um amor gigantesco, que imagino ser mesmo de uma espécie de mãe, madrinha, confidente. Os filhos dela me chamam de irmã, irmãzinha. Muito afeto entre nós. E eu sempre tive, tanto com ela quanto com o Roberto [de Carvalho] e os meninos, a certeza de que, se eu precisasse, eles parariam o que estivessem fazendo para me ouvir e acolher. Além disso, eu me vejo um pouco nela, na irreverência, na graça da desgraça. Rita foi a única mulher de quem tenho memória de ter visto na intimidade de um camarim, pré-show. Jamais vou esquecer dessa imagem. Neste momento tão delicado da minha vida pessoal e profissional, eu precisava trazê-la para perto. Eu precisava da alegria de viver dela.

O show não fala apenas sobre alegria. Fala sobre amor, emoção e luta — como em músicas como 'Zambi', 'Jardins da Infância' e 'Como Nossos Pais'. Em uma de suas primeiras entrevistas, em 2001, para uma revista chamada 'Mulheres Que Fazem', você disse que desejava voltar a morar no Brasil, 'dar uma de Joana d'Arc e salvar a pátria, utilizar minha formação acadêmica para tentar melhorar algum aspecto do meu País'. Acha que já conseguiu fazer alguma coisa por meio da música?

Não sei. Às vezes acho que não e, ultimamente, venho questionando esse papel. Não sei se faz mais sentido, no mundo do jeito que ele está. Não sei, de verdade. Porém, recebo mensagens nas redes sociais de pessoas relatando a força com que lidam com os desafios de suas vidas através — ou por causa — de alguma mensagem das músicas do meu repertório, ou mesmo por alguma coisa que falei, ou algo na minha voz. Não sei se mudei ou se mudarei um país. Mas me acalma a noção do pertencimento que outros sentem por meio de mim. Arte, no final das contas, é esse salvamento, esse pertencimento, esse acalmar de almas e corações.

O problema de ser Joana d'Arc é ser jogada na fogueira.

Exatamente. E eu fui, né? Perder a noção dos meus limites, do meu tempo, alguns 'nãos' por medo de ser queimada. Fui mesmo assim (falo aqui me referindo ao esgotamento que vivi e ainda estou compreendendo)…

Henfil escreveu um texto no qual ele diz que "nós, homens, matamos Elis". Como se protege de todas as cobranças e do machismo que ainda persistem na sociedade e no meio artístico?

Os homens matam todas nós, um pouco, a cada dia. No medo de andar sozinha, no receio de se impor, no silêncio para não agravar uma conversa acalorada, na escolha das roupas, no podar dos sonhos. Como se proteger? Eu não sei. Não tenho essa fórmula. Eu venho aprendendo com essa fogueira aí que você mencionou: me queimando e trocando a pele. Porque a toxicidade dos relacionamentos não é uma coisa muito fácil. Impor limites é invariavelmente percebido como arrogância ou prepotência, seja em casa ou no trabalho. Eu desenvolvi ferramentas para lidar com o machismo estrutural no meu meio, que, geralmente, implicam deixar que eles, homens, acreditem que mandam em mim. Não vou me aprofundar porque é perigoso…

Publicidade

Elis, em uma entrevista de 1978, disse que tinha analisado, pesado e medido muito bem e entendido que ser cantora se tratava de uma solidariedade com as pessoas [o público]. Você já chegou a alguma conclusão sobre a profissão que escolheu?

Que bonito! Não sabia disso... Acho que cheguei, sim, a uma conclusão sobre a profissão que me escolheu (tomo aqui a liberdade de te corrigir um tiquinho: neste caso, a ordem dos fatores altera o produto! risos). Eu vivi muito essa coisa da solidariedade para com o público, sim. O público sempre maior. A coisa de servir à música. Isso ainda vibra em mim um tanto. Mas vale lembrar que minha mãe morreu aos 36 anos e eu tenho 48. É possível que ela, aos 48 anos, tivesse mudado de opinião. Eu mudei. Porque eu entendi que a minha solidariedade (e gratidão) não pode, jamais, me tornar refém da profissão, da cantora. Entendi que a música também tem que me servir para que eu melhore e cresça. E, para mim, esse é o maior desafio. Não só por eu amar cantar, subir num palco e olhar o público nos olhos — esse amor, às vezes, machuca —, mas é também o desafio de não ser só isso o tempo todo. Entende? De novo: limites. Sem ofensa. Sem dor. Sem culpa. Ser cantora é, sim, sobre solidariedade e comunidade. Eu só não posso e não quero mais perder de vista a seguinte pergunta: 'A que custo?'

Isso também dá certa carga à profissão. Já conseguiu apenas se divertir no palco?

Sem a menor sombra de dúvida! No palco eu sou muitas! Inclusive a diversão, moleca, gaiata…

Você consegue analisar Elis tecnicamente, como cantora, sem o sentimento de filha?

Consigo, sim. Desde muito cedo precisei desenvolver a chave 'filha versus gestora', 'minha mãe versus artista de todos'. Trazer para essa dinâmica a cantora não foi muito difícil. Elis apresenta um equilíbrio invejável entre a técnica e a emoção, a inteligência e a entrega irrestrita, a paixão carnal e a indignação política. Isso é raro. Muito, muito raro. Não sei de muitas outras que conseguiram ou conseguem. Eu evito ouvi-la, assim como evito ouvir tantas outras colegas de profissão, porque é muito impactante e impressionante, e eu jamais quero me colocar num lugar de inadequação enquanto cantora, sabe?

Em 2022, em uma entrevista ao 'Estadão', você falou sobre seu primeiro disco, mais precisamente sobre a imagem que foi criada para aquele projeto. Você disse que 'nunca foi aquela menina fofinha'. Você não parecia 'fofinha' quando cantava 'Não Vale a Pena' ou 'Santa Chuva'. Ou frágil quando cantava 'Cupido', apesar da sonoridade mais cool. A questão é que essa sua imagem, para boa parte do público, ainda é aquela. Como você resolve essa questão?

Não resolvo. Desisti há muito tempo. O público é soberano. Não importa se ele me vê de uma maneira ou de outra. Quando eu lanço um trabalho, eu só posso esperar que o público compreenda, ou interprete, ou tome para si. No final das contas, eu sou um canal. E eu sei quem eu sou, ou quem eu quero ser, dentro e fora dos palcos. Pouquíssimas são as pessoas que sabem da minha vida, do que eu passei, do que eu passo, das dores. E é isso. Se para aquela pessoa funciona me ver como aquela garota de 24 anos, está tudo bem para mim.

E o que diria às pessoas que ainda esperam aquela Maria Rita de 2002?

Eu não diria nada! Eu, no máximo, sugeriria que elas lembrassem que é da natureza humana a mudança. Mas aí eu posso estar me sentindo na evolução (melhorando), enquanto outra pessoa esteja me percebendo na involução (piorando). Como disse o sábio: a palavra é metade de quem fala e metade de quem ouve. A vivência do outro vai informar tudo o que ele ouve, né?

Publicidade

Há uma frase de sua mãe na qual ela diz que a profissão dela [de cantora] é como outra qualquer e que o importante é encarar bem ela sem 'necessariamente ser obrigada a lidar com o paetê, a lantejoula e a tietagem'. Falando ainda sobre seu lançamento na carreira, você passou por esses estágios, obviamente. Quando entendeu que isso não era exatamente parte obrigatória de sua profissão?

Desde sempre. Porque eu tinha uma necessidade quase selvagem de cantar. Era sobreviver. Se me tirassem o direito de cantar, eu não ficaria bem. Minha relação nunca foi com a fama, mas, sim, com a arte, que me permitia respirar. E, fundamentalmente, eu acredito demais que a minha profissão é como outra qualquer, com desafios, dores, alegrias e cores.

Um projeto como 'Redescobrir 2', grandioso e de alto valor sentimental para você e para o público, gera a pergunta: o que fazer depois? Já pensa em qual passo dar?

Penso, sim. Tenho uns três projetos já desenhados. Com quase 25 anos de carreira, eu posso garantir que nenhum projeto define (no sentido da finitude) minha trajetória. Mesmo este, sendo grandioso e importante. E isso eu tenho muita tranquilidade em afirmar porque tudo o que eu penso, eu entrego com a mais absoluta verdade. O que cantei há 20 anos era a minha verdade naquele momento. Hoje, esta é a minha verdade. E vai passar. Vai melhorar. Vai me curar.

Maria Rita - Redescobrir 2

  • 15/8, 22h.
  • Vibra São Paulo. Av. das Nações Unidas, 17.955, Vila Almeida.
Fique por dentro das principais notícias de Entretenimento
Ativar notificações