Oferecimento

O excesso e o luto das possibilidades: Internet, nostalgia e o presente flutuante, por Day Limns

"Do que sentimos tanta falta? Faço parte de uma geração nostálgica e constantemente me pego fazendo essa pergunta", escreve Day Limns. O post O excesso e o luto das possibilidades: Internet, nostalgia e o presente flutuante, por Day Limns apareceu primeiro em POPline.

15 ago 2026 - 12h07

A cantora Day Limns é a terceira convidada da Coluna Pop, um espaço no POPline para os artistas expressarem suas opiniões, anseios e perspectivas sobre música e mercado, e compartilharem histórias pessoais, em comemoração aos 20 anos do portal.

(Foto: Larissa Queiroz)
(Foto: Larissa Queiroz)
Foto: Popline

Do que sentimos tanta falta?

Publicidade

Faço parte de uma geração nostálgica e constantemente me pego fazendo essa pergunta. Acho que sentimos falta de algo que nunca conseguimos tocar completamente. Algo que imaginamos. Algo que foi reconstruído emocionalmente tantas vezes que virou sensação antes mesmo de virar memória. Faz sentido?

Sinto que estamos constantemente recriando o passado e desenhando futuros enquanto o presente parece suspenso no ar, sem gravidade. Flutuando.

Não pousa.

Não aterriza.

Publicidade

Não toca o chão.

E a memória não parece mais se consolidar da mesma forma.

Tenho 31 anos. Fui criança e adolescente nos anos 2000. Era crente, mas também completamente obcecada por bandas, cantoras e pela sensação de existir em outros lugares emocionalmente possíveis.

Eu até entendo a nossa fascinação por aquela época, mas o mais curioso é que eu não lembro de me sentir plenamente feliz nela. Inclusive, eu recorria à internet justamente para escapar da minha realidade.

Mas talvez aí exista uma diferença importante:

Eu entrava na internet.

Publicidade

Ela não era um estado permanente de existência. Era um lugar paralelo. Um laboratório emocional. Um espaço onde eu podia imaginar outras versões da minha vida.

Eu tive Fotolog, Orkut, Tumblr. Criava fake. Escrevia fanfic. Eu era, e ainda sou, especialista em me imaginar, caso isso ainda não tenha ficado um tanto óbvio.

Mas crescer nos anos 2000 parecia ser isso: construir identidade quase como quem faz uma colagem à mão. Colecionando referências e possibilidades aos poucos. Escrevíamos "p@ixão", "s2", "am0r", "poe$ia", "put@ria", porque ainda era um lugar que parecia, sei lá, uma brincadeira.

Existia espaço entre as coisas.

Tempo para amadurecer uma curiosidade.

Publicidade

Tempo para simplesmente existir sem precisar transformar tudo imediatamente em conteúdo.

Tempo para desenvolver uma personalidade e ela ser própria, curada por nós mesmos, sem algoritmos acelerando o ritmo e antecipando o desejo.

Hoje existe uma dificuldade enorme de sustentar presença.

Na mesma hora em que vivo uma experiência, parece que eu já preciso arquivá-la para conseguir viver a próxima. O "@" virou identidade. O "$" se tornou métrica. A brincadeira ficou séria e real demais e parece não ter mais para onde fugir.

A vida virou um edit e existe uma falsa sensação de controle nisso tudo. E eu entendo completamente por que isso seduz tanto.

Eu mesma usei e ainda uso a internet para sobreviver emocionalmente a lugares onde eu não consigo existir plenamente.

Tem gente que cria um fake porque não suporta a própria realidade. Tem quem despeja tudo numa conta anônima porque precisa existir em algum lugar sem se sentir completamente julgado.

Publicidade

Mas aos 30 anos eu comecei a perceber uma coisa que talvez seja óbvia:

A vida concreta exige algo que a internet não exige da mesma forma.

Escolha.

E escolher dói.

Porque escolher também significa matar possibilidades.

Então talvez exista um luto contemporâneo das vidas não vividas. Das versões de nós mesmos que só conseguimos experimentar na imaginação ou nesse ambiente editável da internet, onde tudo parece reversível, coexistente e infinitamente possível.

Mas na vida real não.

Publicidade

Na vida real existe limite.

Existe consequência.

Existe presença.

Existe renúncia.

Na nossa humanidade, no corpo físico, a gente não consegue viver todas as vidas ao mesmo tempo.

E, ao meu ver, é justamente aí que a ansiedade começa.

Porque a internet nos acostumou a viver em estado permanente de possibilidade enquanto o corpo continua existindo no tempo real.

No agora.

Publicidade

E presença é um compromisso estranho porque ela acontece exatamente no lugar onde as possibilidades deixam de ser infinitas.

É um dia de cada vez.

Sem filtro.

Sem edição.

E o desafio é grande, porque enquanto isso o passado e o futuro continua acessável, editável e reativável o tempo inteiro.

A memória virou um HD emocional infinito.

E talvez a nossa geração sinta falta de textura.

Demora.

Publicidade

Imperfeição.

Profundidade.

De algo palpável.

Penso que é por isso que tanta gente, inclusive eu, estamos voltando para VHS, handcams, cybershots, blogs, mixtapes e estéticas analógicas. Não só pela estética em si, mas porque essas imagens ainda carregam uma sensação de presença humana.

Ruído.

Limite.

Matéria.

Sei lá, talvez a nossa obsessão pelos anos 2000 tenha menos a ver com querer voltar para o passado e mais com tentar lembrar:

Publicidade

Como é deixar uma memória se formar antes de registrá-la?

Como era sustentar uma escolha sem precisar imaginar todas as outras?

Como simplesmente existir sem se transformar em narrativa?

Me sinto a pior pessoa para responder essa pergunta, já que, enquanto artista, transformar experiências em histórias é a minha forma de trazer sentido à existência da vida.

Então eu não sei.

Mas talvez seja preciso aprender a conviver com infinitas possibilidades sem abandonar a experiência de estar presente em uma delas.

Day Limns convida os fãs a visitarem também seu blog, com mais textos opinativos e íntimos.

O post O excesso e o luto das possibilidades: Internet, nostalgia e o presente flutuante, por Day Limns apareceu primeiro em POPline.

Publicidade
Popline
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se